Inspirado no conceito psicanalítico da livre associação, o escritor Ivan Hegen apresenta em Livre Associação uma coletânea de contos que mistura memória, ficção e autoanálise para explorar as contradições da experiência humana. Entre crises existenciais, relações afetivas, conflitos sociais e reflexões sobre identidade, a obra constrói narrativas íntimas que transitam entre humor, angústia e questionamento político. Em entrevista, Hegen fala sobre o processo de transformar vivências em literatura, a influência da psicanálise em sua escrita e o desejo de provocar reflexão e liberdade de pensamento por meio da arte.
“Livre associação” parte de um conceito da psicanálise para estruturar a própria experiência narrativa do livro. Em que momento você percebeu que essa ideia de falar sem censura, quase como num divã, também poderia ser uma forma de construir ficção?
Lembro de ter lido com muito interesse, há algum tempo, “Complexo de Portnoy”, do Philip Roth, narrado como se fossem as sessões de alguém se dirigindo a um psicanalista. É um livro recheado de compulsões sexuais, culpas e neuroses. Foi um aprendizado, mas também um reencontro com meu contexto familiar, sendo eu filho de psicanalistas e ex-marido de uma colega de profissão dos meus pais. Logo no primeiro conto de “Livre Associação”, as palavras se encadeiam sem muita hierarquia ou censura, com o narrador em um divã, no qual intimidades de casal entram em batalha com ruminações edípicas.
Ao longo da obra, memória e invenção parecem se misturar o tempo todo. O que mais te interessa nesse lugar em que a vida real deixa de ser apenas lembrança e passa a ser matéria literária?
A arte é interessante na medida que estabelece uma boa conversa com a vida. Evito confundir completamente vida e arte, para não falsificar minha realidade e para que a ficção preserve uma distância mínima a partir da qual o diálogo me permita reflexão. Gosto dessa troca, desse contato, dessa fricção. Mas pode ser que, para meu leitor, muitas vezes não seja possível perceber a fronteira entre fato e invenção. Para algumas pessoas, a graça pode ser essa. Um amigo que leu o livro se recusou a saber quais trechos seriam baseados em fatos reais e quais seriam mais inventados. É alguém em quem confio; eu entraria em modo confessional, mas ele preferiu a dúvida, e respeitei essa vontade dele de curtir o livro em uma zona indeterminada.
Você escreve que é impossível sair impune da tentativa de transformar vida em arte. O que esse processo de escrever sobre fragilidades, desejos e contradições também exige de você como autor e como indivíduo?
Enquanto vou escrevendo, tento pensar o mínimo possível sobre como será a reação dos futuros leitores, principalmente das pessoas reais que inspiram personagens. Constato depois. Neste “Livre Associação” falei bastante sobre familiares e acho que gerei alguns incômodos, mas no balanço geral me perdoaram. Não condenaram uma escrita que busca ser muito mais autoanálise do que agressão a qualquer dos envolvidos. Acho que meu processo de escrita não é tão diferente assim de um processo terapêutico, ou seja, implica em momentos de angústia diante de alguns fantasmas e traumas, mas também me leva a algum desenvolvimento e, por vezes, algum alívio. Tem sofrimento, mas também muito prazer nesse trabalho com as palavras.
Os contos transitam entre crises íntimas, questões sociopolíticas, erotismo e cenas aparentemente banais do cotidiano. Como você encontra unidade em um livro tão atravessado por experiências e tensões tão diversas?
Se existe unidade nos contos do livro, é uma unidade relativa, porque exploro diversas facetas minhas, embora, em última instância, eu não deixe de ser quem sou. Não busco um estilo; não criei uma fórmula que eu repita ou que torne um texto meu imediatamente identificável. Pode ser que uma constante minha seja tentar orquestrar a dimensão psicológica com a dimensão social, sem descuidar da linguagem, do ritmo de cada frase. Por outro lado, ao escrever, quero surpreender a mim mesmo. Por exemplo, no conto “Férias conjugais”, quis explorar o erotismo a partir de uma narradora mulher que se vinga do marido infiel. Nessa ficção, me afasto de minha voz, mas não de minhas questões pessoais, das minhas indagações.
Em histórias como Divã online e Mal parido, há uma atenção clara para o presente, para o mal-estar político e para as desigualdades sociais. Para você, até que ponto a literatura também precisa encarar o tempo em que é escrita?
Em 2018, Wilson Alves Bezerra, publicou “Vapor Barato”, que consiste em um diálogo entre terapeuta e paciente, onde problemas psicológicos se misturam a ansiedades diante das ameaças antidemocráticas daquele mesmo ano. No meu “Divã online”, fiz algo parecido, com a diferença que uma má conexão na internet causaria interrupções em uma comunicação que cruzava o inconsciente com a política. Assim como no excelente livro do Wilson, trabalhei conjuntamente as questões psicológicas e sociológicas, além das amorosas. No meu conto “Mal parido”, uma arquiteta se percebe fascinada por um homem em situação de rua e avalia o quanto conseguiria superar a distância social para se deixar tocar por um afeto maior. Os desafios se entrelaçam.
O livro também olha de forma muito direta para a juventude, a timidez, o desejo de pertencimento e as pressões para se encaixar. O que esses fantasmas mais antigos ainda continuam dizendo ao seu trabalho hoje?
Na infância e na adolescência eu sofria de uma timidez quase patológica. Tinha alguns amigos, mas era muito introvertido, acanhado nos gestos e nas palavras. O que me ajudou a sair da concha, aos poucos, foi o contato com a cultura. Bem pequeno, eu gostava muito de desenhar, e meus rabiscos engraçadinhos ajudavam a quebrar o gelo, gerando alguns comentários. Ao encostar na adolescência, descobri o gosto pelo rock e, se antes eu era meio indiferente a qualquer música, descobri que o ritmo acelerado me empurrava a me movimentar mais. E, sem dúvida, a prática da escrita, mesmo sendo uma atividade solitária, foi me proporcionando uma autoimagem mais desenvolta, foi permitindo me constituir com mais força como indivíduo. Nada disso está encerrado em mim, continua em desenvolvimento, reaparecendo no que escrevo e no que vivo.
Filho de psicanalistas, você cresceu cercado por uma linguagem voltada à escuta, ao inconsciente e às contradições humanas. Como essa formação afetiva e intelectual moldou sua maneira de observar personagens e conflitos?
Foi meio esquisito, mas também interessantem ouvir do meu pai uma explicação sobre Complexo de Édipo por volta dos dez anos. Não sei se eu já estava maduro o bastante para aprender sobre parricídio e incesto, ainda mais considerando que ele estaria diretamente implicado no problema. Tanto ele quanto minha mãe me ensinaram, muito cedo, a considerar o inconsciente e a complexidade do humano, descartando logo de cara qualquer maniqueísmo e qualquer visão totalizante. Não tinha muita chance de crescer “normalmente”, mas, como também não acredito na normalidade, em parte eu agradeço à esquisitice que me ajudou a desviar dos caminhos mais óbvios.
Você diz buscar, por meio da arte, incitar o questionamento, o antiautoritarismo e uma maior liberdade entre pensar e agir. O que espera despertar no leitor ao final de “Livre associação”: inquietação, identificação, deslocamento ou talvez uma nova forma de escutar a si mesmo?
No meu doutorado em Letras, que iniciei este ano, pesquiso a obra da grande Elvira Vigna, uma autora que tem algum reconhecimento, mas que deveria ser mais lida e mais estudada. Vejo na Elvira uma postura antiautoritária muito coerente, que se percebe no conteúdo e na forma, de modo a delegar ao leitor a responsabilidade pelo que lê.
Evito, assim como ela, narradores que despejem verdades; busco dar espaço às incertezas e às nuances. Mesmo acreditando que tenho algo a dizer, e mesmo me posicionando quando julgo necessário, entendo que respeito mais os leitores ao deixar a eles a tarefa de decidir o que fazer das palavras arremessadas.
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