“Simplesmente permanecer viva é sua maior batalha”: Elizabeth Anderson fala sobre Katniss em The Hunger Games: On Stage

Luca Moreira
13 Min Read
Elizabeth Anderson (Perou)
Elizabeth Anderson (Perou)

Ao assumir Katniss Everdeen em The Hunger Games: On Stage, Elizabeth Anderson procurou deixar de lado, por um momento, o peso de interpretar uma das personagens mais reconhecidas da cultura pop para enxergá-la pelo que ela considera sua essência: uma garota de 16 anos que precisou crescer rápido demais. Em meio à violência dos Jogos, às expectativas da Capital e ao papel de símbolo que acaba assumindo sem procurá-lo, a atriz encontrou uma Katniss extremamente sensível, cuja força nasce sobretudo da necessidade de proteger aqueles que ama.

Em entrevista, Anderson fala sobre encontrar sua própria verdade emocional para a personagem, revelar vulnerabilidade diante de uma plateia de 1.200 pessoas e construir com Vinnie Copeland e Nathan Stokes as diferentes relações de Katniss com Peeta e Gale. Ela também explica como as quebras da quarta parede funcionam quase como páginas de um diário e por que, por baixo de toda a escala da produção, uma ideia continuou guiando sua interpretação: “Ela é apenas uma garota de 16 anos que foi lançada em um mundo no qual simplesmente permanecer viva se tornou sua maior batalha.”

Katniss Everdeen é uma personagem que milhões de pessoas já imaginam de uma maneira muito específica. Quando os ensaios começaram, como você encontrou espaço para criar a sua Katniss sem sentir que precisava reproduzir interpretações anteriores?

Através da minha experiência e formação, encontrar a verdade emocional de uma personagem é algo que priorizo e que é realmente essencial para o meu processo. Katniss é uma personagem que, especificamente na nossa adaptação para o palco, conta ao público aquilo que realmente pensa através do subtexto, e essa verdade não dita será diferente para cada pessoa que a interpretar.

Mas tenho achado muito empolgante e divertido mergulhar no material original; não é todo dia que você interpreta uma personagem com tamanha repercussão. Ao longo do processo, também parei de enxergar a história como The Hunger Games, aquela história tão conhecida e amada por todos, e comecei a olhar para ela simplesmente pelo que é.

Esta é a história de uma jovem que precisou crescer incrivelmente rápido, e nós acompanhamos sua jornada até se tornar uma ativista que se levanta contra uma sociedade corrupta que, no fim das contas, falhou com ela.

Katniss passa grande parte da história tentando sobreviver enquanto também se torna um símbolo para outras pessoas, muitas vezes sem ter escolhido esse papel. O que mais interessa a você nessa tensão entre quem ela é em particular e aquilo que o mundo exige que ela represente?

Katniss é uma pessoa reservada, então é muito interessante observar o que acontece quando ela é colocada diante de uma multidão. Acho importante lembrar que todas as decisões dela são movidas pela intenção de proteger sua família, principalmente sua irmã mais nova, Prim.

Sempre acho a associação que ela acaba tendo com o Mockingjay extremamente inteligente e algo com o qual acredito que ela realmente se identifica. Ambos são criações acidentais da Capital, resultado de um sistema que fracassou.

Em sua vida privada, Katniss precisou pensar de forma muito lógica e eficiente durante a maior parte da vida. Até pelo próprio nome, “Katniss”, que se refere a uma planta autossuficiente capaz de salvar pessoas da fome, entendemos como comida e sobrevivência são fundamentais.

O nome em latim dessa mesma planta significa literalmente “flecha”, algo que sempre acho muito satisfatório na construção de personagem feita por Collins. Ela é uma garota que precisou pensar exclusivamente em conseguir o básico para sua família.

Mas colocá-la diante do público da Capital, cercada por pessoas grotescamente indulgentes que nunca precisaram se preocupar com nada, é algo muito divertido de interpretar. É um mundo completamente diferente que, acredito, Katniss enxerga perfeitamente pelo que realmente é.

No cinema, uma câmera consegue captar o menor dos olhares, enquanto no teatro você precisa alcançar uma plateia ao vivo de até 1.200 pessoas. Como essa mudança de linguagem influencia a maneira como você expressa a vulnerabilidade e a força de Katniss?

Definitivamente foi um desafio durante todo o processo de ensaios. Katniss esconde suas emoções e muitas vezes as encobre com uma expressão fechada, então, no palco, precisei me concentrar na fisicalidade e na linguagem corporal para comunicar essas mudanças menores a uma grande plateia.

Também existem momentos em que ela quebra a quarta parede e fala diretamente com o público, e eu os enxergo quase como páginas de um diário. Eles nos permitem enxergar Katniss como ela realmente é, em vez da garota protegida, feroz e independente que apresenta para todas as outras pessoas. Como o teatro é ao vivo, esses momentos nunca poderão ser exatamente iguais duas vezes.

Diferentemente do cinema, não podemos contar com a câmera para capturar o menor dos olhares, então preciso fazer escolhas claras o suficiente para alcançar 1.200 pessoas e, ao mesmo tempo, manter tudo íntimo e verdadeiro. Há muita coisa acontecendo nessa produção, mas minha prioridade é sempre contar a história de Katniss e garantir que sua vulnerabilidade não se perca dentro da dimensão do espetáculo.

The Hunger Games contém ação e perigo, mas grande parte da força de Katniss vem de vínculos profundamente pessoais — com família, amigos e pessoas que deseja proteger. O que você descobriu sobre ela ao construir essas relações durante os ensaios?

Acho que descobri que os relacionamentos de Katniss revelam o quanto ela realmente é sensível por baixo de toda aquela força. Ela enxerga o mundo de maneira bastante literal e, na cabeça dela, os relacionamentos podem ser muito transacionais: você me ajuda, eu ajudo você; você salva minha vida, eu fico em dívida com você.

Ela tem muita dificuldade em dever algo às pessoas porque, para ela, isso cria uma dívida e, consequentemente, uma vulnerabilidade. Acho que grande parte da força dela vem do pai e daquilo que ele lhe ensinou sobre sobrevivência. Mesmo com Prim e com a mãe, ela sente que precisa manter essa fachada de que está tudo bem.

Gale provavelmente é a pessoa com quem ela consegue baixar mais a guarda, embora, mesmo assim, esteja confusa em relação aos sentimentos que tem por ele. Ao construir essas relações, percebi que o instinto dela de proteger as pessoas nasce justamente do quanto ela sente profundamente as coisas. Ela é incrivelmente sensível; simplesmente nem sempre sabe como expressar isso.

Você está entrando em uma produção já estabelecida como parte de uma nova companhia. Como tem sido desenvolver sua própria dinâmica com Vinnie Copeland e Nathan Stokes para relações que o público conhece tão bem entre Katniss, Peeta e Gale?

Tem sido muito divertido desenvolver as relações de Katniss com Gale e Peeta porque os dois despertam lados completamente diferentes dela. Com Gale, existe familiaridade e uma compreensão compartilhada; eles cresceram juntos e possuem essa conexão instintiva, quase silenciosa.

Com Peeta, existe muito mais incerteza; há muitas emoções complicadas entre eles, e Katniss nem sempre entende o que sente por ele ou como reagir à paciência e à gentileza que ele demonstra. Vinnie e Nathan trazem muito calor humano e individualidade para seus personagens, o que cria um contraste muito interessante com a natureza reservada de Katniss. Gostei muito de colaborar com os dois e de observar aquilo que cada um traz para a sala de ensaio. Mesmo que o público conheça muito bem essas relações, conseguimos encontrar nossa própria dinâmica dentro delas, e estou realmente animada para que as pessoas vejam o que criamos juntos.

Suzanne Collins criou uma heroína que frequentemente resiste àquilo que esperam dela, inclusive às ideias convencionais de heroísmo. Depois de passar tanto tempo com Katniss nos ensaios, existe algo sobre ela que você passou a compreender de maneira diferente?

Acho que a principal coisa que passei a compreender de maneira diferente sobre Katniss é simplesmente o quanto ela realmente é jovem. Podemos esquecer isso porque ela precisou amadurecer tão rapidamente.

Suzanne Collins se inspira em uma longa tradição de heroínas literárias, particularmente Bathsheba Everdeen, de Far from the Madding Crowd, de Thomas Hardy. É possível perceber essa influência em Katniss; ambas são ferozmente independentes, resistem aos papéis que a sociedade tenta impor a elas e estão determinadas a fazer suas próprias escolhas.

Mas Katniss precisa lidar com esses instintos em um mundo no qual sua sobrevivência está em jogo, enquanto continua sendo uma jovem obrigada a tomar decisões com as quais até mesmo adultos teriam dificuldade. Ela vive em um estado constante de sobrevivência; não existe botão de desligar, e acho que isso moldou completamente a maneira como ela enxerga o mundo.

Outra coisa que descobrimos durante os ensaios é um verdadeiro senso de comunidade no Distrito 12: existe esse instinto de colocar outras pessoas antes de si mesmo. É possível perceber isso em muitos dos personagens, e Katniss incorpora esse sentimento completamente.

Ela nunca pretende se tornar uma heroína ou um símbolo político; está simplesmente tentando proteger as pessoas que ama e sobreviver. Compreender o quanto seu ambiente a moldou me deu uma visão muito mais profunda das razões por trás das escolhas que ela faz e de por que sua jornada de jovem garota a heroína parece tão poderosa e relevante.

Quando você subir ao palco pela primeira vez como Katniss em 23 de outubro, o que espera que o público reconheça imediatamente na personagem — e o que gostaria que descobrisse de novo através da sua interpretação?

A trança! Brincadeiras à parte, espero que o público reconheça imediatamente a Katniss intensa, obstinada e espirituosa que ama. Mas também gostaria que descobrisse a delicadeza e a sensibilidade que existem por baixo desse lado dela, completamente sobrecarregadas pela dimensão de tudo o que está acontecendo. No fim das contas, espero que enxerguem uma jovem fazendo tudo o que pode para “permanecer viva”.

Essa frase é extremamente importante para ela. É o primeiro e o último conselho de Haymitch, e algo ao qual ela retorna repetidamente. Eu também me vi voltando a essa ideia durante todo esse processo, porque ela elimina todo o restante e chega à essência da personagem. Por baixo de todo o espetáculo, ela é apenas uma garota de 16 anos que foi lançada em um mundo no qual simplesmente permanecer viva se tornou sua maior batalha.

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