Entre ambição e simplicidade: Edson Spricigo reflete sobre o verdadeiro sentido da felicidade em “O Executivo e o Engraxate”

Luca Moreira
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Edson Spricigo
Edson Spricigo

No romance “O Executivo e o Engraxate”, Edson Spricigo constrói um encontro improvável que transforma destinos e provoca reflexões profundas sobre sucesso e propósito. A obra acompanha Pedro Luís, um executivo bem-sucedido que, apesar das conquistas, vive um vazio crescente, e José, um engraxate que encontra plenitude na fé, na família e nas pequenas coisas. A partir de um diálogo simples em uma praça, o autor desenvolve uma narrativa filosófica que contrapõe ambição e contentamento, convidando o leitor a repensar valores, prioridades e o que, de fato, sustenta uma vida plena.

A história parte de um encontro aparentemente simples — um engraxamento de sapatos na praça — que acaba se tornando um momento de transformação profunda. Como surgiu a ideia de construir uma narrativa tão significativa a partir de uma situação cotidiana?

Na modesta cidade onde moro, era comum o trabalho de engraxate desde a minha infância até a adolescência. Assim como os taxistas e motoristas de aplicativos, também apreciam uma boa conversa. E por fim, durante a realização de suas atividades, os engraxates me recordam: “Um Momento Especial da Vida de Jesus Cristo”.

Pedro Luís e José representam visões de mundo muito diferentes: um movido pela ambição e outro pela simplicidade e pela fé. O que te motivou a colocar esses dois universos em diálogo dentro da mesma história?

Com um discurso convincente, mesmo com sua escolaridade limitada, José, o Engraxate, consegue expor de maneira simples os valores familiares e outros saberes adquiridos durante a vida. Ele transmite a Pedro Luís essas mensagens que o Executivo não percebe em seu dia a dia.

Ao longo do romance, o sucesso profissional do protagonista parece caminhar lado a lado com um crescente vazio emocional. Na sua visão, por que tantas pessoas acabam experimentando essa sensação mesmo após conquistar aquilo que sempre desejaram?

Porque não souberam dosar a melhor parte para a sua família, que é o alicerce principal. Eu penso que, se as pessoas lutarem apenas visando promoções de cargos e conquistas de um título de reconhecimento sem beneficiar o próximo, esquecendo-se das pessoas a sua volta, ao andarem a pé numa rua, ou qualquer outro lugar que seja, vão se sentir isoladas de todos no meio da multidão. Elas se sentirão ilhadas, porque não criaram empatia com o seu próximo.

O personagem José João Marcelino da Silva demonstra uma felicidade genuína baseada em valores como família, fé e solidariedade. De que forma você construiu esse personagem para que ele funcionasse como um contraponto ao executivo?

Eu me inspirei nos meus avós e, sobretudo, nos meus pais que, apesar de enfrentarem dificuldades, conseguiram nos proporcionar todas as condições afetivas e materiais necessárias para que eu e meus irmãos pudéssemos enfrentar os desafios impostos pela sociedade com dignidade. Isso tudo cientes de que Deus nunca nos abandona, mas de que também precisamos fazer a nossa parte.

Edson Spricigo
Edson Spricigo

O livro apresenta reflexões filosóficas e espirituais sobre ambição, propósito e plenitude. Em algum momento da escrita você percebeu que a história também dialogava com experiências pessoais ou observações da vida real?

Ao longo do desenvolvimento da história, a partir de uma inspiração e imaginação inatas minhas, surgiram também recordações que eu vivenciei e eventos dos quais ouvi falar por meio de pessoas conhecidas. Comecei a perguntar a pessoas próximas sobre eventos peculiares em suas vidas, inclusive algumas situações reais ou fictícias que já estavam planejadas para certos capítulos.

A ambientação em um país fictício, “Treze Caravelas”, cria uma certa distância da realidade imediata. Por que você optou por esse cenário imaginário para contar uma história que aborda questões tão universais?

Criei Treze Caravelas por dois motivos: primeiro, pela burocracia envolvida na nomeação de espaços públicos, como praças, shoppings, igrejas e marcas de produtos e empresas; segundo, pela liberdade literária que tenho ao criar um mundo imaginário, permitindo-me desenvolver enredos e compartilhar histórias reais (ou fictícias) de forma anônima para os leitores.

Sendo esta sua estreia no romance, como foi o processo de transição da escrita de contos para uma narrativa mais longa e reflexiva como “O Executivo e o Engraxate”?

O processo foi gradual. Antes mesmo de iniciar na Academia Orleanense de Letras, eu já escrevia contos inanimados, sempre buscando uma identidade única e um estilo que transmitisse mensagens positivas. Com o passar do tempo, comecei a escrever crônicas sobre variados temas, que eram avaliadas por especialistas da área quando necessário – a exemplo do meu irmão (in memoriam) que era professor de Filosofia. Foi a partir de uma dessas crônicas que surgiu o romance, que começou com a gestação do protagonista.

Ao acompanhar a transformação interior do protagonista, que tipo de reflexão você espera provocar nos leitores sobre o verdadeiro significado de sucesso e felicidade?

Antes de chegar a uma conclusão, farei uma comparação entre o protagonista e minha própria experiência de vida. Eu era muito ansioso desde a infância, até pouco antes de completar 30 anos. Isso dificultava a minha capacidade de ter uma ocupação profissional. Não via uma luz no fim do túnel. A mudança na minha vida profissional e em outros aspectos começou em 1998, quando iniciei um tratamento com uma psicóloga. Em apenas quatro sessões, já havia me transformado em “outra pessoa”. Creio que não estamos aqui apenas por um breve período. Respeitando nossas limitações psíquicas, físicas e financeiras, todos nós temos (pelo menos) um objetivo: fazer o bem ao próximo!

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