O documentário Married to El Chapo: Emma Coronel Speaks, da Sony Pictures Television e da Oxygen, disponível no Peacock, oferece o retrato mais aprofundado já feito sobre a vida de Emma Coronel, esposa de Joaquín “El Chapo” Guzmán. Por trás desse acesso inédito está Cameron Penn, produtor executivo e cineasta bilíngue que transformou uma curiosidade universitária em uma das investigações mais singulares do true crime contemporâneo.
Ainda no último ano da NYU, Penn acompanhou o julgamento de El Chapo em Brooklyn e se intrigou com a presença silenciosa de Emma Coronel na galeria da defesa. A curiosidade virou iniciativa: ele a abordou, conquistou sua confiança e, anos depois, garantiu os direitos exclusivos de sua história. O projeto o levou a uma imersão profunda em Sinaloa, onde viveu por um período, conduziu entrevistas extensas com Emma e sua família, dialogou com especialistas em narcocultura e até com membros do cartel.
Penn e sua equipe também estavam em Culiacán durante o Culiacanazo de 2019, registrando de perto o momento em que o cartel tomou as ruas para forçar a libertação do filho de El Chapo. O resultado é um documentário que vai além do sensacionalismo, revelando não apenas uma figura central de um dos maiores impérios do narcotráfico, mas também a trajetória improvável de um jovem cineasta que apostou no único ângulo que ninguém mais tinha acesso.
Você se conectou com a história de Emma Coronel ainda quando era estudante universitário. O que te deu coragem — e talvez intuição — para se aproximar dela quando ninguém mais o fazia?
Em 2019, eu estava finalizando meu último semestre na NYU. Enquanto me preparava para me formar, o julgamento de El Chapo estava acontecendo no Brooklyn, praticamente no meu quintal. Eu sempre fui fascinado pela história de El Chapo e sabia que não poderia perder o chamado “julgamento do século”. Então matei aula e fui para a frente do tribunal com meus amigos Noah Evans e Spencer Judd (que também ajudaram a produzir o filme).
Chegamos muito cedo pela manhã e, em meio a dezenas de jornalistas e civis, fomos o último grupo autorizado a entrar no tribunal no segundo dia do julgamento. Depois de assistir aos depoimentos das testemunhas, ficamos completamente envolvidos e passamos a acompanhar o julgamento sempre que podíamos. Cada dia era diferente, com temas que iam de propinas presidenciais a remessas de toneladas de drogas enviadas por submarino.
Na verdade, a única presença constante durante o julgamento era uma mulher vestida de preto, sentada sozinha na segunda fileira. Era Emma Coronel, esposa de El Chapo. Enquanto a observava, minha mente começou a disparar. Quem era aquela figura misteriosa? A mulher que viveu tudo aquilo? Como ela conseguia permanecer ao lado de um homem que os promotores comparavam ao anticristo do México? Qual era a história dela?
À medida que o julgamento avançava, essas perguntas não saíam da minha cabeça. Eu sabia que havia uma história ali. Até que, um dia, eu, Noah e Spencer criamos coragem para nos aproximar de Emma e de seu advogado — e foi assim que começamos a conversar sobre a possibilidade de ela permitir que contássemos sua história.
Conquistar a confiança de Emma Coronel e de sua família certamente não foi simples. Como essa relação se desenvolveu ao longo dos anos, e quando você percebeu que ela realmente permitiria um retrato tão íntimo da própria vida?
A confiança que construí com a Emma surgiu relativamente rápido. Veio da curiosidade genuína que eu tinha pela vida dela. Uma das primeiras perguntas que ela me fez foi: “Por que eu?”. Ela estava acostumada a ver todos focarem apenas na vida do marido, e não na dela. E, sinceramente, acho que ela se sentiu lisonjeada por eu demonstrar tanto interesse na sua história pessoal.
Mas houve muitos desafios ao longo do caminho, especialmente quando a Emma passou a ser investigada pelo FBI por seu papel na fuga de El Chapo. É importante lembrar que, originalmente, desenvolvi esse projeto como uma série de ficção. Passei muito tempo entrevistando a Emma fora das câmeras, antes mesmo de o documentário receber sinal verde.
Durante a investigação, eu sabia que ela jamais falaria de forma aberta diante das câmeras. Mas depois que foi presa e cumpriu sua pena, mantivemos contato, e aos poucos ela se mostrou aberta à ideia de fazer um documentário.

Você viveu em Sinaloa, entrevistou especialistas em narcocultura e até conversou com membros de cartéis. Qual foi o momento mais desafiador — ou transformador — dessa imersão tão profunda?
Visitar a cidade natal da Emma, Canelas, em Durango, foi de longe a experiência mais impactante. Pouco depois do julgamento de El Chapo, eu e Noah participamos do tradicional concurso de beleza do Café e da Goiaba, um evento que ainda acontece até hoje na cidade.
Esse evento é extremamente significativo na vida da Emma, pois foi ali que ela foi cortejada por El Chapo quando tinha apenas 17 anos. Enquanto estive lá, conheci muitas pessoas que conviveram com ela durante a infância e adolescência, e passei a entender muito melhor quem ela era naquela fase e como pôde ser seduzida tão facilmente por El Chapo.
No chamado “Triângulo Dourado” — região entre Sinaloa, Chihuahua e Durango, conhecida pelo cultivo de ópio — namorar um traficante é como encontrar um príncipe. Lembro-me de ir a bailes em Canelas e ver mães retocando a maquiagem das filhas antes de mandá-las para a pista para dançar com soldados do Cartel de Sinaloa. Em alguns casos, os narcos dançavam com fuzis AK-47 pendurados nas costas.
É uma imagem que nunca vou esquecer. Foi chocante ver pais permitindo — e às vezes incentivando — que suas filhas flertassem com membros do cartel. Mas o tráfico é extremamente normalizado nessas regiões, e quando a única alternativa é uma vida de extrema pobreza como agricultor, começa-se a entender por que a narcocultura é tão enraizada no lugar onde Emma cresceu.
Ainda assim, é importante dizer que nem todos em Canelas estão envolvidos com o tráfico, e muitas das pessoas que vivem ali são incrivelmente gentis, acolhedoras e humildes.
O documentário traz imagens e relatos do Culiacanazo de 2019, que você presenciou pessoalmente. Como foi viver aquele dia em Culiacán e de que forma isso mudou sua compreensão sobre o poder do cartel na região?
Para compreender melhor a história da Emma, eu e Noah nos mudamos para Culiacán para estudar narcocultura na Universidade Autônoma de Sinaloa. Durante quase todo o tempo em que estivemos lá, a cidade foi relativamente tranquila — exceto por um dia: o Culiacanazo.
Eu havia acabado de voltar do shopping El Forum, onde estava comprando um HD, quando, cinco minutos depois, meu celular começou a explodir com vídeos e imagens de tiroteios na rua, bem em frente ao shopping. Havia rumores de que vários filhos de El Chapo tinham sido capturados ou mortos.
O que realmente aconteceu foi que a Guarda Nacional do México prendeu Ovidio Guzmán, um dos filhos de El Chapo. Em menos de 20 minutos, o filho mais velho, Iván Archivaldo, enviou centenas de sicários para bloquear completamente a cidade e impedir que as autoridades levassem Ovidio para fora de Culiacán. Quando o Exército tentou retirá-lo de helicóptero, os soldados de Iván derrubaram a aeronave com um lança-foguetes.
O cartel fez vários soldados mexicanos reféns e cercou um conjunto habitacional onde viviam as famílias desses militares. O presidente do México foi obrigado a ordenar a libertação de Ovidio. Até hoje é surreal pensar que eu estava em Culiacán naquele dia. Lembro de tentar consolar uma vizinha cujo marido estava escondido no banheiro de um restaurante próximo ao início do tiroteio. Felizmente, ele sobreviveu.
Depois que Ovidio foi libertado e os disparos cessaram, saí naquela mesma noite com minha câmera para fotografar as consequências. A cidade estava silenciosa, quase pós-apocalíptica — carros queimando, corpos nas ruas, mas nenhum som. Era possível ouvir um alfinete cair.
Também lembro que a imprensa inicialmente subnoticiou o número de mortos, falando em três vítimas, quando eu havia visto pessoalmente cinco corpos em uma única área da cidade. O mais assustador foi testemunhar o nível de sofisticação do Cartel de Sinaloa e ver como eles conseguiram paralisar uma cidade inteira em questão de minutos. Foi devastador perceber como uma organização criminosa pode aterrorizar tantos inocentes em tão pouco tempo.

Married to El Chapo: Emma Coronel Speaks oferece uma perspectiva inédita sobre uma figura até então enigmática. Qual foi sua maior responsabilidade ética ao contar essa história?
Do ponto de vista ético, é uma questão complexa, porque o filme acaba dando voz à esposa de um dos traficantes mais poderosos da história. Eu testemunhei de perto a morte e a destruição causadas pelo Cartel de Sinaloa.
Ainda assim, senti que era importante permitir que a Emma contasse sua história — sem, em nenhum momento, endossar suas ações. Por isso foi essencial incluir também as perspectivas de jornalistas como Jesús Esquivel e Emily Palmer, além do ex-agente da DEA Carl Pike.
Há vários momentos no filme em que Emma tenta conduzir o público ao erro, mas os jornalistas estão ali para corrigir os fatos. Na minha visão, isso torna o documentário mais interessante, pois permite que o espectador tire suas próprias conclusões sobre a autenticidade dela.
Ela luta para ser completamente transparente e, de muitas formas, ainda sustenta a imagem de “esposa de cartel”. Mas, no fim, este filme é um estudo de personagem — não uma validação — e manter isso claro foi fundamental durante todo o processo.
Você já trabalhou com grandes estúdios, vendeu uma série e participou de produções importantes. O que esse projeto te ensinou sobre narrativa, risco e autenticidade como cineasta?
A maior lição que tirei desse projeto foi entender a importância e o valor de uma pesquisa profunda. Ler artigos e livros não é suficiente — sempre que possível, o cineasta precisa “viver” a história que pretende contar.
Visitar a cidade natal da Emma, morar em Culiacán e, claro, entrevistá-la me proporcionaram uma riqueza de experiências que serviram como base para contar sua história. E essas vivências não ajudam apenas em um projeto específico, mas contribuem para o crescimento pessoal e artístico ao longo de muitos anos.
Depois de conduzir uma investigação tão extensa e produzir um documentário dessa magnitude, que tipo de história você sente vontade de contar a seguir?
Existem várias histórias pelas quais sou extremamente apaixonado — e uma delas pode muito bem ser mais uma história criminal protagonizada por uma mulher…
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