Entre as oportunidades de uma grande metrópole e as desigualdades que se tornam parte da paisagem cotidiana, a Zimbra encontrou inspiração para uma nova faceta de sua música. Com lançamento marcado para 28 de agosto, “Animal Ferido” nasceu das experiências do vocalista Bola após sua mudança para São Paulo e apresenta um rock cru e direto para refletir sobre os contrastes de uma cidade capaz de fascinar e incomodar ao mesmo tempo. Em entrevista, a banda fala sobre a decisão de abordar uma questão social de maneira mais explícita, o cuidado para não normalizar as desigualdades ao redor e o novo momento criativo em que assume maior protagonismo sobre a própria produção musical.
“Animal Ferido” nasce das primeiras impressões do Bola ao se mudar para São Paulo, entre encantamento, desconforto e descoberta. Em que momento essa experiência urbana deixou de ser apenas vivência pessoal e virou música?
Acho que toda experiência minha já nasce com potencial de virar alguma musica em algum momento desde o primeiro segundo, pois é o jeito como eu enxergo a vida, tem coisas que eu consigo e quero traduzir naquele momento nesse formato e outras que vão maturando ao longo dos anos. Animal Ferido foi completamente cuspida, sem pedir licença.
A faixa fala sobre os contrastes de uma grande metrópole, onde realidades muito diferentes podem coexistir na mesma rua. O que mais te marcou nesse choque entre pluralidade, desigualdade e rotina?
Acho que justamente isso, o fato da gente viver e ver tanta coisa boa e ruim na mesma medida, ao mesmo tempo, o tempo todo, e em muitas vezes cair na armadilha de normalizar isso por simplesmente se repetir milhares e milhares de vezes. Eu me policio o tempo todo para não tratar essa desigualdade com normalidade e também tentar aproveitar a pluralidade que a cidade tem à oferecer.
Você comenta que a música também nasce da recusa em normalizar certos contrastes negativos da cidade. Como manter o olhar sensível diante de problemas que o cotidiano insiste em transformar em paisagem?
É difícil, nem sei ao certo como fazer, o que sei é que tenho minhas convicções do que acho que é certo e do que acho que é errado – justo/injusto – e tento manter essa régua diariamente na minha vida pra não cair na armadilha de qualquer hora começar a enxergar esse tipo de coisa com normalidade. É difícil pois a repetição dessas cenas é brutal, mas considero necessário eu me policiar sempre pra não aceitar isso como normal.
“Animal Ferido” parece carregar a sensação de pequenez diante da cidade, mas também a busca constante por oportunidades de ser feliz. Como essa dualidade aparece na sua forma de viver São Paulo?
Acho que quando a gente chega em uma grande metrópole a gente consegue enxergar no dia a dia com muito mais facilidade a pequenez da nossa existência e a fragilidade da vida, a gente sai da nossa redoma de ”cidade pequena” e passa a viver em um universo muito diferente. Aqui é tudo muito mais, pro positivo e pro negativo. É desgastante e caótico na mesma medida que é rico e divertido. Nossa pequenez se mostra quando ela se choca com essa quantidade de acontecimentos diários, que não pede licença.

Musicalmente, a banda define a faixa como um rock cru e direto, assim como a mensagem. Por que essa simplicidade sonora era o caminho mais honesto para contar essa história?
Acho que em primeiro lugar foi muito natural da própria composição que a música fosse assim, depois eu acho que era inevitável que a parte instrumental não acompanhasse a ideia crua a direta da letra, a musica vai acontecendo e o que tá acontecendo é essa mensagem bem crua e direta.
A Zimbra sempre colocou seu olhar sobre o mundo nas canções, mas agora aborda de forma mais explícita uma questão social e urbana. O que mudou internamente para que esse tema ganhasse tanta centralidade?
Acho que como compositor, a mudança de vida e dia-a-dia que eu tive tornou inevitável a maneira como eu fiquei mais exposto e com mais vontade de falar sobre coisas que eu não era tão exposto quando morava fora de São Paulo. E enquanto banda, pra nós pessoalmente, é quase que natural também abordar alguns assuntos conforme a gente vai ficando mais velho e enxergando o mundo de outras maneiras.
Depois de cinco anos vinculada a uma gravadora, a banda assumiu a produção da faixa ao lado de Bruno Pelloni e André Calvão. Como essa liberdade criativa influenciou o som e a intenção de “Animal Ferido”?
Foi muito bom e muito rico ficar 5 anos no Midas Music, aprendemos muitas coisas lá com as pessoas que trabalhamos, mas também é muito bom voltar a nos desafiar a produzir nosso próprio material. Antes de entrar na gravadora a Zimbra já tinha 3 discos e vários singles/EPs que a banda sempre produziu em conjunto com outros produtores, no Midas não foi diferente também, sempre tivemos envolvidos em todas as áreas do que fazíamos. O que mudou agora é que o barco tá completamente no nosso controle. O André e o Bruno sempre foram pessoas que de forma direta ou indireta participaram de muitas coisas que fizemos desde o começo da banda, então é muito fácil e prazeroso trabalharmos juntos mais uma vez. Temos muita afinidade há muitos anos, o que facilita muito o processo na hora de gravar e produzir.
A música convida o público a refletir sobre aquilo que escolhemos enxergar e aquilo que insistimos em normalizar. Depois de ouvir “Animal Ferido”, que tipo de incômodo ou despertar vocês gostariam que permanecesse nas pessoas?
Acho que no fim das contas o meu desejo com essa musica é que as pessoas se esforcem e se vigiem para que jamais caiam na armadilha do dia-a-dia de normalizar coisas como a desigualdade social e a forma como enxergamos o outro. É difícil porque a vida nos engole e na grande maioria do tempo a gente nem pensa direito, só estamos lá fazendo o que precisamos fazer pra sobreviver. E essa musica acho que nasceu pra que, primeiramente eu, pudesse me lembrar sempre de me vigiar, e indo pro mundo meu desejo é que esse lembrete fique na cabeça de quem escutar a musica também.
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