Emanuel Neri transforma inquietações sociais em mensagem de esperança no single Geração Perdida

Luca Moreira
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Com uma composição que atravessa temas como guerras, desigualdade, intolerância e perda da humanidade, o cantor e compositor Emanuel Neri apresenta Geração Perdida, faixa que une reflexão social e esperança em uma narrativa profundamente humana. Escrita originalmente no fim dos anos 1990, a canção ganha nova vida ao dialogar com questões que permanecem atuais, convidando o público a olhar para os desafios do presente sem abandonar a fé em um futuro melhor. Em entrevista, Emanuel fala sobre a inspiração por trás da música, sua trajetória marcada pelo rock nacional e o poder da arte como instrumento de conscientização, acolhimento e transformação.

 “Geração Perdida” nasceu em 1998, numa noite silenciosa, à luz de vela, em Manaus. Quando você olha hoje para aquele jovem de 19 anos escrevendo essa música, o que sente que ele já enxergava sobre o mundo?

Enxergava o mundo real, sem os filtros e a maquiagem dos ideologismos. Via um mundo caminhando torto no campo da degradação física e moral, carente de sensibilidade para se ter olhos abertos para ver e ajudar. Via também que embora muitas coisas caminhassem mal, o futuro haveria de guardar dias melhores, e ainda acredito .

A canção fala de guerras, fome, miséria, drogas, ódio e indiferença, mas ainda assim carrega uma mensagem de esperança. Como foi equilibrar indignação e fé sem deixar a música cair no pessimismo?

Isso é a forma como aprendi a entender a vida e o mundo. Desde cedo aprendi a diferenciar indignação de rebeldia. Acho que por isso buscava ter coragem para olhar e enfrentar as coisas ruins mantendo a confiança de uma construção evolutiva, porque eu acredito que as pessoas vão se tornando melhor e isso vai fazer o mundo ser melhor.

Você descreve a faixa quase como se estivesse mostrando o estado do mundo para alguém que acabou de chegar — ou até para Jesus retornando. Como surgiu essa imagem tão simbólica e espiritual dentro da composição?

Eu venho de uma formação estudando a espiritualidade desde a infância. Não conseguiria dissociar meu eu social do meu eu espiritual. Imaginar aqueles cenários de mazelas me aproximava da ideia de caminhar com o Cristo vendo que o nosso mundo estava, e ainda está, doente. Imaginava de certa forma que era ele que me transmitia a certeza de que tudo há de ter uma solução, assim como uma explicação, independentemente das culpas de quem quer que seja.

Mesmo escrita há quase três décadas, “Geração Perdida” continua atual. Isso te assusta, te entristece ou reforça a importância de finalmente lançar essa música agora?

Isso só me faz crer que a linguagem da arte é capaz de romper as barreiras do tempo. Era atual naquela época, é atual hoje. Isso foi decisivo, inclusive para decidir qual música seria lançada agora, porque há outras e a escolha foi muito difícil.

Musicalmente, a faixa tem uma construção leve, sem um refrão repetitivo tradicional, mas com uma crescente emocional. Como essa escolha ajudou a dar mais espaço para a narrativa e para a mensagem da letra?

Pra falar a verdade isso acaba acontecendo de forma muito natural na minha composição. Pra mim é como se eu contasse uma história, e acho que por isso não tem repetição. Eu não penso muito como vai ser, simplesmente a letra acontece.

Essa construção melódica explorando as potencialidades que a letra oferece eu devo muito à equipe capitaneada pelo meu produtor, Denis Carvalho, que conseguiu extrair o tempo certo de explorar a indignação e esperança em uma musicalidade agradável.

Você viveu a música em diferentes fases: cantando Roberto Carlos na escola, tocando em grupos de juventude, passando pelo rock com a banda TNT e retomando esse caminho durante a pandemia. O que cada uma dessas fases deixou em você como artista?

Pergunta difícil. Acho que cada vivência ajuda a construir o que nós somos. É um processo evolutivo. Isso tudo virou influência que se mostra nas letras que eu escrevo, emoção nas músicas que eu canto, cada fase contribuiu de alguma forma para eu estar aqui, agora, lançando Geração Perdida e me preparando para mais.

Depois da recepção positiva de “Fábrica”, que chegou a outros estados e países, como você lida com essa sensação de ver uma música sair do íntimo e encontrar pessoas tão distantes?

Tô muito feliz com isso. Antes cantava com os amigos nos encontros, agora para o mundo inteiro, rompendo novas divisas todos os dias. Mas mantenho os pés bem no chão, para que o futuro encontre seu próprio caminho.

Você diz que, como carreira, sente que está começando agora. Que Emanuel Neri nasce neste momento: o jovem compositor de Manaus que escrevia à luz de vela, o artista amadurecido pela vida ou uma mistura de todos eles?

Não dá pra dizer que sou o que fui, mas aquele jovem artista continua vivo em mim e o tempo, nada como ele para nos tornar melhor. Então, hoje o Emanuel Neri é essa melhor versão de mim.

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