Em A Canção do Planeta Prometido, o escritor Antonio Alleoni Corrêa de Godoy constrói um universo onde conflitos entre ciência e religião ameaçam a sobrevivência de uma civilização inteira. Ambientada no planeta Kor, a obra utiliza elementos de ficção científica, fantasia e reflexão filosófica para abordar temas contemporâneos como polarização, intolerância, manipulação ideológica e a dificuldade de convivência entre diferentes visões de mundo. Em entrevista, o autor fala sobre as inspirações por trás da narrativa, a influência de grandes nomes da literatura fantástica e o papel da ficção como ferramenta para discutir os desafios sociais e humanos de uma sociedade cada vez mais dividida.
“A Canção do Planeta Prometido” parte de um mundo em que o ódio coletivo começa a alterar a própria natureza. Em que momento você percebeu que essa imagem poderia traduzir, de forma ficcional, as tensões do nosso tempo?
Comecei a escrever o livro em 2013. Depois meu pai morreu, e fiquei anos sem escrever. A ideia de que a psique humana altera a própria natureza foi surgindo à medida que eu escrevia. Naquela época, as tensões mundiais não estavam tão exacerbadas. Vejo nessa obra um tom profético. Recentemente descobri que o iogue paramahansa yogananda tinha uma ideia semelhante a essa: o planeta pode sofrer junto conosco. Fantástico! Estou bem amparado!
O planeta Kor é dividido entre os Piedosos, ligados à fé, e os Racionais Iluminados, defensores da ciência. O que mais te interessava investigar nesse confronto entre espiritualidade, razão e intolerância?
No passado, ciência e religião estavam mais integradas. Por exemplo, a astronomia e a astrologia formavam um todo que era estudado pelos sábios. Os cientistas da antiguidade procuravam entender o universo de deus! Contudo, com o advento do pensamento mecanicista, a partir mais ou menos do seculo xvii, ou até antes, os filósofos como rené descartes e isaac newton começaram a ver o universo como uma máquina. E esse pensamento foi se desenvolvendo até chegarmos nos dias atuais onde temos uma ciência hostil à religião. Mas essa visão agnóstica está sendo questionada por cientistas como o físico indiano amit goswami, ou o físico grego menas kafatos. Matéria vem a ser espírito e vice-versa.
A narrativa mostra que a Mente Coletiva da população pode influenciar catástrofes naturais. Como surgiu essa ideia de transformar o estado psicológico de uma sociedade em força capaz de impactar o mundo físico?
Baseado nos conceitos desenvolvidos por c. G. Jung e teilhard de chardin, eu criei minha narrativa. Para jung, existe o inconsciente coletivo que pertence a toda a humanidade. Para chardin, um dia existirá a noosfera, a esfera da mente, onde as psiques humanas farão parte de uma coisa só e se unirão a deus no final dos tempos. As redes sociais nos dias de hoje não estão, de certo modo, cumprimdo esse papel? A despeito dos conflitos pessoais que lá encontramos. A humanidade ainda não se tornou uma só, mas parece estar caminhando para isso. Se permitirmos, é claro! Ou talvez sem permissão mesmo, configurando um destino inevitável.
Trondoll é visto como messias por uns e como um primata excepcional por outros. O que essa diferença de interpretação revela sobre a forma como mitos, ciência e religião disputam a verdade?
Essas diferentes visões de mundo revelam o seguinte: o homem é um ser incompleto. A ciência é incompleta. A religião é incompleta. A verdade é muito maior. E está na integração dessas diferenças. A religião não diz tudo. A ciência não diz tudo. Por isso cito novamente aqueles cientistas e religiosos que querem integrar as duas visões. Espírito e matéria. Corpo e alma. Deus e homem. Nas vizinhaças do todo, nos aproximamos da verdade.

Daxxtor e Jeb tentam construir pontes em meio a uma sociedade radicalizada, mas também carregam um segredo capaz de abalar todo o planeta. Como foi criar personagens que precisam escolher entre preservar a ordem ou revelar uma verdade transformadora?
Os seres humanos se adaptam às leis da sociedade para uma convivência harmoniosa. Contudo, não há em nós ideias que nos surgem que podem mudar as coisas? E isso nós é angustiante. Temos medo de dizê-las. Com suas teorias, albert einstein revolucionou a física de newton. Mudou a visão de mundo corrente. Certamente, deve ter sido para ele um pouco angustiante o processo de desafiar conceitos impostos e estabelecidos. Por isso muita gente hoje em dia ainda acredita que a terra é plana. Toda mudança de paradigma é sofrida. Para mim foi assim.
A obra aborda temas como racismo, polarização social, manipulação ideológica e genocídio por meio da ficção científica e da fantasia. Por que esse gênero te pareceu o caminho ideal para discutir questões tão humanas e atuais?
Eu desejei, com essa obra, ampliar o público alvo. Essas questões geralmente se limitam a um público catedrático e intelectual demais. Não chegam muito à população. Por causa disso, através de uma obra ficcional de aventura, eu decidi colocar essas questões tão importantes para as pessoas comuns, tirando-as dos meios exclusivamente catedráticos. Espero ter conseguido.
Sua formação em Física, Teologia, Parapsicologia e Religião atravessa diretamente o universo do livro. Como essas diferentes áreas de conhecimento influenciaram a construção de Kor e de seus conflitos?
Foi justamente por causa de meus cohecimentos que eu pude escrever essa obra. Eles me proporcionaram isso. Por exemplo: a física quântica demonstrou que a mente humana intervém na estrutura da matéria. Quando os cientistas, através de aparelhos, observam um elétron, este muda seu comportamento. Então, por causa dessas ideias, eu consegui eleborar uma história interessante. Não saberia escrever um romance policial. Nada tem a ver com meus conhecimentos.
Você afirma que somente a concórdia pode unir uma humanidade desunida e belicosa. Depois que o leitor atravessa os conflitos de “A Canção do Planeta Prometido”, que reflexão gostaria que permanecesse nele sobre diálogo, extremismo e convivência?
Que permaneça a ideia: somos todos um! O planeta terra visto do espaço é um todo sem fronteiras. Não há países e não há negros e brancos. Nem comunistas e nem capitalistas. Só existe uma raça: a raça humana!
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