“A história que eu queria contar esteve dentro de mim o tempo todo”: Madison Pankey fala sobre FAST e sua descoberta da atuação

Luca Moreira
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Madison Pankey (Kelly Balch)
Madison Pankey (Kelly Balch)

Antes de imaginar uma carreira como atriz, Madison Pankey sonhava com o espaço. Interessada em astrofísica e na possibilidade de se tornar astronauta, ela enxergava a exploração do universo como uma forma de compreender a própria história da humanidade. Foi somente durante os anos em Harvard, ao preparar seu primeiro monólogo em uma aula de atuação, que algo se encaixou: “A história que eu queria contar explorando o espaço, na verdade, esteve dentro de mim o tempo todo.”

Agora, Pankey leva essa curiosidade para FAST, longa no qual interpreta Sterling, uma determinada piloto de corrida que a levou a aprender a conduzir um Lotus 51-C vintage e a descobrir, literalmente atrás do volante, novas dimensões da força física e mental da personagem. Em entrevista, a atriz fala sobre vulnerabilidade como força, a influência de sua formação em História da Ciência na construção de personagens, a importância de confiar no próprio corpo e uma filosofia que passou a orientar seu trabalho: contar histórias como uma forma de amor capaz de fazer as pessoas se sentirem vistas — e, ao mesmo tempo, desafiadas.

FAST representa um momento importante na sua trajetória, com você protagonizando um longa que estreia no MoMA. O que primeiro atraiu você para a personagem e quando percebeu que o filme exigiria algo diferente de tudo o que já havia feito antes?

Eu senti que conhecia Sterling desde o momento em que li a descrição da personagem. Ela é uma sonhadora forte, apaixonada e sem pretensões, que deseja construir uma vida melhor para si mesma. Sei como é precisar mudar de direção e me reinventar, e me identifiquei com esse lado de Sterling. Acho que também queria ser um pouco mais parecida com ela.

Percebi que seria diferente de tudo o que já havia feito quando me pediram para enviar um vídeo meu dirigindo um carro com câmbio manual. Sterling é piloto de corrida, então, naturalmente, eu também teria que me tornar uma!

Para o papel, você aprendeu a pilotar um Lotus 51-C vintage em uma antiga pista que já recebeu competições da NASCAR. Como esse treinamento físico e técnico mudou sua compreensão da personagem? Houve algo sobre ela que você só descobriu quando literalmente assumiu o volante?

Pilotar o Lotus me ensinou o quanto Sterling realmente era forte, tanto física quanto mentalmente. A embreagem do Lotus era muito mais pesada do que a de um carro de rua convencional. Eu praticamente precisava usar o corpo inteiro para pressioná-la. Eu saía das sessões de pilotagem sentindo que minha perna esquerda tinha acabado de fazer um ótimo treino.

Sterling passava horas todos os dias aperfeiçoando seus traçados na pista, então entendi o quanto ela precisava ser fisicamente forte. Mentalmente, pilotar o Lotus exigia precisão técnica e uma consciência constante de tudo ao meu redor, algo que pode ser exaustivo. Isso me fez valorizar ainda mais a resistência mental de Sterling. É preciso um tipo muito específico de força para fracassar, fracassar novamente e, ainda assim, continuar tentando.

Sua biografia descreve seu trabalho como uma combinação de vulnerabilidade emocional e determinação. Essas qualidades podem parecer quase contraditórias, mas frequentemente coexistem nas mulheres que você interpreta. O que interessa a você em personagens que precisam ser fortes sem perder a vulnerabilidade?

As mulheres que conheço e admiro na minha vida carregam essas duas qualidades. É por isso que me sinto atraída por personagens que também possuem esses traços. Elas parecem reais. Acho que vulnerabilidade, na verdade, é uma forma de força.

Quando somos vulneráveis e compartilhamos quem somos com outras pessoas, damos a elas a oportunidade de também se abrirem. A determinação é aquilo que nos permite continuar vulneráveis enquanto seguimos em frente. Espero conseguir ser mais parecida com essas personagens: perseguir incansavelmente a vida que desejo, enquanto permito que a delicadeza e a gentileza me orientem.

Antes de seguir a atuação, você planejava estudar astrofísica e chegou a imaginar uma carreira como astronauta. Quando percebeu que contar histórias havia deixado de ser apenas um interesse e se tornado o caminho que realmente queria seguir?

Contar histórias sempre foi meu propósito, mas isso definitivamente acabou assumindo uma forma diferente. Eu amo o espaço e as viagens espaciais porque acredito que eles fazem parte da história da humanidade. Descobrimos verdades sobre a nossa existência e ampliamos nossa compreensão sobre a história de quem somos. Com a atuação, agora encontro a história da humanidade dentro de mim mesma.

No meu segundo ano da faculdade, fiz uma disciplina de cinema como optativa. Para um dos trabalhos, precisávamos criar um curta-metragem que exigia um pouco de atuação. A professora daquela disciplina me convidou para fazer uma aula de teatro que ministraria na primavera, porque achava que eu iria gostar muito. Não consegui fazer o curso dela por conflitos de horário, mas acabei entrando em outra disciplina voltada à performance.

Foi somente na primavera do meu terceiro ano que fiz minha primeira aula de atuação de verdade. Enquanto preparava meu primeiro trabalho — um monólogo —, tudo se encaixou. A história que eu queria contar explorando o espaço, na verdade, esteve dentro de mim o tempo todo.

Você estudou História da Ciência e Teatro, Dança & Mídia em Harvard — áreas que, à primeira vista, podem parecer bastante diferentes. Você sente que sua formação científica ainda influencia a maneira como observa personagens, pesquisa papéis ou pensa sobre narrativa atualmente?

Com certeza! Adorei ter tido a oportunidade de estudar as duas áreas simultaneamente porque elas contribuíam enormemente uma com a outra. Acho que abordo minhas personagens com uma mente bastante científica, decompondo a personagem e a história para compreender suas razões e seus propósitos.

Eu adoro pesquisar e, quando trabalho com uma personagem, posso mergulhar profundamente em sua história. Quero compreender como teria sido a vida daquela pessoa momento a momento. De maneira semelhante, a História da Ciência estuda como e por que a ciência se desenvolveu e quais foram suas consequências para nós atualmente. Então, de certa forma, a própria área já possui narrativa incorporada nela.

Na História da Ciência, inclusive, usamos um termo chamado “actor’s category” [“categoria do ator”], que envolve compreender acontecimentos e figuras históricas através das perspectivas e estruturas que estavam disponíveis para as pessoas daquela época, em vez de impor sobre elas visões contemporâneas.

Essa é uma parte essencial da História da Ciência porque permite que o pesquisador observe acontecimentos do passado tentando limitar julgamentos ou vieses modernos. De certa forma, é tudo uma questão de circunstâncias dadas.

Sua trajetória inclui cheerleading universitário, trekking, improvisação, clowning e manipulação de bonecos. Até que ponto essa relação física com o mundo aparece na sua atuação, mesmo quando um papel não parece necessariamente exigir uma performance atlética?

Minha fisicalidade influencia todas as minhas performances, mesmo quando o papel não é atlético. Preciso conseguir confiar no meu corpo e permitir que ele me guie para encontrar a personagem. Adoro estar no set e poder realmente interagir com o universo da personagem, porque isso afeta profundamente a maneira como me comporto.

Acho que, tanto na vida quanto na atuação, nosso corpo nos dá pistas sobre aquilo que parece certo ou errado. É uma espécie de sensação instintiva. Tento confiar no meu corpo e nas reações dele mesmo quando isso parece assustador. Especialmente quando parece assustador.

Sua biografia diz que você pratica a arte de contar histórias como uma “forma de amor”. O que essa ideia significa para você hoje e o que espera que as pessoas sintam quando entram em contato com uma história que você escolheu ajudar a contar?

Passei a perceber que o amor é realmente a força que guia minha vida. O amor pelos meus amigos, pela minha família, por mim mesma e pelo mundo ao meu redor. Acho que o amor é uma das forças mais poderosas do universo. O amor faz com que pessoas mudem suas vidas umas pelas outras, iniciem guerras, mudem de cidade e de emprego, deixem para trás aquilo que conhecem e experimentem alegria. Para mim, contar histórias é uma forma de amor porque exige que olhemos para além de nós mesmos.

Quando contamos a história de outra pessoa, estamos pedindo aos outros que enxerguem a humanidade dela, mesmo quando essa pessoa possui falhas ou é difícil de compreender. Quero que as pessoas se sintam vistas e, ao mesmo tempo, sejam desafiadas em suas maneiras atuais de compreender o mundo. Quero que as histórias que conto ajudem a transformar este mundo para melhor. Quero que elas tragam esperança para outras pessoas, deem espaço para o luto e, no fim das contas, inspirem mais amor.

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