Em Too Hexed to Handle, Charlotte Ingham parte de alguns dos tropos mais conhecidos da romantasy — friends-to-lovers, forced proximity, grumpy-sunshine e, claro, “só há uma cama” — para construir uma história que aos poucos se transforma em uma reflexão sobre identidade e autoaceitação. No centro do livro está Daisy, uma Souleater capaz de se alimentar das emoções de outras pessoas e cujo beijo pode matar, levando-a a acreditar durante muito tempo que existe algo dentro dela que precisa ser reprimido ou “consertado”.
Em entrevista, Ingham fala sobre transformar emoções em magia, construir o romance entre Daisy e Astin enquanto ele caça criaturas como ela, brincar com expectativas de leitores que já conhecem os códigos da romantasy e equilibrar perigo com humor. Por trás das maldições e da tensão romântica, porém, permanece uma ideia mais íntima: às vezes, aquilo que enxergamos como um defeito pode ser apenas uma parte de nós que ainda não aprendemos a compreender.
Daisy ganha a vida aproximando outras pessoas romanticamente enquanto mantém o próprio coração fora de alcance, porque seu beijo pode matar. O que atraiu você nessa contradição de alguém que ajuda a criar histórias de amor enquanto acredita que não pode viver uma?
Minha inspiração original para este livro veio do tropo de “só há uma cama”. Sempre vemos o casal azarado recebendo a notícia de que terá que dividir a cama, mas nunca vemos isso pela perspectiva da pessoa que administra a hospedaria.
E se ela estivesse colocando as pessoas nessa situação de propósito?
Então decidi que não seria suficiente Daisy se intrometer apenas por diversão e acrescentei o beijo mortal dela à história.
Isso realmente me permitiu destacar o lado solar da personalidade dela porque, em vez de ficar amarga ou com inveja por não poder ter aquilo que deseja, ela genuinamente ama levar alegria aos outros apesar das próprias circunstâncias.
Too Hexed to Handle abraça tropos muito queridos da romantasy, incluindo friends-to-lovers, forced proximity, grumpy-sunshine e até “só há uma cama” — ou, neste caso, apenas um travesseiro. Como você utiliza tropos familiares sem permitir que os leitores prevejam toda a jornada emocional?
Acho que amamos tropos justamente pela expectativa de descobrir exatamente como eles vão se desenrolar.
Sabemos que os personagens vão dividir uma cama, mas será que vão discutir sobre quem dorme no chão? Será que vão passar uma noite inteira de tensão insuportável se recusando a encostar um no outro? Ou será que finalmente vão confessar o que sentem?
Daisy e Astin são obrigados a dividir várias camas — com diferentes quantidades de travesseiros — ao longo da jornada, o que me permitiu desenvolver a relação entre eles a cada ocasião.
Isso, por sua vez, faz com que a expectativa do leitor também aumente.
Eles conhecem o tropo bem o suficiente para saber que alguma coisa inevitavelmente vai acontecer em algum momento. A questão é apenas quando.
Astin caça Souleaters sem saber que Daisy é uma delas. Como você construiu um romance entre dois personagens quando a verdade sobre a identidade de uma das pessoas poderia transformar instantaneamente atração em perigo?
O fato de Daisy e Astin serem bons amigos é importante porque já existe um vínculo forte e uma sensação de confiança entre eles.
Daisy descobre logo no início do livro que Astin está caçando Souleaters, mas ele ocupa um espaço tão grande na vida dela que ela simplesmente não consegue afastá-lo, apesar do perigo que ele pode representar.
A negação dela — e a feliz ignorância de Astin — em relação às circunstâncias permite que a atração entre eles floresça enquanto embarcam nessa jornada.
A questão é apenas saber se ela terá florescido o suficiente para salvá-la caso Astin descubra a verdade…
Daisy é uma Souleater capaz de se alimentar das emoções de outras pessoas. O que fez das emoções a fonte certa de magia para esse universo e como essa habilidade se conecta aos temas de intimidade, desejo e vulnerabilidade do livro?
Daisy e Astin são praticamente opostos quando se trata de emoções.
A magia de Daisy obviamente faz com que ela esteja sintonizada tanto com os próprios sentimentos quanto com os das outras pessoas.
Astin, por outro lado, reprime tanto as próprias emoções que acredita não ser capaz de sentir muita coisa.
Daisy é a única pessoa capaz de perceber que existe algo por baixo daquela fachada rabugenta, o que acrescenta uma camada de abertura ao romance dos dois.
Astin não consegue esconder dela seus desejos mais profundos da mesma maneira que conseguiria escondê-los de qualquer outra pessoa.

O romance combina humor, fantasia, perigo e sensualidade. Como você equilibra os momentos românticos mais leves com a realidade mais sombria de uma protagonista que vive sob uma maldição potencialmente mortal?
A capacidade de Daisy de enxergar o lado positivo de tudo contrabalança aquilo que está acontecendo no mundo ao redor dela, então esse equilíbrio vem da própria narração.
Não importa o quanto as circunstâncias fiquem sombrias ou o quanto o romance dos dois pareça sem esperança, ela está sempre pensando em alguma coisa quase absurda que traz um pouco de leveza para a situação.
A romantasy cresceu enormemente, e os leitores frequentemente chegam a novos livros já reconhecendo — e procurando ativamente — determinados tropos. Você enxerga essa familiaridade como uma liberdade criativa, um desafio ou um pouco dos dois?
Um pouco dos dois!
Você quer entregar aos leitores tudo aquilo que eles amam em determinado tropo, mas ainda assim encontrar novas maneiras de mantê-lo interessante e renovado.
Por exemplo, eles esperam que Astin e Daisy dividam uma cama, mas não esperam que ele acabe consolando Daisy porque ela está com medo dos patos do lado de fora da janela.
Sem revelar o final, a escolha de Daisy entre a cura, a verdade e o amor coloca a ideia de ser “consertada” no centro da história. O que você espera que os leitores questionem sobre a diferença entre mudar quem somos e aprender a aceitar partes de nós mesmos?
Daisy passou muito tempo reprimindo seu lado Souleater, mas, ao longo do livro, fica cada vez mais evidente que isso só faz mal a ela.
É apenas quando abraçamos todas as partes de nós mesmos que realmente conseguimos nos tornar mais fortes — e talvez aprender que aquilo que enxergávamos como defeitos nunca tenha sido, de fato, defeito algum.
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