Depois de anos construindo personagens em séries como Gilmore Girls, The O.C., Gossip Girl e Gotham, John Stephens levou para a literatura uma pergunta que continua orientando sua maneira de contar histórias: não apenas o que um personagem deseja, mas aquilo de que ele precisa sem ainda perceber. Em The Age of Fury, essa lógica conduz Caitlin Quinn, uma jovem imigrante em busca da verdade sobre a irmã, e William Furey, um gângster cuja violência convive com a possibilidade de transformação e amor.
Ambientado na Nova York de 1907, o romance também permitiu que Stephens encontrasse ecos entre passado e presente. Ao pesquisar um período marcado por rápidas mudanças tecnológicas, debates sobre imigração e grandes desigualdades econômicas, o escritor passou a enxergá-lo como “um espelho do nosso próprio momento”. Em entrevista, ele fala sobre trocar as limitações de tempo da televisão pela liberdade do romance, construir uma protagonista que se recusa a reconhecer o poder que o mundo tenta exercer sobre ela e explorar uma pergunta para a qual admite ainda não ter uma resposta simples: onde termina a justiça e começa a vingança?
Você passou grande parte da carreira trabalhando em televisão, em séries como Gilmore Girls, The O.C., Gossip Girl e Gotham. Ao escrever The Age of Fury, quais instintos desenvolvidos na televisão você levou para o romance e quais precisou deixar para trás para abraçar a liberdade da ficção?
A primeira coisa que levei comigo foi a maneira como abordo os personagens. Sempre me pergunto o que um personagem quer, aquilo que ele está buscando.
Em Gilmore Girls, poderia ser Rory tentando entrar em Yale. Em Gotham, Jim Gordon tentando encontrar o assassino dos Wayne. Em The Age of Fury, era Caitlin tentando encontrar o assassino de sua irmã.
Saber o que um personagem quer dá forma à narrativa. Mas, junto disso, sempre me pergunto: “Se é isso que o personagem quer, do que ele precisa sem perceber?”
No caso de Caitlin, era aceitar que ela precisava de amor e que merecia ser amada. Em relação ao que precisei deixar para trás, a coisa mais simples foi a regra rígida de escrever para uma duração específica.
Em praticamente tudo o que escrevi, estávamos limitados a determinado tempo de duração. Com a liberdade de um romance, desde que eu não estivesse entediando o leitor, sentia que podia explorar um momento, uma cena ou algum aspecto de um personagem que teria sido deixado de lado na televisão.
The Age of Fury se passa em Nova York em 1907, uma cidade marcada por oportunidades, imigração, desigualdade e corrupção. O que fez daquele momento histórico o cenário ideal para a história de Caitlin e William?
É um período que sempre achei particularmente atraente porque ainda preserva alguns dos ritmos mais lentos e dos costumes da era vitoriana, ao mesmo tempo em que a modernidade já está respirando em seu pescoço. Mas, na verdade, quanto mais pesquisei sobre aquela época, mais ela começou a parecer um espelho do nosso próprio momento.
A sociedade e o mundo de 1907 estavam sendo rapidamente transformados por novas tecnologias — telefone, telégrafo, navios a vapor, avião — de uma maneira que parece muito semelhante ao que estamos vivendo. Nova York, em 1907, também tentava descobrir como lidar com as ondas de imigração e com uma reação interna contrária à imigração, algo que também parece muito familiar à nossa situação atual.
E enormes fortunas estavam sendo criadas — Rockefeller, Vanderbilt, Carnegie — fazendo com que a distância entre ricos e pobres fosse maior do que nunca. Novamente, tudo muito familiar.
Então, colocar a história de William e Caitlin no meio de tudo isso, fazê-los estar “um pouco” conscientes de que o mundo estava mudando e de que existiam injustiças, mas ainda assim tentando encontrar significado e amor em suas próprias vidas, como tantos de nós fazemos, pareceu muito, muito familiar.
Caitlin chega a Nova York procurando a irmã desaparecida e acaba sendo arrastada para um mundo de violência e poder sobre o qual inicialmente sabe muito pouco. Como você trabalhou a autonomia dela sem tratar sua vulnerabilidade como uma jovem imigrante como fraqueza?
A própria condição de Caitlin — ser uma jovem mulher e uma imigrante na Nova York de 1907, uma cidade onde ela não conhecia ninguém — automaticamente a colocava em uma situação vulnerável. Mas a beleza de Caitlin como personagem — falando como a pessoa que a escreveu — era que ela nunca reconhecia essa vulnerabilidade.
Ter perdido o pai quando era jovem fez com que ela estivesse acostumada não apenas a assumir responsabilidades, mas também a lutar pelos próprios direitos e por aquilo que acreditava lhe ser devido. Acredito que grande parte do poder que o mundo exerce sobre nós vem do fato de reconhecermos esse poder que ele possui sobre nós. E decidi que Caitlin nunca, jamais, faria isso.
William Furey é apresentado como um gângster notório assombrado por uma raiva que ele próprio não consegue compreender completamente. O que interessou você na construção de um protagonista romântico que também carrega violência, perigo e a possibilidade de redenção?
Isso talvez revele o romântico que existe em mim. Na minha própria vida, percebi que determinados relacionamentos mudaram quem sou como pessoa. Isso certamente vale para amizades. Algumas amizades fizeram com que eu me tornasse uma pessoa melhor, mais curiosa e mais empática. Mas, ainda mais do que isso, acredito que o relacionamento romântico “certo” é aquele que desperta a melhor versão de nós mesmos.
E talvez até nos faça querer mudar, para sermos dignos daquele relacionamento e daquela pessoa. Nesse sentido, o relacionamento certo pode ser transformador. Foi assim para mim e foi assim para William. Não que eu algum dia tenha sido um gângster. 🙂

O romance utiliza pontos de vista alternados entre personagens que entram no mesmo mistério carregando experiências, lealdades e motivações muito diferentes. O que essa estrutura permitiu revelar sobre Caitlin e William que uma única perspectiva não permitiria?
Inicialmente, comecei o livro apenas pelo ponto de vista de Caitlin e, depois de umas setenta ou oitenta páginas, percebi que simplesmente não estava funcionando. Em parte, era porque eu estava contando uma história de amor e queria entrar na mente e no coração de William para conseguir contá-la adequadamente. Para que houvesse equilíbrio.
Mas também porque Caitlin havia chegado a um mundo muito complexo — a Nova York de 1907 — com diversas forças se movimentando ao redor dela. Dar a William seus próprios capítulos significava que eu poderia permitir que ele oferecesse ao leitor uma visão mais clara daquele cenário do que Caitlin seria capaz de oferecer.
Justiça e vingança ocupam um espaço central no romance. Em um mundo no qual instituições e pessoas poderosas podem ser corruptas, como você explorou a linha entre uma busca legítima pela verdade e o desejo de fazer justiça com as próprias mãos?
Foi certamente algo sobre o qual pensei muito, e ainda hoje não tenho uma posição totalmente definida a respeito. O mundo habitado por Caitlin e William é governado por diversas camadas de instituições corruptas, todas elas curvadas ao poder do dinheiro. Eu sabia, tanto pela satisfação do leitor quanto pela minha própria, que os vilões do romance precisavam pagar pelo que haviam feito.
Mas simplesmente fazer William e Caitlin aplicarem justiça de maneira fria e calculada — ou até mesmo no calor do momento — não parecia certo. Tentei encontrar esse delicado equilíbrio.
Depois de anos criando personagens para a televisão que precisam conquistar o envolvimento do público episódio após episódio, o que ainda mostra a você que uma história — seja na tela ou nas páginas — conseguiu criar uma conexão emocional genuína com quem a acompanha?
Não existe uma fórmula precisa ou uma régua que eu possa usar para determinar isso. Preciso sentir enquanto estou escrevendo. Preciso sentir aquele gancho, aquele momento em que estou realmente envolvido com a situação em que o personagem se encontra.
Depois, muitas vezes consigo voltar ao texto, olhar para aquilo e pensar: “Ah, sim. Foi por isso que me envolvi: porque esse personagem estava sentindo determinada emoção com a qual eu me identifico.”
Mas, no momento da escrita, eu simplesmente preciso sentir que estou sendo puxado para dentro da história.
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