Em Unabomber, novo lançamento da Netflix, David Webster interpreta Roy, personagem fictício criado como um dos colegas de Ted Kaczynski em Harvard. Para construir alguém inserido em uma história inspirada em acontecimentos reais, o ator encontrou seu ponto de partida justamente no contraste: enquanto Ted aparece isolado das estruturas sociais ao seu redor, Roy se conecta com facilidade e se aproxima dele como um amigo. “Decidi que, em muitos aspectos, ele seria o oposto de Ted”, explica.
Em entrevista a Luca Moreira, Webster fala sobre encontrar a função de um personagem fictício dentro de uma narrativa histórica, trabalhar com Jacob Tremblay e enxergar Ted pela perspectiva de alguém que ainda não poderia saber quem ele se tornaria. O ator também comenta uma carreira iniciada aos 12 anos, sua maneira de lidar com rejeições e como o trabalho como roteirista passou a influenciar a forma como lê e constrói personagens diante das câmeras.
Em Unabomber, você interpreta Roy, um personagem fictício criado como um dos colegas de turma de Ted Kaczynski em Harvard, dentro de uma história inspirada em acontecimentos reais. Como foi encontrar o equilíbrio entre a liberdade de construir um personagem do zero e a responsabilidade de inseri-lo de forma convincente em um contexto histórico tão conhecido e delicado?
Eu enxerguei Roy como uma engrenagem dentro de uma máquina muito maior. O objetivo era descobrir o que ele comunica sobre a história ou sobre Ted, e decidi que, em muitos aspectos, ele seria o oposto de Ted.
Roy se conecta com outras pessoas com muita facilidade e trata Ted como um amigo. Ted enxerga Roy como alguém com quem gostaria de se parecer dentro das estruturas sociais de Harvard, e isso apenas evidencia o quanto ele é diferente das pessoas ao seu redor.
No fim das contas, um filme existe para contar uma história, mesmo quando é inspirado em acontecimentos históricos. Então Roy precisa se encaixar na estrutura e cumprir uma função dentro da narrativa.
O filme reúne atores como Russell Crowe, Jacob Tremblay e Shailene Woodley. O que mais chamou sua atenção ao trabalhar em uma produção com artistas tão experientes? Houve alguma lição específica que você levou consigo depois das filmagens?
Acho que o que mais me chamou atenção, especialmente trabalhando com Jacob, foi o quanto ele era centrado e acessível. Ele é realmente um cara muito legal, e acho que ainda vai fazer coisas incríveis na carreira.
Quanto a uma lição, foi mais uma reafirmação de que, quando você trabalha com grandes estrelas, no fim das contas elas continuam sendo apenas pessoas, e somos todos colegas de trabalho batendo o ponto.
Como Roy conheceu Ted antes de ele se tornar a figura que mais tarde seria reconhecida pela História, seu personagem ocupa uma perspectiva muito particular. Como você imaginou a relação entre os dois sem permitir que tudo o que hoje sabemos sobre Kaczynski definisse completamente sua interpretação?
Acho que foi bastante fácil trazer minhas próprias experiências pessoais para essa situação. Até aquele momento, pelo que Roy sabe, Ted é basicamente apenas um garoto estranho, distante e pouco sociável. Na minha própria experiência, conheci e fiz amizade com muitas pessoas que poderiam ser descritas dessa maneira.
Sempre digo: “São necessárias duas pessoas para uma situação ficar constrangedora”, e essa forma de pensar me permitiu me conectar com todos os tipos de pessoas. Na minha opinião, Roy é parecido, e é por isso que ele se esforça tanto para criar uma conexão com Ted.

Você conseguiu seu primeiro papel aos doze anos em um projeto com Janelle Monáe e passou grande parte da adolescência trabalhando como ator. Como crescer dentro da indústria moldou sua relação com atuação, rejeição e sucesso?
Acho que crescer dentro da indústria me ajudou MUITO a lidar com rejeição. Quando entrei nesse meio, aos 12 anos, eu já estava mentalmente preparado para enfrentar inúmeras rejeições, então nunca doeu muito não conseguir um papel.
Hoje, diante de uma rejeição, simplesmente sigo a mesma regra que tenho para a atuação: cabeça erguida e seguir em frente. Você aprende muito rapidamente que não existe nada de pessoal nisso. Enxergo as audições como meu trabalho principal. Meu “trabalho” é entregar bons testes em vídeo todas as vezes. Qualquer outra coisa é apenas um bônus.
Acho que isso também se estende à forma como lido com o sucesso. Quando as coisas dão certo para mim, sinto que é simplesmente um bônus por ter feito o trabalho, em vez de uma recompensa garantida.
Sua carreira já passou por universos muito diferentes, de The Way Home e Ginny & Georgia a The Boys, Luckiest Girl Alive e Julian and the Wind. Que tipo de projeto ou personagem costuma desafiar você de uma maneira que faça sentir que está realmente crescendo como ator?
Acho que todo papel é um desafio à sua própria maneira. Neste ponto da minha carreira, não acredito que tenha feito alguma coisa que fosse singularmente desafiadora no sentido de nunca ter feito nada semelhante antes.
Mas acho que, se interpretasse um personagem com uma presença realmente muito grande, poderia ser um desafio descobrir até que ponto grande é grande demais. Você não quer exagerar completamente, mas atuar sempre envolve ampliar um pouco as coisas.
Você escreve desde os quinze anos e espera construir também uma carreira atrás das câmeras. O que criar seus próprios personagens e histórias ensinou a você sobre atuação? Existe algum projeto que sonha dirigir ou produzir no futuro?
Escrever tem sido extremamente útil porque me ajudou a entender como é construir o arco de um personagem a partir da perspectiva do roteirista. No fim das contas, acho que meu trabalho como ator é encontrar qual é esse arco e ajudar a construí-lo.
Personagens bem escritos funcionam de maneira semelhante, e o roteirista precisa projetar essa mesma jornada. Escrever me ajudou a enxergar o processo pelo outro lado e imaginar o que o roteirista desejava e estava pensando enquanto criava o roteiro.
E, inversamente, acho que atuar também fez de mim um roteirista melhor porque, quando leio roteiros, consigo perceber o que funciona e o que não funciona do ponto de vista de um ator e tento escrever de uma forma que ajude o intérprete o máximo possível.
Além do cinema, você aprendeu sozinho a tocar piano, guitarra e baixo e agora está trabalhando em seu primeiro álbum. Como música, roteiro e atuação alimentam umas às outras criativamente? E consegue imaginar um projeto futuro no qual esses diferentes lados da sua identidade artística se encontrem?
Acho que, algum dia, elas podem acabar se encontrando. Eu nunca diria nunca. Neste momento, estou tentando melhorar e aprender em todas essas áreas separadamente, dando a cada uma delas a própria atenção e o próprio respeito.
Sobre como elas se alimentam criativamente, acho que é como exercitar um músculo semelhante todas as vezes. Embora exista um conjunto específico de habilidades necessário para criar em cada uma dessas áreas, no fundo tudo continua sendo um exercício de permanecer fiel àquilo que quero criar e, ao mesmo tempo, ter humildade suficiente para reconhecer se aquilo que estou fazendo está funcionando ou não.
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