Brian Gilleece fala sobre Colin Farrell, Sugar e por que atores não deveriam colocar prazo no próprio sonho

Luca Moreira
13 Min Read
Brian Gilleece (Carina Conti)
Brian Gilleece (Carina Conti)

Em uma profissão marcada por audições, rejeições e pela pressão constante para alcançar rapidamente uma grande oportunidade, Brian Gilleece escolheu retirar o relógio da própria carreira. Ao lembrar atores como Harrison Ford, Bradley Cooper, Alan Rickman, Samuel L. Jackson e Kathy Bates — com quem trabalhou em Matlock —, ele questiona quantos grandes talentos teriam sido perdidos caso todos tivessem estabelecido uma idade limite para alcançar o sucesso. “Imagine se eles tivessem desistido. O que teríamos perdido?”, reflete o ator.

Essa filosofia acompanha uma trajetória que já passou por produções como Westworld, Hollywood e Matlock e que agora ganha um novo capítulo com Iain, personagem recorrente da segunda temporada de Sugar. Em entrevista, Gilleece fala sobre construir um personagem inicialmente sem diálogos, revela o que aprendeu observando Colin Farrell dentro e fora das câmeras e explica por que trabalho em equipe, paciência e a capacidade de reconhecer as próprias conquistas se tornaram fundamentais para sua vida em Hollywood.

Você comentou que, crescendo na Nova Inglaterra, atuar nunca pareceu uma profissão realmente possível e que inicialmente estudou administração antes de se mudar para Los Angeles. Houve algum momento específico em que percebeu que precisava deixar o caminho convencional para trás e descobrir até onde a atuação poderia levá-lo?

Não foi exatamente um único momento decisivo, mas algo construído ao longo de uma vida inteira de observações. Simplesmente ficou claro para mim que eu queria algo diferente.

A Nova Inglaterra é linda e um lugar maravilhoso para crescer, mas representa uma versão bastante tradicional da vida, e eu nunca me senti como aquele tipo de cara da “cerca branca e casa perfeita”.

Acabei percebendo que aquela versão da vida não seria satisfatória para mim e que precisava descobrir qual versão seria.

Sempre me senti muito feliz por ter estudado administração, porque o negócio da atuação pode ser bastante imprevisível financeiramente e eu sou um garçom bem ruim! Então, trabalhar na área empresarial sempre me proporcionou uma base financeira sólida sobre a qual pude construir minha carreira.

Além disso, é importante ter outra coisa na qual investir tempo e energia entre um projeto e outro. O que você faz quando não está atuando? Porque essa é uma das maiores partes de ser ator: descobrir como não enlouquecer enquanto espera pelo próximo trabalho.

Você descreve a atuação como uma busca para a vida inteira, em contraste com os esportes, nos quais existe um relógio físico e temporal muito mais evidente. Essa sensação de não ter um prazo definido mudou a maneira como você encara ambição, rejeição e sucesso na carreira?

Já vi muitos atores estabelecerem para si mesmos esses prazos completamente arbitrários: “Se isso não acontecer até eu completar 30 anos, vou desistir” ou “Se eu não conseguir um papel fixo em uma série no próximo ano, vou voltar para casa”.

Isso é muita pressão.

E pense em quantos grandes atores teríamos perdido caso todos pensassem dessa maneira.

Harrison Ford, Bradley Cooper, Alan Rickman, Samuel L. Jackson e até Kathy Bates, com quem trabalhei em Matlock, só tiveram aquilo que poderíamos chamar de sua “grande oportunidade” mais tarde em suas vidas e carreiras e, ainda assim, tiveram um impacto extraordinário.

Imagine se eles tivessem desistido. O que teríamos perdido?

Eu estou nisso para o longo prazo. Amo atuar, então por que colocaria um relógio sobre isso quando essa é uma das poucas profissões que não exige um?

Quem sabe o que o futuro reserva?

E quanto à “rejeição”, trabalhei profissionalmente com vendas externas por mais de 15 anos, fui árbitro de hóquei no gelo, árbitro de beisebol e fiz stand-up comedy. Então lido muito bem com feedback difícil. É praticamente meu estado natural.

Brian Gilleece (Carina Conti)
Brian Gilleece (Carina Conti)

Iain começou como um personagem recorrente sem diálogos previstos no roteiro, o que significava que grande parte dele precisaria ser construída por meio de presença e fisicalidade. Como criar uma personalidade memorável quando, inicialmente, você não pode depender das palavras?

Bom, antes de tudo, quero deixar claro que eu estava tentando contribuir da melhor maneira possível para a série do Colin, trazendo o máximo que pudesse para o meu personagem.

Quanto a ser memorável, deixo isso para Colin e Laura, que foram fantásticos.

Uma coisa que eu fazia era sempre tentar carregar um segredo, alguma coisa que ninguém mais naquela cena soubesse, para criar uma sensação de mistério.

O público não sabe quem esses caras são, o que fazem, o que estão planejando ou qual é a relação deles com Sugar ou Charlotte. Então criar essa sensação de mistério realmente se tornou um dos meus principais focos.

Você e Moose Khan pensaram em detalhes como a maneira como seus personagens sentariam, segurariam uma bebida ou atravessariam uma sala. Existe algum pequeno gesto ou escolha física que você deu a Iain que talvez o público nem perceba conscientemente, mas que revele algo importante sobre quem ele é?

Eu adoraria ter conseguido fazer um Brad Pitt e estar sempre terminando alguma coisa de comer durante uma cena — adoro quando ele faz isso! —, mas simplesmente não aconteceu.

Não, não havia nada específico que estivesse totalmente “fixado”.

Você precisa simplesmente interpretar a cena dentro do momento e do lugar em que está.

No restaurante, fizemos algumas escolhas muito diferentes das que fizemos durante a festa, porque nossa relação com Sugar havia mudado e a história já havia evoluído.

Então simplesmente nos concentramos em estar presentes, manter a coerência com os personagens principais e servir à história.

Brian Gilleece
Brian Gilleece

Você falou sobre observar Colin Farrell não apenas como ator, mas também como líder no set. Qual foi a maior diferença entre admirar o trabalho dele à distância e testemunhar de perto como ele constrói um personagem e interage com uma equipe?

Colin é um dos atores mais intensos que já tive o prazer de observar. É realmente empolgante vê-lo trabalhando.

Quando ele entra na cena, parece que está olhando diretamente através de você. Ele é incrivelmente expressivo e comprometido, e acredito que seja por isso que construiu a carreira que tem.

Ele é simplesmente inegável. É impossível não olhar para ele.

Não conheço o processo específico dele para interpretar Sugar, mas sei que houve uma preparação física e mental considerável.

Todas as vezes em que observei grandes atores de perto, parece que tudo acontece sem esforço. Mas isso só acontece porque eles fizeram todo o trabalho antes mesmo de chegar ao set.

Com Colin não foi diferente. Ele também faz tudo parecer muito fácil.

Ao mesmo tempo, é extremamente colaborativo com a equipe e consegue defender seu personagem enquanto também pensa no que é melhor para a série como um todo.

Gosto de líderes que lideram pelo exemplo, e Colin faz isso muito bem como o número 1 da folha de chamada. Ele consegue extrair o melhor de todos no set porque exige o melhor de si mesmo.

Em Westworld, alguém que fez parte de uma fase anterior da sua vida viu você no meio daquela produção enorme e disse: “Você está fazendo aquilo, cara!”. Agora, depois de Sugar, Matlock, Hollywood e tantos outros projetos, você ainda tem momentos em que precisa parar e reconhecer o quanto já avançou?

Recentemente tive a oportunidade de fazer o primeiro arremesso em uma partida de beisebol — definitivamente um daqueles momentos que estavam na minha lista de coisas para fazer na vida.

Acho que o Brian de seis anos teria achado aquilo muito legal.

Enquanto eu caminhava em direção ao montinho, o locutor começou a anunciar para o público alguns destaques da minha carreira, e tive um pequeno momento em que pensei: “Ah, é verdade. Você fez tudo isso!”.

Obviamente, ainda existem grandes coisas que quero realizar, mas estou trabalhando para conseguir me concentrar e sentir orgulho das experiências que tive a sorte de viver, em vez de pensar apenas naquelas que escaparam ou que ainda não se concretizaram.

É muito louco olhar para todas as pessoas com quem tive a oportunidade de colaborar. Às vezes, nem parece real.

Além disso, sou de Áries, então paciência não é exatamente o meu forte. Quero tudo para ontem.

Mas estar um pouco mais presente certamente não faria mal. Acho que parar e olhar ao redor daquele estádio naquele momento foi um começo.

E também consegui lançar uma bola a 65 milhas por hora bem no meio da zona de strike, então isso foi um alívio!

Brian Gilleece (Carina Conti)
Brian Gilleece (Carina Conti)

Depois de trabalhar com criadores como Ryan Murphy, Jonathan Nolan, Derek Cianfrance e agora com a equipe de Sugar, quais aprendizados dessas experiências você espera levar para seus próximos personagens — ou talvez para projetos próprios que queira criar no futuro?

Todas essas são produções enormes, e cada minuto de tempo na tela custa centenas de milhares de dólares.

O elemento constante em todos esses sets foi perceber o quanto cada departamento é importante.

São centenas de pessoas contribuindo para que a produção aconteça. Artistas talentosos, stylists, profissionais técnicos e artesãos, todos realizando seus trabalhos com 100% de dedicação.

Essa é a única maneira pela qual projetos dessa magnitude conseguem se tornar realidade.

Não sei se você já ouviu falar disso, mas, às vezes, atores podem ser um pouquinho egocêntricos e achar que são o centro do universo!

A realidade é que você é apenas parte de uma equipe e espera-se que faça seu trabalho no mesmo alto nível de todas as outras pessoas.

Manter essa mentalidade é uma das melhores coisas que qualquer pessoa pode fazer.

Aprendi isso com os esportes e sou muito grato por isso. É um presente poder carregar essa mentalidade para esta carreira, que, de muitas maneiras, é bastante parecida.

Outra coisa que todos esses grandes projetos têm em comum é que foram filmados em Los Angeles.

Todas as melhores produções das quais participei foram rodadas no melhor lugar do mundo para se fazer cinema e televisão.

Não existe outro lugar no planeta onde você consiga reunir esse nível de talento em absolutamente todos os departamentos como em Los Angeles.

Colin fez questão de filmar Sugar em locações de Los Angeles porque reconhece que você precisa ir até onde as melhores pessoas se reúnem para criar alguma coisa.

Por acaso, concordo com ele.

Essas pessoas estão em Los Angeles, e fico muito feliz em ver tantas produções retornando à cidade.

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