Murilo Muraah transforma filosofia e autoconhecimento em experiência audiovisual no clipe “Farol”

Luca Moreira
14 Min Read
Murilo Muraah (André Hoff)
Murilo Muraah (André Hoff)

Inspirado por reflexões filosóficas sobre a existência, o cantor e compositor Murilo Muraah apresenta “Farol”, videoclipe que amplia o universo conceitual de sua atual fase artística ao unir música, imagem e simbolismo. A partir de referências ao pensamento de Friedrich Nietzsche e de uma estética construída pelo contraste entre luz e sombra, o trabalho convida o público a refletir sobre autoconhecimento, presença e espiritualidade. Em entrevista, Murilo fala sobre o processo criativo do clipe, a influência da filosofia em sua obra, os desafios da produção audiovisual e a maneira como busca transformar inquietações existenciais em uma experiência artística capaz de provocar novas formas de olhar para si e para o mundo.

“Farol” nasce de uma reflexão sobre uma mente investigativa, sempre em busca de respostas, mas muitas vezes distante do presente. Em que momento você percebeu que essa inquietação precisava virar música e imagem?

Essa percepção foi resultado de diversos processos e acontecimentos que eu vivia naquele período, principalmente a partir de 2010. Foi um momento de conexão com diferentes reflexões, experiências, textos e outros elementos que, por um lado, questionavam aspectos que há tempos faziam parte da minha visão de mundo e, por outro, apresentavam outras formas de interpretar a realidade. Ao mesmo tempo, essas influências começaram a aparecer também nas minhas letras de músicas e outros textos, que tantas vezes me ajudavam a compreender melhor algumas daquelas ideias. Farol foi um desses casos, nasceu a partir do texto “A Sombra”, presente em Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, mas também traz outros elementos que já me acompanhavam há mais tempo.

A canção dialoga com “A Sombra”, de Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra”. O que essa referência filosófica abriu para você dentro do processo criativo?

Assim como outras músicas e textos, Farol é um retrato do momento em que criei aquela letra. Nasceu de forma muito orgânica, misturando elementos do texto de Nietzsche com elementos do hinduísmo, budismo e outras influências. Em meu processo de composição, tento deixar as ideias fluírem de forma bastante livre, sem tentar controlar ou encaixar em um resultado estético específico. De certa maneira, costumo prezar mais pelo conteúdo do que pela forma. Então a leitura de um texto pode disparar ideias e reflexões que se tornam meus próprios textos. Alguns desses textos têm aspectos mais rítmicos e podem se tornar músicas, outros são mais densos e se tornam registros escritos das minhas reflexões naquele momento. Claro que, já no início, a forma como o texto começa a surgir aponta para um caminho que pode ser mais poético, narrativo, filosófico. O foco é no conteúdo, deixar as ideias virem livremente, mas a forma do texto geralmente é o que vai determinar se ele pode virar uma música depois.

Talvez por isso Assim Falou Zaratustra tenha gerado um impacto tão grande em mim, influenciando alguns dos meus textos, não apenas Farol, e causando um grande impacto na minha visão de mundo. É uma obra que apresenta conceitos filosóficos elaborados de forma artística, com uma narrativa literária, personagens provocativos, textos poéticos.

Murilo Muraah (André Hoff)
Murilo Muraah (André Hoff)

O clipe trabalha o contraste entre luz e corpo, coração iluminado e olhos como faróis. Como foi transformar conceitos tão internos — autoconhecimento, presença e busca espiritual — em imagens concretas?

Antes de transformar em imagens concretas, tem o momento da criação da própria letra e da música. Como falei na resposta anterior, a letra costuma vir antes, de forma bastante livre e orgânica. Como gosto de usar metáforas, as concepções internas ganham vida própria quando nasce a letra, o que ajuda a fazer com que esses conceitos possam ganhar outros significados para quem tem contato com ela. Mas a criação musical também tem um papel fundamental nessa transformação de sentimentos e ideias que são tão íntimos em algo que pode ter significado também para outras pessoas.

O processo de criação do universo estético para o clipe de Farol foi realizado com a equipe da Fruuto, em especial com Rodolfo Lacerda, que dirigiu o clipe, e Mariana Lima, que fazia a gestão das minhas redes sociais e também contribuía de outras formas com o projeto. O uso de imagens fortes como metáforas, o farol, o coração, os olhos que se abrem, tudo isso ajudou a construir as imagens que fazem parte do clipe.

Você comenta que o olhar como farol representa tanto a capacidade de enxergar o mundo com mais sabedoria quanto a possibilidade de contribuir com a busca espiritual de outras pessoas. Que responsabilidade existe em iluminar caminhos sem impor respostas?

De certa forma, cada pessoa acaba convivendo com as suas próprias respostas para questões sobre a vida para as quais jamais vamos conseguir respostas concretas. Claro que isso é profundamente influenciado pelo local onde cada pessoa é criada, pela cultura de seu grupo familiar e da sociedade em que ela está inserida, pela religiosidade, pelas experiências e conexões que ela vai ter durante a sua vida. Mas cada cabeça contém um universo próprio, contém sua própria busca por respostas.

Então propor reflexões sem precisar impor que elas sejam respostas universais que deveriam ser seguidas por todos os seres humanos nada mais é do que reconhecer essa complexidade, essa riqueza de experiências, de culturas, de formas de interpretar a realidade. É preciso ter humildade quando tratamos de temas tão gigantescos como o que é a vida, como é construída a nossa relação com aquilo que está além do que podemos compreender, se a realidade é transcendente ou imanente, se existe um deus criador e tantos outros que acompanham a humanidade há milênios.

Essas e outras grandes questões me encantam, estiveram presentes de certa forma desde a minha infância. Eu não sou um cientista, não pretendo teorizar ou apresentar respostas como um filósofo, muito menos tenho qualquer pretensão de oferecer o olhar de um religioso, de um teólogo. Sou um artista, minha relação com esses temas se dá por meio de muita reflexão, claro, mas também por meio da escrita, da música, das imagens, durante os shows. Por isso, fiz a escolha de apresentar diferentes formas com que eu mesmo já interpretei a realidade, formas que são contraditórias, às vezes até conflitantes. Me interessa tirar o peso das certezas, brincar com o que não temos como acessar de forma absoluta, com aquilo que podemos apenas imaginar, teorizar, acreditar, sonhar.

A experiência humana é repleta de maneiras de explicar o inexplicável, de usar simbolismos para sondar o universo, a natureza, a vida. Aceitar as contradições, brincar com as incertezas, caminhar entre as diferenças, afirmar a pluralidade da vida… isso tudo me interessa, essa é a luz que ilumina o meu caminho. Ao compartilhar meu trabalho artístico, quem sabe a maneira como expresso a minha visão de mundo, uma visão em constante transformação, possa fazer sentido para outras pessoas também? Num mundo que tenta o tempo todo nos impor certezas imutáveis, que tenta nos dizer que é preciso se adequar a um jeito certo e único de viver, acolher as incertezas pode ser uma postura libertadora. Não sinto qualquer responsabilidade de que devo iluminar caminhos, mas sim a vontade de compartilhar meus pensamentos, minhas pequenas loucuras, esses gritos de liberdade.

Murilo Muraah (André Hoff)
Murilo Muraah (André Hoff)

A construção do clipe aconteceu de forma orgânica com Rodolfo Lacerda e a equipe da Fruuto. O que essa colaboração trouxe para ampliar o universo simbólico de “Farol”?

A Fruuto tem uma maneira muito eficaz de chegar a resultados esteticamente interessantes utilizando poucos recursos. A criatividade é a principal força que oferecem, conseguiram compreender as ideias por trás da música e construir de forma impactante o universo do clipe e dos visualizers. As imagens ficaram fortes e representativas, isso tem contribuído pra trazer muitas pessoas novas pra acompanhar o meu trabalho nas redes.

O Rodolfo liderou o processo criativo para o clipe, propondo referências para as imagens, e tudo foi discutido, aprimorado e depois colocado em prática pela equipe, que no caso de Farol, além da Mariana Lima que já citei, contou também com Ale Machado (direção de fotografia e edição), Ana Mori (direção de arte), Patricia Ferreira (produção executiva) e André Hoff (fotografia, still e produção).

Uma das imagens mais marcantes envolveu gravar com velinhas artificiais presas sobre os olhos, sem conseguir enxergar. O que esse desconforto físico revelou sobre confiança, entrega e vulnerabilidade diante da câmera?

Eu já tinha vivido um processo semelhante com a equipe da Fruuto, quando filmamos diversas imagens com diferentes objetos cobrindo o meu rosto para o clipe de Percepção, que também chega em breve. No caso de Farol, a principal imagem para o clipe era essa com as velinhas presas nos olhos, foram vários takes cantando, me movimentando pela sala, tocando guitarra com elas nos olhos. Para isso funcionar, é preciso ter confiança na equipe, não só pra seguir as orientações que vão passando durante a filmagem, mas também pra se colocar nesse lugar de maior vulnerabilidade.

Farol e Percepção foram as primeiras produções audiovisuais que fiz para meu trabalho musical, então esses pequenos desafios foram ótimos pra me testar, pra eu mesmo perceber não só que consigo realizar esse outro aspecto do meu trabalho, mas também que gosto dele.

Você afirma que “Farol” te ajudou a compreender que não basta ter um espírito questionador, é preciso viver plenamente o presente. Como essa percepção dialoga com sua fase artística e pessoal atual?

Ter voltado a fazer shows depois de 16 anos afastado dos palcos foi um choque de presença, no melhor dos sentidos. É preciso estar plenamente no presente pra poder se apresentar diante do público. Cada show é uma experiência diferente, o contato com o público muda, as músicas ganham outra vida. Digo sempre que, mesmo tendo mais experiência com estúdios, fazer shows é a coisa que mais gosto de fazer. Mas não só isso, toda a preparação pra essa volta aos palcos, os ensaios, as decisões técnicas e artísticas, o contato com a banda, tudo isso me puxa para o presente e me faz aproveitar melhor essa fase atual da carreira.

O ciclo “Inquieto Caminhante” parece reunir música, filosofia, espiritualidade e presença no mundo. Depois de tirar essas ideias da cabeça e colocá-las em forma audiovisual, que tipo de experiência você espera que o público viva ao assistir ao clipe?

Uma experiência de presença, sem dúvidas. Espero que o clipe ofereça um bom momento musical, mas também que possa despertar pensamentos, reflexões. A cada pessoa, conforme a sua realidade, conforme a sua própria experiência no mundo, mas dando aquele chacoalhão de que é possível ir além do que já sabe, do que acredita… de que talvez seja possível ir além de si mesmo.

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