Hobart fala sobre identidade, humor e autoficção em I AM RYAN

Luca Moreira
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Hobart (Ryan West Photo)
Hobart (Ryan West Photo)

Em I AM RYAN, Hobart transforma uma experiência incomum da própria vida em uma comédia marcada por absurdo, sátira e questionamentos sobre identidade. Na entrevista, o músico, ator, escritor e apresentador fala sobre o processo de assumir múltiplas funções no longa, a influência da música no ritmo da narrativa e o interesse em explorar, com humor e estranheza, a distância entre quem somos e quem o mundo decide que somos.

I AM RYAN nasce de um lugar muito pessoal, já que você passou anos ouvindo que se parecia com Ryan Reynolds e até trabalhou como dublê de corpo dele. Em que momento isso deixou de ser apenas uma parte inusitada da sua vida e se tornou um filme?

É louco, eu me lembro do momento em que decidi escrever o primeiro esboço desse filme, e foi em 2017. Eu tinha acabado de fazer meu primeiro trabalho como dublê de Ryan Reynolds para um pôster de filme. Usaram meu corpo e recortaram meu rosto. Deixaram meu cabelo! Isso ou é uma ótima premissa para um filme, ou um motivo para chamar um terapeuta. Eu escolhi o filme. Parecia mais barato.

Você está ligado ao projeto como protagonista, roteirista, compositor e produtor, o que mostra um envolvimento criativo impressionantemente amplo. Como equilibrou tantos papéis dentro de um único filme sem perder a espontaneidade da comédia?

Mal, e depois tudo ao mesmo tempo, o que acabou sendo um tipo próprio de ritmo. A resposta honesta é que, quando você está fazendo tudo, para de tratar qualquer uma dessas funções como algo sagrado demais. Essa liberdade é justamente onde mora o que há de mais engraçado. A comédia vive nos espaços entre esses papéis, onde ninguém está realmente no controle. Eu só tive a sorte de ter ótimas pessoas ao meu redor que me deixaram fingir que eu sabia o que estava fazendo.

O filme brinca com fama, aparência, impostura e a linha entre realidade e ilusão. O que mais te interessava explorar por baixo desse humor aparentemente absurdo?

O espaço entre quem você é e quem o mundo decide que você é. Esse é um território genuinamente estranho, e a comédia é a única ferramenta que encontrei para mexer nisso sem que tudo desmorone. O absurdo não é um disfarce para a questão mais profunda — ele é a própria questão mais profunda.

Hobart (Ryan West Photo)
Hobart (Ryan West Photo)

I AM RYAN foi descrito como uma mistura entre a comédia constrangedora de The Office e a sátira afiada de This Is Spinal Tap. Quais foram suas maiores influências para moldar o tom dessa história?

The Office me ensinou que as verdades mais desconfortáveis atingem com mais força quando todo mundo está fingindo que está tudo bem. Spinal Tap me ensinou que sinceridade e sátira não são opostos. Eu acredito que a coisa mais engraçada que você pode fazer é levar tudo completamente a sério. Eu queria que I Am Ryan ficasse nesse mesmo lugar estranho e sincero, em que você está rindo, mas também não tem tanta certeza do que exatamente está rindo.

Como alguém que vivenciou Hollywood por dentro, inclusive em papéis tão incomuns quanto o de dublê de corpo, até que ponto o filme se inspira em experiências reais e até que ponto abraça totalmente a invenção?

Digamos que a verdade emocional seja autobiográfica e os detalhes sejam altamente ficcionalizados, por razões legais e de autopreservação. O que é real é a sensação de existir em um espaço que foi construído para outra pessoa. O resto eu inventei, exagerei ou coloquei na conta de um personagem.

Sua carreira passa por música, performance ao vivo, atuação, composição para videogames e agora um longa-metragem com uma assinatura tão pessoal. Como todas essas linguagens criativas se unem em você como artista?

Ótima pergunta! Queria ter uma resposta bem artística para essa, mas a resposta engraçada e sincera para mim é a seguinte: são apenas maneiras diferentes de mentir de forma convincente na frente das pessoas. Música, performance, cinema… no centro de tudo está o mesmo ato: você está tentando fazer alguém sentir algo verdadeiro por meio de algo construído. Faz muito tempo que deixei de pensar nisso como disciplinas separadas. São apenas cômodos diferentes da mesma casa levemente caótica. Meu objetivo é criar coisas de que eu goste, enquanto espero ter feito o público sentir algo verdadeiro. Acho que falei isso duas vezes… culpa minha.

Hobart (Ryan West Photo)
Hobart (Ryan West Photo)

Você compôs para universos muito diferentes, de Rock Band a Deadpool, enquanto continua lançando músicas autorais. Como sua sensibilidade musical influenciou a realização de I AM RYAN, incluindo o ritmo da comédia?

Comédia e música, para mim, são basicamente a mesma coisa. Acho que ambas são totalmente sobre tempo, tensão e saber exatamente quando deixar o silêncio respirar. Escrever trilhas me ensinou a confiar na pausa. Uma piada que funciona em um filme é estruturalmente idêntica à resolução de um acorde. Você cria a expectativa, adia o suficiente e então entrega ou subverte.

Com o filme chegando aos cinemas em 22 de maio de 2026, o que você mais espera que o público leve consigo ao sair da sessão: as risadas, a sátira sobre celebridade ou uma reflexão mais profunda sobre identidade?

As risadas, em primeiro lugar! Porque, se isso não funcionar, o resto não importa. Mas, por baixo disso, espero que as pessoas saiam com uma relação um pouco menos rígida com quem decidiram que deveriam ser. Identidade é algo muito mais negociável do que nos fazem acreditar. Isso é assustador e também, eu acho, bastante libertador. Ou, no mínimo, um ótimo material.

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