Entre paisagens naturais, histórias do cotidiano e críticas sociais, Eric Bê e o Avesso do Avesso encontram na água o elemento que conecta as diferentes narrativas de Veneno de Cobra e outros Fluidos, novo álbum de estúdio que marca a consolidação da identidade artística do grupo. Com o rock como ponto de partida, o trabalho incorpora influências do reggae, MPB, jazz e música clássica, refletindo a transição da carreira solo do vocalista para uma construção musical cada vez mais coletiva. Em entrevista, a banda fala sobre o conceito que une as composições, a liberdade de experimentar diferentes linguagens sonoras e o processo criativo que transformou experiências pessoais e observações da sociedade em um repertório marcado pela pluralidade.
“Veneno de Cobra e outros Fluidos” marca uma transição importante, consolidando Eric Bê e o Avesso do Avesso como banda depois de uma trajetória mais ligada à carreira solo e à MPB leve. Em que momento vocês perceberam que esse novo trabalho precisava nascer com uma identidade coletiva?
Logo que começamos os ensaios para as gravações pensamos sobre isso, porque a formação da banda é estável há dois anos, e diferente das músicas lançadas na carreira solo do Eric Bê, quando músicos autônomos foram chamados para gravar/produzir cada faixa, desta vez foi o mesmo grupo que fez os arranjos, que escolheu o repertório e que gravou. Então, foi a construção coletiva que nos fez chegar à conclusão de que deveríamos nos apresentar como um grupo, não como indivíduo.
A água aparece como fio condutor do álbum, seja em paisagens reais, como Ubatuba, Amapá e Santa Catarina, ou em metáforas sobre adaptação, vazamentos e fluidez. O que esse elemento ajudou vocês a descobrir sobre as histórias que queriam contar?
A primeira música desse álbum foi Ilha Feia, que surgiu na virada de 2025 para 2026, em um momento em que já havia o desejo de fazer um álbum mais fluido, com uma identidade forte, músicas que se conectam pela letra e pela sonoridade. Desse desejo de fluidez e de uma certa coincidência de paisagens com mar, rio e chuva nas primeiras músicas, o álbum passou a ser construído propositalmente a partir desse elemento, em paisagens e histórias que representam o dia, a tarde e a noite, com pitadas de histórias pessoais e posicionamento político.

O álbum foi escrito em menos de um ano, mas parece reunir um universo amplo de temas, personagens e climas. Como foi viver um processo criativo tão intenso e, ao mesmo tempo, tão conceitualmente conectado?
A criatividade artística é como musculação, quanto mais se escreve, mais ideias surgem. Se a gente fica um tempo parado, é difícil voltar e criar algo novo, mas quando está ativo, cada informação se transforma em insumo. Quando estava escrevendo Ilha Feia, por exemplo, o Eric lia o livro A leste do Eden, de John Steinbeck, de onde aproveitou a sequência de verbos “coleia e serpenteia”, e quando finalizava outra música, que tinha o nome temporário de “cobra-coral”, viu a postagem de uma colega, que em um desabafo, falou que a lua em escorpião lhe dizia que seus inimigos cairiam. A inspiração se transformou em um trecho da música, que passou a ser chamada de Caboca Venenosa, nome artístico da colega inspiradora.
Faixas como “Ilha Feia” e “Conversas vazadas” mostram lados bem diferentes da obra, entre contemplação litorânea e crítica social. Como vocês equilibraram lirismo, humor, política e leveza dentro do mesmo repertório?
Além da questão conceitual do álbum, pensamos muito em músicas que soavam bem ao vivo, e por isso os ensaios foram tão importantes. Em um show de rock, há momentos mais eletrizantes e outros mais contemplativos, e isso diz respeito ao ritmo, à forma de tocar, mas também às letras.
Na visão do Eric, como compositor, esse humor leve pode servir para aliviar um tema triste ou tenso, então ele está presente em muitas das nossas músicas, mesmo que de forma muito sutil, talvez imperceptível. Tereze, por exemplo, é uma música de protesto que carrega uma crítica ácida quando diz que ela “incomoda os sujeitos da família tradicional brasileira”.

Embora o disco seja essencialmente rock, ele incorpora pop rock, reggae, MPB, jazz e elementos da música clássica. Como os arranjos coletivos e a produção de Jonas Paulo ajudaram a transformar essa mistura em uma sonoridade própria?
A banda tem uma formação muito eclética, e pelo menos metade tem uma formação mais baseada em jazz, MPB e música clássica, enquanto a outra parte está mais acostumada ao rock e ao reggae. Também somos diversos em termos de idade, gênero raça e classe social de origem. Tudo isso contribui para o nosso caldeirão de sons.
O Jonas é um cara que participou de todas as gravações, e enquanto vínhamos com as músicas já resolvidas a partir dos ensaios, ele ouvia uma primeira versão, falava suas percepções e trazia contribuições que melhoravam muito cada faixa. Ele é um cara com formação e percepção musical incríveis, que identifica uma nota errada ou fora do tempo no meio de uma orquestra, e que em poucos segundos, consegue sugerir algo diferente e reescrever uma parte do arranjo.
Fechamos o álbum com uma regravação de Sigo andando em frente, música da carreira solo do Eric, que queria fazer uma referência a Tchaikovsky na introdução. No dia da gravação, o Jonas definiu melhor essa ideia e mostrou para cada músico como poderíamos fazer essa referência.
Músicas como “Sigo andando em frente”, “Fluido”, “Caboca venenosa” e “Bárbara” parecem revelar diferentes facetas da banda, da influência de Tchaikovsky ao “rock brega” e à harmonia clássica. Que faixa vocês sentem que mais surpreende dentro do álbum?
É comum observarmos que existem músicas que são mais fáceis do público gostar, e outras que os músicos gostam mais. Fluido, por exemplo, foi arranjada pelo Eric e pela Bruna Cassou, que modificou/criou algumas melodias que não estavam na concepção da música. Essas contribuições deixaram a música muito mais interessante, do jeito que os músicos gostam, mas esperamos que ela surpreenda e que conquiste os ouvidos dos não músicos também.
A capa criada por Fernanda Rodante, com técnica mista sobre papel, também participa da construção desse universo. Como vocês queriam que a imagem traduzisse visualmente esse encontro entre veneno, água, fluidez e transformação?
A Fernanda é uma artista incrível, que já tinha feito capas para o trabalho solo do Eric. Desta vez, contamos a história do álbum e de várias músicas pra ela. De todas as faixas, acreditamos que Caboca Venenosa convenceu a Fernanda que tinha uma personalidade mais forte. Daí, surge a cobra-coral, personagem da mesma música, e as duas personagens envolvidas nessa água que contorna obstáculos, se adapta a diferentes recipientes e simboliza a capacidade de fluir diante das mudanças.
O show de lançamento na Cervejaria Disgracera pretende apresentar o álbum na íntegra, respeitando a sequência das faixas. Que tipo de experiência vocês esperam criar para o público ao conduzi-lo por essa narrativa do começo ao fim?
Isso é algo que nunca fizemos, e a ideia é fazer o público fluir na mesma vibe do álbum, caminhando das “músicas de bom dia” em direção às “músicas de boa noite e boa madrugada”. Sabemos que as pessoas ouvem música de forma diferente hoje em dia, que a experiência de escutar música é mais individual do que coletiva, que muitas pessoas consomem playlists em vez de álbuns… e ainda assim, apostamos nessa experiência de construir algo diferente. Tocar o álbum ao vivo pode nos dar uma ideia da reação do público sobre cada faixa, sobre a sequência e influenciar a pensar sobre os próximos shows.
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