Dudu Gehlen retorna ao Rio com “Cadeira de Balanço” para eternizar a memória de sua bisavó nos palcos

Luca Moreira
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Dudu Gehlen (Emanuelle Rebelo)
Dudu Gehlen (Emanuelle Rebelo)

Após percorrer favelas cariocas e festivais pelo Brasil, o ator, diretor e escritor maranhense Dudu Gehlen volta ao Rio de Janeiro com a temporada de despedida de Cadeira de Balanço, espetáculo que transforma a história de sua bisavó, Dona Caçula, em autoficção teatral. Em cartaz a partir de 8 de março no Teatro Cândido Mendes, a peça investiga memória, território e afeto a partir de um velório no interior do Maranhão, costurando realidade e invenção para reconstruir uma trajetória marcada por resistência e delicadeza. Na entrevista, Dudu fala sobre o processo de transformar lembranças familiares em literatura e cena, a importância de preservar origens e o impacto de ver uma história íntima ganhar projeção nacional.

 “Cadeira de Balanço” nasce do desejo de eternizar a memória da sua bisavó. Em que momento você percebeu que essa história precisava deixar de ser apenas lembrança familiar para se tornar obra artística?

Cadeira de Balanço nasce como um diário, eu escrevia folhas soltas de memórias, desabafos, confissões minhas para minha vó. Até que decidi criar um livro memorial para eternizar todas as memórias dela, para que os bisnetos e tataranetos pudessem ter algum tipo de contato com quem ela foi. Lancei o livro em 2022 e em 2024 se tornou espetáculo teatral.

O espetáculo parte de um velório no interior do Maranhão para falar de tempo, morte e afeto. Como foi transformar um momento tão íntimo e delicado em cena sem perder a verdade emocional?

Eu faço esse espetáculo com ela em cena, eu entro pra receber o público com a certeza de que minha vó tá ali também, então estar em cena, é também manter viva essa tradição de contar e ouvir histórias, tínhamos muito isso. É uma peça autoficcional, então não é um texto que eu preciso me encontrar dentro dele, eu tô contando sobre a minha vida, são as minhas  memórias.

Você investiga a memória como possibilidade cênica desde 2017. O que a história de Dona Caçula te ensinou sobre o poder da memória no teatro?

Dentro do teatro a memória vira ficção. Não tem jeito. Em mim tem um “aconteceu comigo” “sou eu” mas a memória também passa por um crivo de escolhas cênicas, então foi necessario investigar o que de mim ainda pertencia em uma memória que já não era tão minha, em uma memória que foi transformada em obra artística.

A obra transita entre realidade e ficção, no campo da autoficção. Em algum momento você sentiu medo de se expor demais ou de tocar em feridas ainda abertas?

Sim! A obra denuncia um crime pela primeira vez, um crime que minha família escondeu por 50 anos. Então trazer isso ao público, ter minha família na plateia, é muito delicado. E eu acho que isso, o medo, o estranho, é que faz a peça  importante, pelo caráter político que ela assume.

Dudu Gehlen (Emanuelle Rebelo)
Dudu Gehlen (Emanuelle Rebelo)

O espetáculo já circulou por favelas, festivais e diferentes estados. Como foi perceber que uma história tão particular, de Cantanhede, consegue dialogar com públicos tão diversos?

A peça fala de vó, a maioria das pessoas tem uma ligação muito forte com a sua vó, ou olha nessa figura, um lugar de afeto. Eu criei a dramaturgia, pensando na minha vó, mas que os espectadores pudessem reconhecer as suas avós também.

Você menciona que queria que o livro tivesse uma linguagem simples para alcançar sua própria família. De que forma essa preocupação com acessibilidade também atravessa a encenação?

Esse espetáculo começa em um velório, ambientado em um interior do Maranhão, na casa de uma família pobre. Minha família foi pouquíssimas vezes ao teatro, muitos municípios/ interiores do Brasil não tem edifícios teatrais. Eu queria que essa peça fosse democrática, que o cenário fosse simples e que pudesse ser apresentado em qualquer lugar, e que a palavra, o texto, fosse compreendido por quem estava assistindo teatro pela primeira vez.

“Cadeira de Balanço” fala sobre reconstruir alguém que já se foi. Ao longo desse processo, você sente que também reconstruiu a si mesmo?

Sim! De 2024 pra cá, a peça foi se transformando também, eu fui mudando junto com a obra, texto, cenário,arcas de direção, forma sendo adaptadas. Porque a minha memória também estava sendo, o compartilhamento da minha memória com o público e as devoluções que o público dava, também forma contribuindo para a trajetória da peça.

Agora, com essa temporada de despedida no Rio, que sentimento fica ao revisitar essa história mais uma vez: é mais um adeus, um recomeço ou uma nova forma de manter Dona Caçula viva?

Dona Caçula tá na hora de descansar, eu sinto que fiz a minha parte, eu eternizei a minha vó na literatura, no palco, eu apresentei ela pra gente que ela nem esperava conhecer. Essa temporada tem um gosto de um Adeus, de fim de um ciclo. Ela se despede com a certeza de que tá viva em cada um que assistiu Cadeira de Balanço.

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