Guilherme Rodio estreia no Globoplay em série sobre caso real que marcou o Brasil

Luca Moreira
9 Min Read
Guilherme Rodio (Julieta Bacchin)
Guilherme Rodio (Julieta Bacchin)

O ator Guilherme Rodio estreia na série docudrama Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio, disponível no Globoplay a partir de 12 de maio, em uma produção que revisita um dos desaparecimentos mais emblemáticos do país. Interpretando o chefe dos escoteiros na trama, o artista integra um projeto que mistura investigação, memória e impacto social. Em entrevista, Rodio fala sobre o desafio de dar vida a uma história real, a responsabilidade envolvida na narrativa e o momento de transformação em sua trajetória artística.

Em “Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio”, você interpreta um personagem inserido em uma história real que segue sem respostas há 40 anos. Como foi, emocionalmente, entrar em um projeto atravessado por tanta dor, memória e responsabilidade?

Antes de ser convidado para interpretar o chefe Juan, eu já havia sido impactado pelo podcast, que mexeu muito comigo. Uma história de desaparecimento é sempre muito dramática, por que deixa os envolvidos numa espécie de suspensão, de compasso de espera de uma resolução que é comovente. O desafio para mim foi tentar entender o ser humano por trás das decisões que tomou e justificá-las internamente, sem julgá-lo pela lente de quem já sabe o que veio depois. Tentei buscar o Juan do momento, de 1986, o chefe de escoteiros enérgico, apaixonado e respeitado. Sinto também que filmar no Pico dos Marins, com todo o misticismo e a grandiosidade do lugar, trouxeram para mim e para toda a equipe uma sensação de estarmos dentro de uma história viva, de pedirmos licença para participar e contribuir.

Você disse que criar esse personagem foi uma “virada de chave” no seu olhar para a profissão. O que essa experiência te fez compreender de forma mais profunda sobre a arte e sua função social?

Seja em projetos mais comerciais ou projetos mais autorais, busco sempre entregar performances que instigam, que fogem do óbvio, que entretém. No caso do chefe Juan, por conta de ser um caso real e “aberto” eu senti uma camada diferente, uma espécie de “ligação direta” entre o trabalho e um impacto na realidade objetiva. Quem sabe, assistindo à série, alguém se manifeste, alguma verdade escondida venha a tona. Havia um sentimento no set de filmagem, com a equipe, com o Marcelo, o diretor da série, que estávamos ali numa espécie de missão: usar as nossas ferramentas como contadores de histórias para reconstituir essa história de 40 anos atrás em busca de um desfecho.

Guilherme Rodio (Julieta Bacchin)
Guilherme Rodio (Julieta Bacchin)

Ao interpretar Juan, o chefe dos escoteiros, em uma narrativa inspirada em um caso tão emblemático, que tipo de cuidado você buscou ter para que o personagem não fosse apenas uma representação dramática, mas alguém com verdade humana?

Conversei muito com o Marcelo sobre o Juan na pré produção e nos ensaios. Tivemos também uma preparação com dois escoteiros que nos passaram muito dos valores, da conduta, dos códigos desse grupo tão específico de pessoas.

Como é um personagem central na história, o meu objetivo foi sempre tentar entender a sua maneira de pensar para tomar as decisões que tomou e também para suportar as pressões que teve que enfrentar. Algumas pessoas que conheceram o Juan pessoalmente deram detalhes e informações que também ajudaram no processo, principalmente sobre o comportamento, alguns trejeitos, o que sentiam ao estarem num mesmo ambiente que ele. O principal foi a busca das motivações e dos impulsos sem cair na armadilha de transformá-lo em herói ou vilão.

Sua trajetória passa por televisão, streaming, teatro, curtas autorais e agora também por projetos em que você escreve e produz. Como todas essas experiências foram moldando o artista que você é hoje?

O que me move, desde antes de ser ator, desde a adolescência, são as boas histórias e os bons personagens. Quando sou convidado para algum projeto, entrego o meu corpo, meus sentimentos para uma história criada por outra pessoa. Aos poucos descobri que poderia fazer o inverso: À partir de um personagem que imaginei e criei com paixão, poderia contar uma história, criar uma narrativa, um universo. Fiz isso no curta metragem A Volta Para Casa, em que atuo com o Lima Duarte, e que está disponível no youtube, e agora em mais dois curtas e um longa metragem que estão em processo de desenvolvimento.

Guilherme Rodio (Julieta Bacchin)
Guilherme Rodio (Julieta Bacchin)

Há algo muito bonito na forma como você fala do cinema como um trabalho de cooperação, quase uma engrenagem humana de sonho. De onde vem esse encantamento pelo set e pelo processo coletivo da criação audiovisual?

Acho que aconteceu por volta de 2015, quando fiz meu primeiro trabalho numa grande produção audiovisual, um outro docudrama do History Channel chamado Gigantes do Brasil. Eu fiquei surpreso e encantado com a maneira que um grupo grande, de mais de 100 pessoas faz um projeto acontecer, cada um respeitando o espaço do outro e fazendo o seu melhor para que o colega faça o mesmo. Ver uma equipe técnica, elenco, suporte, todos trabalhando juntos, é muito lindo. Me apaixonei.

Você também tem uma relação muito forte com a construção de personagens complexos, influenciada inclusive pelo estudo da técnica Stella Adler e pela convivência com Milton Justice. Como esse mergulho mais profundo no ofício transforma sua forma de atuar?

Essa é a minha paixão. Me transformar física e emocionalmente em um ser humano cheio de ambiguidades e que é diferente de mim. A Stella Adler foi uma grande mestre de atores que acreditava que o ator precisa desaparecer para o ser humano surgir. Antes de estudar e incorporar o método de trabalho dela, eu tinha uma relação intuitiva com o trabalho, mas a partir da técnica, pude ir muito mais fundo na criação de personagens.

Além de atuar, você escreve, produz e agora se prepara para ministrar cursos de interpretação. Em que momento surgiu esse desejo de também compartilhar o que aprendeu com outros atores?

Desde que voltei para o Brasil, com cadernos e cadernos de anotações, imaginei que um dia poderia compartilhar esse conhecimento. Na pandemia, entre 2020 e 2021 formatei um curso e comecei a oferecer cursos esporadicamente em locais com o B_arco, CPT e por conta própria em plataformas como o Zoom. Desde então, alguns atores me procuram para treinamento e mentoria individual.

Você disse gostar de contar histórias de personagens comuns que enfrentam dilemas épicos. O que existe nesses conflitos silenciosos e profundamente humanos que tanto te atrai como artista e criador?

Acredito que somos micro universos cheios de contradições, paradoxos e que nossos mundos individuais colidem com outros a partir das relações que estabelecemos. Minha busca como ator e contador de histórias é vivenciar e expressar através do comportamento, dos detalhes não ditos, das falas enviesadas essa complexidade. Quero me conectar com a diversidade da experiência humana para poder devolver isso para o público, fomentando reflexão e empatia.

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