Eric Bê e o Avesso do Avesso inauguram nova fase com “Tereze” e celebram a liberdade de ser quem se é

Luca Moreira
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Eric Bê e o Avesso do Avesso
Eric Bê e o Avesso do Avesso

Eric Bê e o Avesso do Avesso apresentaram, no dia 14 de agosto, o single “Tereze”, faixa que marcou oficialmente o início de uma nova fase do grupo ao unir rock, violino e uma narrativa sobre liberdade, identidade e resistência aos julgamentos. Inspirada em diferentes mulheres observadas pelo compositor, a personagem que dá nome à música enfrenta assédio, preconceitos e expectativas conservadoras sem abrir mão de sua autonomia. Em entrevista, a banda fala sobre a construção dessa protagonista, o processo coletivo que definiu sua nova identidade artística e a busca por um som capaz de equilibrar peso, delicadeza e diferentes influências da música brasileira.

“Tereze” nasce da liberdade de ser quem se é, mesmo diante dos julgamentos. Em que momento vocês perceberam que essa personagem poderia carregar uma mensagem tão forte sobre autonomia e identidade?

Desde a concepção dos primeiros acordes e das primeiras linhas. Nenhuma música solo do Eric Bê ia para um caminho de posicionamento tão forte, então, quando decidimos fazer um trabalho conjunto como Eric Bê e o Avesso do Avesso, a ideia era cantar sobre o que acreditamos, correndo o risco de desagradar muita gente.

A protagonista da canção vive uma rotina comum, trabalha, pega transporte público, enfrenta assédio e ainda encontra espaço para aproveitar a praia antes do expediente. Por que era importante construir Tereze a partir de gestos tão cotidianos?

A ideia não era apresentar uma heroína do tipo que só existe na ficção. Talvez nenhuma mulher seja 100% Tereze, mas provavelmente muitas se encontrarão em alguma característica da personagem. E os homens, ao cantar Tereze, imaginamos que vão vislumbrar outras mulheres que admiram.

A música mostra uma mulher julgada por sua aparência, tatuagens, opiniões, forma de viver e questões ligadas a gênero e sexualidade. O que Tereze revela sobre o incômodo que a liberdade feminina ainda provoca?

Talvez Tereze nos ajude a perceber que as sociedades evoluem para um cenário mais libertário e progressista, e em seguida voltam a buscar a tradição e a refutar gestos, práticas, etc, quando esquecem que a repressão causa dor. O caminho do conservadorismo parece cíclico.

Vocês definem o som da banda como “rock com fúria e delicadeza”. Como esse contraste aparece em “Tereze”, especialmente no encontro entre guitarras mais pesadas e as camadas de violino?

Nossa banda é bastante diversa… Mesmo sendo um número pequeno de pessoas, temos homens, mulheres, brancos e negros, temos músicos autodidatas, músicos com formação clássica e o Eric, que se esforça pra alcançar os demais. Nos ensaios, o Eric traz as referências de rock, diz “escutem isso pra inspirar os arranjos dessa música”, e as canções vão sendo construídas a partir de referências furiosas, porém nas mãos de músicos que poderiam transformar punk em jazz sem ofender o punk ou o jazzista.

Este é o primeiro lançamento concebido, arranjado e gravado pela formação atual da banda. O que mudou quando Eric Bê e o Avesso do Avesso deixou de ser uma extensão da carreira solo e passou a se afirmar como um projeto coletivo?

Esse foi um movimento natural, porque essa mesma banda já acompanhava o Eric nos shows solo, embora não tivessem participado das gravações.

Agora, ao produzir um álbum com novas músicas, a construção dos arranjos foi coletiva, o que implicou modificar o estilo de algumas faixas e até o descarte de outras. Em um projeto solo, as coisas acabam sendo feitas com muita contribuição técnica de quem toca, mas sem essa liberdade de vetar ou de transformar a composição.

A composição surgiu de forma espontânea, a partir do riff de guitarra que abre a música. Como foi acompanhar a personagem, a melodia e a letra nascerem quase ao mesmo tempo durante o processo criativo?

Existem diversas formas de criar, e o processo de composição do Eric normalmente vai criando harmonia e melodia simultaneamente, com a primeira versão da letra surgindo ao mesmo tempo. Acho que a mágica de verdade acontece no estúdio… no caso de Tereze, por exemplo, alguns da banda acharam que a música ia ficar muito pesada, aí tocamos, gravamos, escutamos e… ficou pesada mesmo, mas adoramos.

“Tereze” faz parte de um conceito mais amplo em que diferentes personagens transitam pelo universo simbólico da água. O que imagens como mar, rio e chuva ajudam vocês a dizer sobre transformação, emoção e liberdade?

A música que deu ideia para a composição de um álbum chama Ilha Feia, que é uma ilha no litoral de Santa Catarina. A canção foi composta na virada de 2025 para 2026, quando a lua pousava sobre a ilha e sobre o mar. Dessa imagem e da virada do ano, veio a vontade de compor um álbum à moda antiga, que fosse prazeroso ouvir por inteiro, que tivesse uma conexão entre as músicas, e que refletisse nossos pensamentos de vida. Como conectar uma canção a outra sem escrever músicas muito parecidas? Além do ritmo e da vibe das canções, que vão crescendo e depois retraindo, entendemos que seria simbólico ter a água como elemento que adaptasse e conectasse cada fragmento do álbum. Em algumas canções, como Ilha Feia, a água aparece literal e explícita. Em outras, ela surge de passagem, e também implícita como o elemento da adaptabilidade.

A animação desenvolvida pelo estúdio Molho Crocante transforma Tereze em uma personagem ilustrada e expande a arte da capa. Como foi ver essa mulher, que nasceu em forma de música, ganhar corpo visual dentro do universo da banda?

Muito legal! Acho que a capa produzida pela equipe da Marã Música veio um pouco antes, a partir da própria música e de um retrato falado de Tereze. Depois, o vídeo deu vida à figura, e nós amamos.

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