Drenna reúne cinco vozes femininas e transforma indignação em força coletiva no single “Levante”

Luca Moreira
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Drenna (Regis Bittes)
Drenna (Regis Bittes)

A banda Drenna reuniu diferentes vozes da música brasileira para transformar experiências de silenciamento, controle e resistência em um manifesto coletivo. Lançado em 14 de agosto, o single “Levante” contou com as participações de Dani Buarque, Ada Bellatrix, MC Taya e Yasmin Amaral, que se juntaram à vocalista Drenna Rodrigues em uma faixa atravessada pelo rock alternativo, punk, hardcore e rap rock. Em entrevista, a banda fala sobre a construção dessa colaboração, a escolha de abordar diretamente a luta das mulheres, o processo de transformar diferentes vivências em um mesmo coro e a intenção de fazer da música não apenas uma denúncia, mas um chamado à união, à ocupação de espaços e à transformação.

“Levante” nasce como um manifesto feminista em forma de rock, reunindo assédio, censura, julgamento, silenciamento e controle em uma mesma convocação. Em que momento você percebeu que essa música precisava existir dentro da narrativa de “Interregno – O Mundo Depois da Certeza”?

Interregno fala justamente sobre esse momento de transição que a gente está vivendo. O próprio conceito do álbum parte dessa ideia de um período em que as antigas certezas começam a perder força, mas aquilo que vai ocupar esse lugar ainda está sendo construído. É um espaço entre o que já não funciona mais e o que ainda está por vir.

E, para mim, quando a gente fala de transição, a gente também precisa falar de evolução. Foi aí que percebi que “Levante” fazia muito sentido dentro dessa narrativa.

A música olha para estruturas e comportamentos que marcam a vida das mulheres há muito tempo e questiona justamente a permanência dessas coisas em uma sociedade que se diz em transformação. Não dá para falar em evolução enquanto continuarmos carregando para o futuro estruturas que já deveriam ter ficado para trás.

Então “Levante” ocupa esse lugar dentro de Interregno: ela reconhece que estamos em um momento de mudança, mas também afirma que o futuro não está dado, ele está em disputa.  E, se estamos vivendo esse momento em que as antigas certezas já não dão conta do mundo, queremos participar ativamente da construção do que vem depois e garantir que esse movimento nos leve para frente, não para trás.

A canção parte da sua voz, mas só se completa quando se torna um grito coletivo. O que mudou na força da mensagem quando Dani Buarque, Ada Bellatrix, MC Taya e Yasmin Amaral entraram na faixa?

Mudou completamente a dimensão da música.

Eu poderia cantar “Levante” sozinha e defender cada palavra da letra, mas acho que ela perderia justamente uma parte essencial do que queria dizer. Porque não faria sentido escrever uma música sobre união entre mulheres e construir essa mensagem como uma voz solitária.

Quando Yasmin, Dani, Ada e Taya entram, a música deixa de ser apenas uma narrativa minha. Cada uma chega com uma história, uma personalidade artística e uma maneira diferente de colocar a própria voz no mundo. E isso aparece na gravação.

Eu não queria cinco mulheres tentando soar iguais. Queria justamente o contrário: cinco mulheres diferentes encontrando um ponto em comum sem precisar apagar suas diferenças.

A partir daí, a música ganha outro significado. Já não é mais alguém dizendo “eu penso isso”. É um coro dizendo “nós não aceitamos mais isso”.

Você comenta que “Levante” não pretende falar por todas as mulheres como se existisse uma única vivência. Como foi construir uma música que respeita experiências diferentes, mas encontra uma recusa comum?

Esse cuidado era fundamental para mim porque não existe uma experiência universal de ser mulher. A realidade de uma mulher negra, periférica, trans, indígena, uma mulher que é mãe, uma mulher que não quer ser mãe, uma mulher de outra geração, de outra classe social… tudo isso produz experiências muito diferentes.

Então eu não queria escrever uma letra dizendo “é assim que todas nós vivemos”, porque eu não tenho esse lugar de fala.

O que eu procurei foi partir de situações e estruturas que atravessam muitas mulheres de formas diferentes: o controle sobre o corpo, o julgamento, o medo, o silenciamento, a ideia de que alguém sempre sabe melhor do que nós mesmas como devemos viver.

E talvez o ponto de encontro da música esteja justamente na recusa. A gente não precisa ter vivido exatamente a mesma história para reconhecer aquilo que não aceita mais.

A letra percorre violências históricas e formas de controle que ainda hoje aparecem disfarçadas de cuidado, proteção ou tradição. Por que era importante mostrar que algumas opressões mudam de linguagem, mas continuam atravessando a vida das mulheres?

Porque algumas formas de controle ficaram muito mais sofisticadas.

É fácil identificar a violência quando ela aparece de maneira explícita. Mais difícil é perceber quando ela vem acompanhada de frases como “estou fazendo isso para o seu bem”, “mulher tem que se preservar”, “isso não é coisa de menina”, “senta direito”, “fala baixo”, “não provoca”, “não revida”.

Muitas vezes a violência começa muito antes de um ato extremo. Ela começa quando uma menina aprende que precisa ocupar menos espaço, medir a própria voz e assumir como responsabilidade dela o comportamento dos outros.

E essas frases vão mudando conforme a sociedade muda. Algumas coisas que eram ditas abertamente décadas atrás hoje já não são socialmente aceitas, mas a lógica pode continuar aparecendo de outras formas.

Por isso uma das ideias mostradas em “Levante” é justamente essa: nem tudo que se apresenta como cuidado cuida. Às vezes, cuidado é apenas o nome mais aceitável que deram ao controle.

Musicalmente, a faixa aposta em guitarras densas, baixo e bateria fortes, além de influências do punk, hardcore e rap rock. Como vocês pensaram esse peso sonoro para que ele sustentasse a mensagem sem engolir a palavra?

O principal norte era muito claro: o arranjo precisava ter peso porque a letra tem peso. A gente entrou no estúdio com isso na cabeça, mas sabendo também que nada poderia se sobrepor ao que estava sendo dito.

Em “Levante”, a letra é o centro da música. Então todo o cuidado foi construir um instrumental forte, intenso, que aumentasse o impacto da mensagem, sem correr o risco de ela se perder no meio do arranjo.

Fomos crescendo esse arranjo aos poucos, porque a própria música tem esse movimento de construção. Ela vai acumulando força, ganhando corpo e tensão até chegar ao ponto mais alto, que é o refrão, quando a mensagem deixa de ser quase uma fala e se transforma de vez em convocação coletiva.

A ideia era justamente essa: o peso da música potencializar o peso das palavras, e não competir com elas. Fazer a canção crescer junto com o que está sendo dito, até desembocar naquele refrão que precisava soar grande.

O refrão foi construído para soar como uma convocação coletiva. Que imagem vocês tinham em mente ao imaginar o público cantando essa música junto?

Quando a gente constrói um refrão, sempre pensa naquele momento do show em que o público começa a cantar junto com a gente. Isso já acontece com muitas músicas da Drenna, então existe naturalmente essa expectativa também com “Levante”.

Esse refrão foi pensado para ser cantado em coro, para ganhar ainda mais força quando várias vozes se somam à nossa.

Agora que a música já está no mundo, acredito que isso vai começar a acontecer aos poucos. Imagino muito esse refrão crescendo nos shows até chegar naquele momento em que a gente começa a cantar e o público vem junto.

“Levante” transforma indignação em movimento, indo além da denúncia para propor força, união e ocupação de espaços. Que tipo de energia vocês esperam despertar em quem se reconhecer nessa faixa?

Acho que é uma energia de reconhecimento, mas também de memória. De olhar para tudo o que as mulheres já atravessaram e, principalmente, rememorar toda a história de luta por igualdade, respeito e pelo direito de existir na sociedade sem precisar caber no lugar que determinaram para nós.

Muitas das liberdades que temos hoje não surgiram espontaneamente. Elas foram conquistadas porque outras mulheres vieram antes, enfrentaram estruturas muito mais duras, romperam silêncios e abriram caminhos que hoje a gente continua percorrendo.

Então “Levante” também parte dessa consciência. A gente já conquistou muito, mas ainda existe um caminho enorme pela frente. E é justamente por saber de onde viemos e o que foi necessário para chegar até aqui que não estamos dispostas a esmorecer, muito menos a retroceder.

A união que aparece na música vem daí. É quase um compromisso coletivo de continuar avançando e de permanecer atentas para que direitos, espaços e conquistas que levaram gerações para serem construídos não sejam simplesmente desmontados.

O lançamento também terá visualizer e um clipe em planejamento, com estética inspirada em manifestações. Como vocês querem traduzir visualmente essa ideia de muitas vozes se encontrando para romper o silêncio?

A gente quer que o clipe seja também um espaço de representatividade e celebração. Vamos trazer para a frente mulheres que fizeram história, romperam barreiras e ajudaram a transformar a sociedade, porque referências femininas nunca faltaram. Muitas vezes, o que faltou foi dar a elas o destaque que merecem.

Essas mulheres vão aparecer como parte importante da narrativa visual, junto a imagens e referências de manifestações, cartazes, ruas ocupadas e movimentos coletivos. A ideia é mostrar visualmente essa força de muitas vozes que se encontram e deixam de poder ser ignoradas.

Então o clipe não quer apenas ilustrar a música. Ele quer dar rosto a essa força coletiva, celebrar essas referências e colocar mulheres em primeiro plano, que é exatamente o lugar que elas devem ocupar nessa história.

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