Deyse O. S. revisita o legado de Drácula em suspense repleto de segredos, mistérios e enigmas históricos

Luca Moreira
11 Min Read

O que restou da lenda de Drácula um século após sua suposta morte? Em Cem Anos Depois, a escritora Deyse O. S. conduz os leitores por uma investigação cercada de mistério, documentos antigos e revelações inquietantes que expandem o universo criado por Bram Stoker. Ambientado entre a Romênia e a sombria Vila das Brumas, o romance acompanha uma expedição de pesquisadores encarregados de desvendar os vestígios deixados pelo vampiro mais famoso da literatura. Em entrevista, a autora fala sobre o processo de pesquisa por trás da obra, os desafios de dialogar com um dos maiores clássicos da literatura gótica e a construção de uma narrativa que explora a permanência do passado e o fascínio humano pelos mistérios que atravessam gerações.

 “Cem anos depois” parte de uma missão aparentemente improvável: pesquisadores noruegueses enviados à Transilvânia para investigar Drácula. Em que momento você percebeu que esse ceticismo inicial dos personagens poderia ser a porta ideal para mergulhar no mistério?

Percebi isso logo no início da construção da história. Eu não queria personagens que já acreditassem em lendas ou que partissem em busca do sobrenatural. Achei mais interessante acompanhar pesquisadores acostumados a trabalhar com fatos, documentos e evidências, ao se depararem com algo que não conseguiam explicar de imediato.

A descrença inicial dos personagens também aproxima o leitor da narrativa. Afinal, diante de uma missão para investigar Drácula, a reação mais natural seria a dúvida. Mas, à medida que descobrem manuscritos, objetos antigos e acontecimentos cada vez mais estranhos, eles são obrigados a questionar suas próprias certezas.

Para mim, o mistério se torna mais envolvente quando surge justamente no encontro entre a razão e o desconhecido. Foi esse conflito que serviu como porta de entrada para todo o universo de “Cem Anos Depois.

A obra expande o universo de Bram Stoker, mas se aproxima mais do suspense e do mistério do que do gótico clássico. Como foi dialogar com uma figura tão icônica sem apenas repetir o imaginário já conhecido sobre Drácula?

Drácula é uma figura que faz parte do imaginário de muitas gerações e, ao escrever “Cem Anos Depois”, minha intenção não foi recontar a história criada por Bram Stoker nem alterar as características que tornaram o personagem tão marcante. De certa forma, procurei pedir licença à obra original para seguir por um caminho diferente.

O que me interessava era imaginar o que aconteceria cem anos depois daqueles eventos. E se alguém tentasse descobrir se Drácula realmente existiu? E se ainda restassem documentos, relatos e vestígios capazes de levantar novas dúvidas?

A partir dessa ideia, o foco da narrativa passou a ser a investigação. Meus personagens não partem em busca do vampiro em si, mas da verdade por trás da lenda. Isso me permitiu dialogar com uma figura tão icônica sem repetir o imaginário já conhecido, construindo uma história baseada em mistério, descobertas e segredos do passado.

A Vila das Brumas tem poucos espaços, mas transmite uma atmosfera intensa de silêncio, solidão e assombro. Como você construiu esse vilarejo para que ele também parecesse guardar seus próprios segredos?

Desde o início, eu queria que a Vila das Brumas fosse mais do que um simples cenário. A ideia era que o próprio vilarejo transmitisse a sensação de que algo havia sido esquecido ou escondido ao longo do tempo.

Por isso, optei por um lugar pequeno, isolado e cercado por elementos que despertam curiosidade: construções antigas, trilhas pouco exploradas, um castelo no alto da colina e moradores que parecem saber mais do que dizem. Em um ambiente assim, o silêncio pode ser tão revelador quanto uma conversa.

Também procurei dar significado aos detalhes. O próprio nome da vila não foi escolhido ao acaso; ele está relacionado às características do lugar e ajuda a reforçar a atmosfera que eu queria construir. Gosto da ideia de que os lugares guardam memórias e histórias próprias. Por isso, a Vila das Brumas acabou se tornando parte do mistério, quase como uma personagem que também guarda seus segredos.

O livro trabalha com documentos antigos, cartas, diários, pergaminhos e objetos como peças de um grande quebra-cabeça. O que te atrai nessa ideia de investigar o passado por meio de fragmentos?

O que mais me atrai nessa ideia é que o passado raramente chega até nós de forma completa. Historiadores e arqueólogos costumam trabalhar justamente com fragmentos: um documento, uma carta, um objeto ou um relato que precisa ser interpretado e conectado a outras descobertas.

Ao construir a história, eu queria que os personagens passassem por esse mesmo processo. Não seria interessante se todas as respostas estivessem prontas desde o início. O prazer da descoberta está justamente em encontrar pistas aos poucos e tentar compreender como elas se encaixam.

Também gosto de pensar de que objetos e documentos carregam histórias. Um diário antigo, uma carta esquecida ou um artefato encontrado em uma escavação podem revelar muito mais do que aparentam à primeira vista. Em “Cem Anos Depois”, cada descoberta representa uma nova peça de um quebra-cabeça maior, convidando o leitor a investigar o passado junto com os personagens.

Você afirma que o passado nunca deixa de existir completamente. Que tipo de verdade ou ferida histórica você queria explorar ao mostrar personagens tentando descobrir algo que talvez devesse permanecer oculto?

Mais do que explorar uma ferida histórica específica, eu queria refletir sobre a forma como o passado continua influenciando o presente. Muitas vezes, acontecimentos são esquecidos, ocultados ou simplesmente se perdem com o tempo, mas suas consequências permanecem de alguma maneira.

Em “Cem Anos Depois”, os personagens acreditam estar investigando eventos muito distantes no tempo. No entanto, à medida que avançam na busca por respostas, percebem que algumas histórias nunca desaparecem completamente. Elas continuam presentes em documentos, memórias, lugares e até mesmo nas escolhas feitas por outras pessoas ao longo das gerações.

Acredito que existe algo fascinante nessa ideia. Nem todo segredo permanece enterrado para sempre, e nem toda verdade deixa de existir apenas porque foi esquecida. Foi essa relação entre passado e presente que procurei explorar ao longo da narrativa.

A narrativa se passa em 1997, mas atravessa diferentes períodos históricos e exigiu pesquisa sobre guerras, descobertas arqueológicas e tecnologias de várias épocas. Como foi equilibrar rigor documental e liberdade ficcional?

A pesquisa foi uma parte muito importante do processo, porque eu queria que o leitor sentisse que os acontecimentos poderiam realmente ter ocorrido dentro daquele contexto histórico. Por isso, busquei informações sobre diferentes períodos, conflitos, locais, tecnologias e aspectos ligados à arqueologia e à história.

Ao mesmo tempo, eu sempre tive em mente que estava escrevendo um romance, não um livro acadêmico. A pesquisa serviu como base para dar credibilidade à narrativa, enquanto a ficção me permitiu criar personagens, mistérios e acontecimentos capazes de conduzir a história.

Para mim, o equilíbrio surgiu justamente dessa combinação. Procurei respeitar os elementos históricos que inspiraram a obra, mas também me permiti imaginar o que poderia existir nos espaços que a História não explica completamente. Foi nesse encontro entre pesquisa e imaginação que “Cem Anos Depois” ganhou forma.

Os pesquisadores chegam à missão com dúvidas, mas aos poucos são engolidos por um universo muito maior do que imaginavam. O que essa jornada revela sobre a relação entre razão, mito e medo?

Acredito que a razão, o mito e o medo não são elementos tão separados quanto costumamos imaginar. Muitas lendas surgiram justamente da tentativa humana de compreender aquilo que parecia inexplicável em determinada época.

Ao longo da história, os pesquisadores tentam analisar tudo de forma lógica e racional, mas acabam encontrando situações que desafiam suas certezas. Isso não significa abandonar a razão, mas reconhecer que nem sempre temos todas as respostas.

O medo também nasce desse desconhecido. Quando não conseguimos compreender algo completamente, nossa imaginação passa a preencher os espaços vazios. Por isso, a jornada dos personagens mostra como razão, mito e medo podem coexistir. Em muitos momentos, eles não são opostos, mas diferentes formas de lidar com aquilo que ainda não entendemos.

Ao final, “Cem anos depois” parece sugerir que algumas lendas continuam vivas porque ainda têm algo a nos dizer. O que você gostaria que o leitor sentisse ao fechar o livro: fascínio, inquietação, medo ou vontade de investigar mais?

Acho que, acima de tudo, gostaria que o leitor terminasse o livro com vontade de investigar mais. Gosto de saber que uma história continue viva mesmo depois da última página, despertando curiosidade e incentivando novas perguntas.

Se o leitor fechar o livro pensando sobre os acontecimentos, pesquisando referências, conversando com outras pessoas ou criando suas próprias teorias, acredito que a narrativa cumpriu seu papel. Muitas das grandes histórias permanecem conosco justamente porque continuam provocando reflexões e interpretações diferentes ao longo do tempo.

O fascínio, a inquietação e até um pouco de medo podem fazer parte da experiência, mas o que eu mais espero é despertar a curiosidade. Afinal, toda descoberta começa quando alguém decide fazer uma pergunta.

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