Em Labirintos do Caos, a escritora Maria Félix Fontele reúne contos de ficção especulativa que transitam entre o desencanto e a esperança para refletir sobre questões urgentes do presente. Ambientadas em cenários futuristas permeados por inteligência artificial, apagamento de memórias, relações mediadas pela tecnologia e crises ambientais, as histórias apresentam personagens comuns confrontados por transformações profundas em suas formas de viver e se relacionar. Em entrevista, a autora fala sobre o processo criativo iniciado durante a pandemia, a construção de narrativas que dialogam com os desafios contemporâneos e a maneira como a literatura pode ajudar a compreender os caminhos — e os riscos — de um futuro que já começa a se desenhar.
“Labirintos do caos” nasce de uma visão em que o caos não é apenas ruína, mas também algo que ainda não ganhou forma. Em que momento essa ideia começou a se transformar em literatura?
Sim, para mim a ideia do caos nunca foi só desordem, mas algo imprevisível e desconexo ou aquilo que ainda está obscuro diante de nós. Para elaborar melhor essa ideia, busquei estudar um pouco sobre o que é de fato o caos. E vi que, para os matemáticos e físicos, o caos não é aleatório, pois que segue leis físicas, embora a sua complexidade de sistemas o levem a comportamentos imprevisíveis e caóticos, mas que, mesmo assim, obedecem a leis e, por isso, seguem a uma ordem. Psicólogos e filósofos sustentam que nós, humanos, vivemos sempre entre o domínio seguro da ordem e o mundo desconhecido do caos. Mas quando fui a Lisboa, em 2023, e visitei a Fundação José Saramago, comprei uma camiseta na lojinha de souvenirs com os seguintes dizeres do escritor:”O caos é uma ordem por decifrar”. Pronto, foi ali que comecei a desenvolver a ideia de um livro com esse título: “Labirintos do caos”, tendo o entendimento de que quando falo de caos penso no imprevisível e desconexo evoluindo para algo maior e estruturado, assim como é o processo de criação. Afinal, quando vamos criar algo (no meu caso histórias literárias), começamos com ideias caóticas, mas que depois elas vão se organizando e se ordenando.
A obra foi escrita durante a pandemia, em um período de impotência e incerteza coletiva. Como esse contexto atravessou sua escrita e ajudou a moldar o tom distópico dos contos?
Bem, costumo dizer que o livro tem uma veia um tanto quanto distópica porque as histórias tocam em temas sensíveis como o controle de emoções, desastres ambientais, o desejo dissimulado ou oculto de dominação numa espécie de bio-poder que se infiltra na sociedade nesse momento de transição tecnológica, quando nós, pobre mortais, sabemos muito pouco sobre esse mundo novo que se anuncia. Quando escrevi o primeiro conto (O misterioso das noites virtuais), em 2022, ainda no auge da pandemia do coronavírus, eu não tinha a ideia clara de escrever uma obra distópica mas esse conto me deu asas para criar outras histórias, todas elas com aspectos futuristas, às quais se passam até o ano 2050. É um livro que nasceu com o desejo de encarar o futuro não como espetáculo, mas como vertigem humana. Sim, já havia um ruído em torno da tecnologia, da velocidade, da eficiência, da superação de limites, contudo estávamos diante de uma pandemia mortal. E Labirintos do caos surgiu com o olhar da perplexidade.
Seus personagens são pessoas comuns vivendo situações futuristas, estranhas e caóticas, mas ainda muito próximas do nosso cotidiano. O que te interessava revelar sobre a humanidade quando ela é colocada diante do desconhecido?
Olha, o livro, por ter a natureza de ficção, não apresenta respostas, principalmente para perguntas que não foram feitas para ser respondidas depressa, mas para permanecer latejando, como uma pulguinha atrás da orelha. Mas é uma obra que acho que provoca reflexões, expõe contradições e nos obriga a pensar com mais profundidade sobre aquilo que estamos nos tornando por meio de uma leitura que fala de identidade em colapso, o limite do humano, um mundo em ruptura, a normalização do absurdo, mas também traz uma espécie de resistência sensível com a seguinte pergunta: o que ainda é possível sentir?
Em “As memórias que ficaram na lata do lixo”, a personagem escolhe apagar memórias e acaba rompendo com o passado familiar. O que esse conto questiona sobre memória, esquecimento e responsabilidade histórica?
Esse conto expõe o atrito entre memória e esquecimento histórico, pois traz como pano de fundo o período da ditadura militar muitas vezes esquecido ou com leituras polêmicas. Então, existe nesse conto uma reflexão sobre o perigo do esquecimento histórico para a democracia. O professor Elias Dourado, mestre em Filosofia e doutor em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB), ao ler esse conto, fez o seguinte comentário: “O esquecimento é perigoso porque ele não apaga apenas fatos antigos. Ele reorganiza o presente. Quando uma sociedade esquece suas violências, ela perde a capacidade de reconhecer os sinais de sua repetição. O passado não volta exatamente igual, mas retorna por máscaras novas: discursos autoritários, naturalização da desigualdade, desprezo pelos direitos humanos, perseguição de minorias, violência política, racismo, revisionismos e ataques às instituições democráticas. Por isso, preservar a memória histórica não é culto ao passado. É uma forma de proteger o futuro”. Concordo plenamente com ele.
Já em “A Indigenista e a Guerreira”, um holograma é criado para disfarçar os impactos das grandes corporações no planeta. Como a ficção especulativa te permite discutir temas como meio ambiente, tecnologia e manipulação da verdade?
Esse conto é muito sensível porque trata da questão dos povos originários, os quais continuam sendo exterminados e, ao que parece, não terão muito lugar no futuro. Aqui, a ficção especulativa entra por infiltração, de forma natural, tendo como consolo a criação de um holograma com a figura da prórpia indigenista que morreu na floresta de febre amarela, que, ao ser acionado, aparece ela, no futuro, falando a mesma coisa que falava há décadas: que é preciso preservar a natureza e o meio ambiente, com um discurso velho, mas com a roupagem nova do holograma. Como se todos dissessem: olha nós nos preocupamos com a preservação do meio ambiente, dos povos originários, mas que, no fundo, nada é feito. Assim, o holograma, no futuro, substitui aquelas medalhas que são entregues a pessoas que lutam em prol do bem-comum. Enfim, no futuro, os hologramas serão espécie de prêmio de consolação, algo moderno para falar de lutas antiga que não se resolvem definitivamente.
O livro também aborda vínculos afetivos mediados pela tecnologia, como em “O segredo” e “Seu nome é sensibilidade”. O que esses relacionamentos com inteligências artificiais e ciborgues revelam sobre solidão, desejo e conexão humana?
Na verdade, o livro todo trata, praticamente em todos os contos, de vínculos afetivos, melancolia e a permanência do humano em um mundo em transformação, em meio a realidades caóticas em que máquinas poderão ser programadas para o amor, ou seja, quando uma ordem tecnológica esconde uma desordem emocional. E aí penso que a representação do caos está mais nas mudanças das relações pessoais do que na incerteza do futuro tecnológico. Podemos pensar também que o problema nunca foi a tecnologia, mas o que estamos nos transformando por causa dela.
Apesar do desencanto presente nos contos, a obra também carrega esperança. Como encontrar frestas de sensibilidade e criação dentro de futuros tão instáveis e ameaçadores?
Costumo dizer que nós, humanos, temos duas grandes ferramentas ao nosso favor: a sensibilidade e a imaginação. Acredito que nenhuma máquina terá esses dois requisitos. Ou terá? Sugiro que fiquemos do lado da esperança e da positividade no sentido de que isso não acontença e que superemos tudo com sensibilidade, afeto e imaginação.
Cada conto começa com ilustrações que ajudam a inserir o leitor naquele universo. Como você enxerga o diálogo entre imagem e palavra na construção dos labirintos emocionais e sociais do livro?
Gosto muito das ilustrações do livro, todas elas feitas pelo artista e designer Jeferson Barbosa. Ele afirma que “a concepção da capa e das ilustrações surgiu a partir da ideia de um labirinto híbrido, de uma visão que funde dois dos temas mais potentes do livro: a luta entre a natureza e o artificial”. As imagens, portanto, potencializam a união entre imagem, texto e emoção. Achei que a visão do livro ficou muito boa, trazendo modernidade e ao mesmo tempo um pouco de natureza, expressada pela borboleta, galhos e folhas em cima de um labirinto artificial.
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