Dra. Carolina Mantelli, endocrinologista, explica como alterações no hipotálamo podem interferir nos sinais de fome, saciedade e metabolismo e dificultar o controle do peso
A obesidade é uma condição complexa e multifatorial, que vai muito além da alimentação ou do número mostrado na balança. Entre os mecanismos estudados pela ciência está a inflamação do hipotálamo, região do cérebro responsável por funções fundamentais relacionadas à fome, à saciedade e ao gasto energético.
Segundo a endocrinologista Dra. Carolina Mantelli, o hipotálamo funciona como uma espécie de centro de comando do organismo, interpretando sinais enviados por hormônios como leptina, grelina e insulina.
“Nosso cérebro recebe constantemente informações sobre fome, saciedade e disponibilidade de energia. Quando existe um processo inflamatório no hipotálamo, essa comunicação pode ficar prejudicada e o organismo passa a responder de maneira inadequada a sinais que deveriam ajudar a manter o equilíbrio metabólico”, explica a Dra. Carolina Mantelli.
Hábitos como alimentação rica em ultraprocessados e açúcares, privação de sono, estresse crônico e alterações da microbiota intestinal podem contribuir para processos inflamatórios no organismo. Nesse cenário, mecanismos relacionados à leptina, à insulina e ao controle da fome podem sofrer alterações.
“A leptina é um dos hormônios envolvidos na sinalização de saciedade. Quando ocorre resistência à sua ação, o cérebro pode não interpretar adequadamente a mensagem de que existe energia suficiente armazenada. Ao mesmo tempo, alterações na ação da insulina e nos mecanismos que regulam a fome podem favorecer um ambiente metabólico mais propício ao ganho de peso”, afirma a endocrinologista.
Na prática, isso ajuda a explicar por que tratar a obesidade exclusivamente como uma questão de força de vontade é uma visão limitada. Fatores hormonais, metabólicos, neurológicos, ambientais e comportamentais participam do desenvolvimento e da manutenção da doença.
“É importante retirar o julgamento da discussão sobre obesidade. Existem mecanismos biológicos capazes de aumentar a fome, reduzir a percepção de saciedade e dificultar o controle do peso. Não podemos resumir uma condição tão complexa à falta de disciplina”, destaca Carolina Mantelli.
A prevenção e o tratamento passam por uma abordagem ampla. Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos in natura ou minimamente processados, rica em fibras e nutrientes, associada à prática regular de atividade física, sono adequado, manejo do estresse e cuidados com a saúde intestinal, pode contribuir para melhorar a saúde metabólica e reduzir processos inflamatórios.
“O objetivo não é simplesmente ‘comer menos’. Precisamos criar um ambiente biológico mais saudável para que os mecanismos de fome, saciedade e metabolismo funcionem da melhor maneira possível. Sono, alimentação, exercício, saúde intestinal e controle do estresse fazem parte dessa construção”, explica.
Para a Dra. Carolina Mantelli, compreender a participação do cérebro no controle do peso também permite uma abordagem mais humana e individualizada da obesidade.
“Quando entendemos que o peso corporal é regulado por uma rede extremamente complexa de sinais, deixamos de olhar apenas para a balança. Cuidar da obesidade significa cuidar do organismo como um todo, incluindo cérebro, hormônios, metabolismo, comportamento e saúde emocional”, conclui a endocrinologista.
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