Dione Caruzo investiga as relações entre religião e poder em “O Sagrado no Profano”

Luca Moreira
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Dione Caruzo
Dione Caruzo

Em “O Sagrado no Profano”, o teólogo e gestor público Dione Caruzo propõe uma reflexão sobre como política e religião caminharam lado a lado ao longo da história da humanidade. A partir de episódios bíblicos, conflitos históricos e transformações sociais, o autor analisa de que maneira lideranças espirituais também exerceram influência política e como essas forças continuam moldando leis, identidades e estruturas de poder na contemporaneidade. Em entrevista, Caruzo fala sobre a construção da obra, os paralelos entre passado e presente e a importância de compreender criticamente as conexões entre fé, sociedade e política.

Em O Sagrado no Profano, você parte de uma provocação forte: pensar Jesus Cristo também como uma liderança política. Em que momento essa leitura deixou de ser apenas uma inquietação pessoal e passou a se tornar o eixo do livro?

Como evangélico, sempre ouvi que “política é do diabo”, “religioso não se mistura com política” e outras frases que uso no livro como provocação ao pensamento crítico. Ao estudar os livros sacros, mormente a bíblia, conclui que, independentemente do nosso querer utópico que essas duas pautas não se misturem, religião e política sempre estiveram juntas na construção do poder, escrevendo a história da humanidade. Jesus foi político? A resposta é sim e não. Depende do ângulo que você enxerga a política. Se enxergar a política que conhecemos, corrompida pela ganância, vaidade, tirania e de interesses pessoais, com certeza Jesus não foi político. Mas se olharmos a verdadeira política, que está relacionada com aquilo que diz respeito ao bem de todos, à vida em comum, onde todos estejam dentro das regras, leis e normas de conduta que protegem a convivência em sociedade, regulando os conflitos sociais, visando atender a todos com equidade, então Jesus foi o maior e mais verdadeiro político da história humana.

Sua obra propõe que política e religião nunca estiveram realmente separadas, mesmo quando essa ligação parece implícita. O que mais te interessava revelar sobre essa relação tão profunda e, ao mesmo tempo, tão desconfortável para muita gente?

O objetivo é realmente expor verdades que, por séculos, permaneceram ocultas ao grande público sobre o entrelaçamento da religião e da política. Duas pautas que, mais do que nunca, influenciam e moldam a humanidade. O que deixa as pessoas desconfortáveis neste assunto, religião x política, é descobrir que estão sendo enganadas e manipuladas pelos poderosos do sistema. O objetivo é criar a discursão, pois o debate força o pensamento, e este leva ao entendimento. Mas reafirmo o que disse Charles Spurgeon: “Só os tolos acreditam que política e religião não se discutem. Por isso os ladrões permanecem no poder e os falsos profetas continuam a pregar”.

Ao reler figuras bíblicas como Abraão, Moisés e o próprio Jesus também a partir de seus papéis de liderança e organização social, que novas compreensões você acredita que se abrem sobre esses personagens?

Ao abrir a visão sobre a vida dos heróis da fé, não só do cristianismo, mas de todas as religiões, enxergamos de forma plena e real o verdadeiro legado que deixaram para a humanidade. Desta forma (mostrando que os grandes líderes religiosos da história foram grandes líderes e influenciadores políticos em suas épocas, antes mesmo de serem líderes eclesiásticos), reafirmando a mensagem do livro, que religião e política sempre estiveram juntas em todos os impérios que dominaram o mundo, em todos os momentos cruciais do destino mundial. Precisamos enxergar os heróis da fé em sua plenitude e não apenas dentro de um contexto religioso e espiritual.

O livro percorre desde narrativas bíblicas, como o Éden e o dilúvio, até momentos históricos como o Império Romano e as Cruzadas. Como foi construir uma linha de raciocínio que conectasse tempos tão distantes sem perder clareza para o leitor?

“O sagrado no profano” não é um livro religioso e nem político, é um livro da história da associação da religião e da política na construção do mundo que conhecemos, tanto para o bem e principalmente para o mal. Por isso trouxe essa história de forma cronológica, passando pelos grandes impérios que dominaram o mundo em suas eras, como a Babilônia, Antigo Egito, Império Medo Persa, Antiga Grécia, Império romano, chegando até as nações atuais. Passando pelos momentos que chamo de “encruzilhadas da história”, como a história da torre de Babel (início da antiga Babilônia), as cruzadas da Igreja Romana, a reforma protestante, a revolução francesa, o Iluminismo, as guerras mundiais e outros momentos que definiram os rumos do mundo que conhecemos.

Você também aborda como vaidades humanas e disputas internas interferem nas religiões. Até que ponto olhar para esses bastidores é uma forma de humanizar a fé, em vez de enfraquecê-la?

Um dos capítulos mais reveladores e polêmicos da obra é o que tem o título “O jogo do poder na política interna das religiões”. Não tem como separar política por áreas da sociedade, tipo: política secular e política religiosa. Política é sempre política. Que é a luta pelo poder, seja qual for o ambiente da disputa. E dentro das religiões é travada uma das políticas mais disputadas da história, que sempre influenciou a política do mundo inteiro. A luta pelo poder das religiões é uma das mais duras, cruéis e (o pior) disfarçada de santidade. Só mostrando essas verdades dos bastidores é que a fé verdadeira será humanizada. Não há como defendermos a verdadeira fé e a verdadeira religiosidade (o que nos religa a Deus) se não “descortinarmos” os enganos das religiões. Esta obra é uma defesa a verdadeira religiosidade e a verdadeira política. Como disse Jesus: “Só a verdade nos liberta”!

Como teólogo e gestor público, você ocupa um lugar muito particular entre dois campos que muitas vezes são tratados como opostos. De que forma essa dupla vivência influenciou o olhar que você construiu ao longo da obra?

Vivenciando os bastidores da religião como Teólogo há mais de 30 anos e da política como gestor e administrador público há mais de 15 anos, pude enxergar claramente como o povo é enganado e manipulado, com discursos ideológicos para cegar o raciocínio lógico através da paixão em ideologias que polarizam a política e levam ao fanatismo religioso na política. Pois, os falsos religiosos e falsos políticos já entenderam que se manterem a política no campo da razão e das ideias, dificilmente enganarão o povo e por isso levam, através da religiosidade, a discursão política para os sentimentos, separando o povo entre o “bem e o mal”, “eles e nós”, “certo e o errado”, fazendo da política um campo de guerra e desta forma conquistando “soldados cegos e obedientes” e não eleitores conscientes.

Em um tempo marcado por crises, polarizações e conflitos entre países, seu livro parece sugerir que compreender o passado é essencial para entender o presente. Que alerta mais urgente você sente que essa leitura histórica traz para os dias de hoje?

“Povo que não conhece seu passado não sabe onde está no presente e por tanto não sabe para onde está indo no futuro”. Por não conhecer a história, a humanidade vive repetindo os mesmos erros do passado como se fossem erros novos. O livro “O sagrado no profano” é o primeiro de uma trilogia sobre o entrelaçamento entre religião e política. Neste primeiro mostro essa associação das duas pautas na história da humanidade, mostrando que, independentemente da nossa vontade, esses dois campos sempre estiveram juntos definindo os rumos do mundo e continuam mais “unidos” do que nunca. Mostro de forma sintetizada as ideologias que criaram sistemas políticos cruéis na história, como o fascismo, comunismo, nazismo e outros que, por ignorância, se repetem na atualidade, não com discurso vazio, mas com fatos históricos incontestáveis. Essas ideologias serão mais detalhadas e explicitadas na segunda obra da trilogia, terminando na terceira com o que chamado de “religião e política, o verdadeiro baile de máscaras”.

Você fala da importância do conhecimento para a emancipação dessa dicotomia entre política e religião. Ao final da leitura, o que espera despertar no leitor: inquietação, revisão de certezas, senso crítico ou uma nova forma de enxergar a própria história humana?

A alma desta obra é criticar e dar luz a todo o mal que a associação da religião e política fizeram e fazem a humanidade. Fonte de conflitos, opressão e retrocessos sociais. Uma aliança que busca legitimar o poder terreno por meio de um suposto mandato divino, criando estruturas que dificultam a dissidência e promovem a intolerância. Esse entrelaçamento, historicamente, transforma o bem comum – objetivo da política – em uma arma de dominação e exploração, na contramão de ideais como tolerância e paz. O objetivo do livro é provocar, através do conhecimento da história, o pensamento crítico e este conduzir ao entendimento da verdade, pois só a verdade levará a real liberdade. Leia “O sagrado no profano, religião e política na construção do poder” e sua visão mudará.

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