Em Vila Morangal – Livro 1: Desejo e Culpa, o escritor Francisco Xavier Amaral mergulha nas complexas relações humanas de uma comunidade rural mineira marcada por tradições rígidas, hierarquias sociais e segredos cuidadosamente preservados. Ambientado no sertão brasileiro do século XX, o romance acompanha personagens cujas escolhas, paixões e traumas se entrelaçam em uma narrativa que questiona os limites entre moralidade, desejo e culpa. Em entrevista, o autor fala sobre as influências literárias de nomes como Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa, a construção de um universo profundamente enraizado na cultura mineira e os desafios de explorar as contradições que moldam a condição humana.
“Vila Morangal” retrata um vilarejo aparentemente sem importância, mas cheio de tensões, segredos e disputas de poder. Em que momento você percebeu que esse lugar fictício poderia carregar tantas camadas do Brasil real?
Vila Morangal poderia ser qualquer pequeno município encravado no sertão brasileiro. Esta pequena cidade nada tem que a faça distinta das demais, senão a história de seus habitantes, colhidas em momentos cruciais de suas pequenas vidas, num sertão escondido das vivências urbanas, embora carregado de emoções, de sentimentos de profundeza universal, comuns a todo ser humano. Neste sentido, não há limite geográfico que impeça paixões, amor, ódio, violência, obsessão, angústia, enfim tudo aquilo que é próprio do homem. Na verdade, eu acredito que a ambientação da narrativa poderia se dar em qualquer outro espaço de convivência. Em todos eles haverá sempre uma intensa e preciosa carga de sentimentos, misturando desejos, ambições, medos, ódios e tudo mais que atormenta, consola, entristece ou alegra o ser humano.
A obra atravessa temas como desejo, culpa, violência, paixão e redenção. O que mais te interessava investigar nessa fronteira entre aquilo que os personagens querem e aquilo que a moral da época permite?
As convenções sociais e a moral burguesa sempre me interessaram, às vezes como simples curiosidade, outras como objeto de pesquisa no enfrentamento da complexidade humana. A culpa é um sentimento avassalador que parece nascer com o homem, na carga tenebrosa que lhe traz a ancestralidade. Há desejos que não podem ser satisfeitos, há paixões que devem ser adormecidas, há alegrias que não podem ser exteriorizadas, há violências que devem ser contidas. A alma humana é um caldeirão de conflitos. A beleza do homem deverá ser o cotidiano carregar a vida. Se o fizer transpondo os obstáculos das convenções e da moral, ele é vencedor, ele é reconhecido, ele é herói, ele é santo. Todavia, ele não o faz, não transpõe, não atinge a glória. Ele padece, porque é humano, “demasiadamente humano”.
Não apenas Freud, mas também Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzche, para citar os que mais me impressionaram, focalizaram a culpa como sentimento ínsito ao ser humano. Com o homem nascem o desejo, a culpa e tais sentimentos o perseguem durante toda a existência. Ele não consegue redimir-se. Mesmo porque, se o desejo é satisfeito, a culpa sobrevém e faz aumentar a amargura, pois as convenções e a moral não lhe dão trégua. desejo e culpa são gêmeos univitelinos.
Cidinho começa a vida adulta marcado pela perda da mãe e passa a carregar conflitos internos profundos. Como foi construir um personagem quieto, robusto, mas emocionalmente atravessado por tantas ausências?
Cidinho foi criado por uma mãe aparentemente avessa às convenções sociais e à moral burguesa. Ela não tinha religião nem apego a qualquer divindade ou crença. Esta capa de indiferença, conquanto espessas, não a protegia das cobranças sociais. Ela transgredia as regras, porém escondia diligentemente as transgressões, buscando mostrar-se cumpridora da moral e dos “bons costumes”. Eram poucas as suas explosões públicas de revolta ou de fúria. E ela as leva para longe, para a capital do Estado, onde, talvez, sua ânsia de liberdade social e sexual não despertasse mexericos, quiçá escândalos.
Cidinho, porém, não traz marcas identificadoras do caráter da mãe, inobstante viver um romance proibido que o atormentará cruelmente em momentos decisivos da sua vida. Quando a rigidez da moral religiosa parece submergir diante da verdade dos fatos, ele próprio é vencido pela convenção e se afoga no mar dos costumes arcaicos de uma sociedade conservadora e perversa. Sua luta é contra si mesmo. Só no seu mundo de incertezas éticas, ele se fecha por inteiro. Ele não sabe quem é seu pai, tampouco o procura pelo mundo. Sua mãe não lhe faz falta e ele se atira na vida tendo por companhia a sua trancada solidão.
Major Jovelino, Violeta e Gardênia representam forças muito diferentes dentro da narrativa: autoridade, liberdade, trauma e convicção. Como esses personagens ajudam a revelar as contradições sociais e afetivas de Vila Morangal?
Major Jovelino é um ser possuído pela cólera, pela ira ilimitada e incontrolável; tem metas a cumprir e atropela tudo e todos que atravessam o seu caminho. Mata, manda matar, bater ou aleijar. Não tem escrúpulos. Contudo, consegue amar; do seu jeito rude e barulhento, mas consegue.
Violeta é a mulher livre, que faz do casamento a porta da liberdade, o jeito encontrado para fugir do sertão. A vida não lhe sorri, como sonhava. Ela, porém, é determinada. Dribla o destino e salta para a aventura de ser livre. O filho não lhe trouxe empecilhos; ela o teve como um acréscimo, um apêndice temporário, que dela se afastaria no devido tempo.
Gardênia, como a irmã, pouco ligava para as convenções sociais ou com a moral burguesa. Era, contudo, feita de têmpera menos aventureira. Gostava do sertão e era nele que pretendia moldar sua vida. Tinha momentos de fogosidade e ninfomania, buscando parceiros improváveis. Contudo, amou, de um jeito possessivo e inquietador, mas amou. Nisto, seu caráter se aproximava do de Jovelino Penalva, porque ela, de igual modo, não conhecia limites.
Estes três personagens marcam, decisivamente o cotidiano de Vila Morangal e de Cidinho, cuja vida perpassa pela vida de todos eles, ora trágica, ora conturbada, ora carregada de erotismo.

O livro mostra como decisões pessoais podem deixar consequências psíquicas e sociais por décadas. Por que era importante, para você, tratar o passado não como algo encerrado, mas como uma presença que continua moldando vidas?
O ser humano, como já disse, carrega uma carga de ancestralidade que influencia o seu cotidiano. Não só dos antepassados, mas também das ocorrências da sua própria existência, do seu próprio ser no mundo. As escolhas anteriormente feitas conduzem sua vida, muitas vezes como um roteiro inexpugnável à mudança. Na narrativa, o “flashback” é imperativo, sob pena de não se compreender o presente. Não se trata de determinismo, mas da influência de escolhas anteriores que, muitas vezes, não todas, ensejam condutas aparentemente inexplicáveis. O passado não é apenas herança, mas um conjunto de emoções e vivências que continuam presentes no cotidiano das pessoas. A recorrência das incursões ao passado mostra que ele permanece vivo na vida das pessoas, que não podem descartá-lo inconsequentemente.
A religiosidade, o tradicionalismo e as convenções sociais comandam boa parte da trajetória dos personagens. Como você enxerga o peso dessas estruturas na formação da culpa e do silêncio dentro da obra?
No interior do Brasil e de maneira mais radical nas pequenas cidades, a religião impõe condutas sociais que restringem a exposição das pessoas no convívio rotineiro. As igrejas, seja a católica, ou as evangélicas de modo geral, proíbem comportamentos que não sejam os estabelecidos nas suas respectivas doutrinas. Questões como o aborto, o sexo fora do casamento, o uso do álcool, a extensão do conceito de incesto, dentre outras, limitam a liberdade das pessoas, independentemente de serem fiéis ou não a determinada crença. Os fiéis adotam as restrições porque acreditam serem elas a vontade de Deus. Os que não professam a crença se recolhem ao silêncio e ao distanciamento porque, do contrário, a sociedade os molestaria, a ponto até de bani-los do convívio social. A transgressão aos preceitos leva à culpa, ao doloroso sentimento do pecado, à amargura e até à solidão. Não importa que os preceitos nadem na hipocrisia ou no farisaísmo. Não há como fugir do sentimento de culpa, porque ele nasceu com o homem, que a todo momento deseja; quer conquistar, quer o poder, quer sempre o que lhe parece faltar para ser feliz. Quando, porém, alcança o desejado, a culpa por ter transgredido leva-o à amargura do pecado, à culpa pela ambição, ao sofrimento de auto execração.
A linguagem regional, com expressões mineiras e contrações fonéticas, tem papel fundamental na construção do romance. Como foi encontrar uma voz literária que respeitasse o território sem transformar esse universo em caricatura?
Eu acredito que o respeito ao linguajar do habitante do sertão mineiro dá mais credibilidade à narrativa e envolve o leitor de forma mais intensa naquele particular universo. Não foi difícil para mim trazer ao público este quase dialeto mineiro, porque eu convivi muito com peões e vaqueiros na época em que tinha fazenda de gado. Um dos meus prazeres nesta convivência era ouvir, por horas a fio, os “causos” que tanto enriquecem o folclore de Minas Gerais. Sempre achei que na boca desses personagens jamais caberia a linguagem urbana. Evitei, contudo, estender o vocabulário e as construções sintáticas, as contrações fonéticas e outras singularidades a todos os personagens, por achar que isto tornaria a narrativa monótona e não transmitiria ao leitor a engenhosidade matuta de driblar e até colorir as palavras. Entendo que isto foi uma incessante busca de autenticidade.
Sem um único protagonista central, “Vila Morangal” se constrói a partir de histórias que se cruzam, quase como um retrato coletivo. O que essa multiplicidade permite revelar sobre as raízes, os conflitos e os limites da moralidade no interior brasileiro?
Vila Morangal é um romance que não tem uma figura central, em cima da qual a narrativa se constrói. Na verdade, são vários e de diferentes estirpes os personagens destacados na narrativa. Entre eles, no entanto, existe a identidade do território geográfico, embora sejam diferentes as posturas e as armas com que enfrentam as vicissitudes da vida. Há, sim, aqueles sobre quem a narrativa se debruça com mais intensidade, tonando sua história uma verdadeira saga. Por outro lado, há outros, cuja existência é narrada lateralmente, à vista de sua importância passageira no contexto geral da trama. Cidinho, não obstante sua importância, não é, propriamente, a figura principal A ele se juntarão outros, cuja saga é igualmente dramática sob todos os aspectos. Eles, alguns mais, outros menos, se cruzam, se enfrentam, se debatem consigo mesmo, fazendo ressaltar um momento carregado de tragicidade na vida sertaneja escondida entre as montanhas de Minas Gerais.
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