IARAH transforma dores, traumas e superação em seu álbum mais íntimo, “Estilhaços”

Luca Moreira
14 Min Read
IARAH
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No primeiro álbum de estúdio da carreira, IARAH abre espaço para mostrar uma faceta que poucos conhecem. Em “Estilhaços”, a cantora e compositora transforma experiências marcadas por perdas, relações tóxicas, ansiedade, gordofobia e distúrbios alimentares em um trabalho profundamente autobiográfico, no qual cada canção representa um fragmento de sua trajetória. Em entrevista, a artista fala sobre o processo de revisitar memórias delicadas para construir o disco, a importância da música como instrumento de cura, o desejo de acolher pessoas que enfrentam desafios semelhantes e os planos para expandir esse universo com novos videoclipes.

“Estilhaços” é apresentado como um álbum conceitual e autobiográfico, em que cada faixa funciona como um fragmento real da sua história. Em que momento você percebeu que essas partes quebradas poderiam formar uma narrativa musical?

A partir da terceira música escrita eu comecei a pensar sobre eu tinha alguns esboços de outras letras e fui percebendo que todas falavam de algo muito profundo e que me marcou demais, eram temas dolorosos e que deixaram marcas desde a infância e que me transformaram na pessoa que sou hoje. Quando percebi isso comentei com minha mãe, que era quem eu sempre procurava primeiro pra mostrar as letras e ela me disse que cada uma parecia um fragmento de quem sou e novamente pensando cheguei no nome Estilhaços pois passa a ideia de um vidro que se quebrou em vários pedaços, que se você encostar corta e por muito tempo fui assim, na defensiva, com medo de ser mais ferida do que ja fui. Tive, com muita luta, que me reconstruir e por isso o nome Estilhaços pois tive que pegar cada pedacinho do que me feriu e ” colar ” pra voltar a ser inteira mesmo com marcas pra vida toda.

O título do disco carrega a ideia de algo que se rompeu, mas cujos pedaços ainda contam uma trajetória. O que você descobriu sobre si mesma ao revisitar esses “estilhaços” em forma de canção?

Descobri que pessoas machucam, muitas vezes por prazer, pra humilhar. Descobri que confiança é algo frágil, uma vez perdida não há volta. Foram muitas as descobertas inclusive que eu tenho uma força que jamais imaginei, me via sempre frágil, mas sempre caia e levantava e fui percebendo o quão forte eu fui com tudo que vivi, minha geração sente tudo muito intenso e muitas vezes não sabe como lidar e seguir em frente e eu consegui por isso muitas vezes me sinto diferente, além da minha idade, pois com o sofrimento veio o amadurecimento. Falar que foi fácil revisitar essas dores seria mentira, foi muito doloroso, por muitas vezes rasguei letras, comecei do zero, era complexo encontrar palavras pra definir tanta dor, tanta magoa, mas no fim de todo processo foi um grande alivio.

Você comenta que muitas vezes foi julgada ou interpretada de forma equivocada por sua postura mais reservada. Como o álbum te ajuda a mostrar a IARAH que existe por trás dessa imagem de força?

Sou muito reservada mesmo, e ja passei por tanto julgamento que ao longo dos anos perdi a vontade de ficar explicando que eu não era como as pessoas falavam , eu teria que ficar explicando o motivo e eu não estava pronta na época, escrever essas músicas e lançar pro mundo acabou sendo a melhor terapia que eu poderia fazer e também a melhor forma de mostrar para as pessoas e principalmente pra quem sempre me julgou que por trás dessa imagem de força existe uma Iarah que sofreu muito, e que se sou assim hoje foi pra me proteger e defender de pessoas como as que me feriram pois elas são muitas vestidas com pele de cordeiro, você não vê a maldade à primeira vista mas ela está lá e hoje eu sei muito bem perceber e me proteger de tudo isso.

“Trauma” resgata a dor da separação dos seus pais e a ausência na relação com seu pai. Como foi transformar uma ferida tão antiga e familiar em uma música aberta ao público?

Foi a última a ficar pronta pra falar a verdade, foi a segunda que escrevi há anos atrás, mas eu tinha muita dificuldade de mexer nela, tudo o que eu escrevia parecia insuficiente e insuportável sabe? Parecia sempre faltar algo, um sentimento, uma palavra ou as vezes as palavras eram fortes demais e carregavam muita mágoa. Quando eu tinha meus 12/13 anos comecei a escrever músicas em inglês e lancei 2, Trauma ja existia nessa época e voltar a mexer nela em Português, na minha língua, sabendo que todos entenderiam também foi algo muito corajoso. Hoje tenho uma relação melhor com meu pai e escrever essa música também ajudou muito nesse processo, ajudou a entender que ele veio de uma família que nunca acolheu suas dores e ele também não soube acolher as minhas e é sobre isso, as vezes nossos familiares machucam porque foram machucados e eu decidi quebrar esse ciclo por mais difícil que fosse.

Em “Acidez”, você aborda ansiedade, distúrbio alimentar, compulsão por comida e gordofobia com muita coragem. Que importância existe em tratar esses temas sem suavizar a dor que eles provocam?

Porque todo mundo já faz isso o tempo todo, minimizam as pessoas, julgam quem está acima do peso, já ouvi tanta coisa sobre isso e nunca com a devida seriedade e acolhimento. A pessoa gorda é tratada como preguiçosa, gulosa … Quando eu era pequena era muito magrinha e na família cobravam da minha mãe que eu precisava engordar pra ficar saudável, minha mãe me levou na pediatra na época mas ninguém aceitava que eu estava saudável e por conta de tanta interferência minha mãe tentava fazer o certo mas quando estava com meus avós por exemplo sempre fui induzida a comer muitas besteiras, esse é um ponto , mas quando eu tinha uns 5 anos fiquei doente e descobri que era asmática, na época eu fazia publicidade e por tomar corticoide passei a ganhar peso e ficar muito inchada e também passei a comer mais pois sentia fome o tempo todo por causa de algumas medicações. Minha mãe me colocou na natação e fazia taekwondo também mas tivemos muitos problemas financeiros e tive que parar e também tudo isso foi na mesma época da separação dos meus pais, eles brigavam muito e era insuportável pra mim e eu descontava ainda mais na comida. Na época eu fazia muitas atividades e fazia teatro e eu amava e eu era muito boa sabe? Sem falsa modéstia eu amava atuar, mas com o tempo fui perdendo a alegria de estar ali pois todas as meninas da minha idade eram muito magrinhas e sempre que tinha uma Audição eu não era escolhida e sempre ouvia que eu era muito ” grande ” e eu sabia bem o que isso significava. Com o passar do tempo eu fui crescendo e percebendo que pra ter oportunidades precisava emagrecer pois nos testes falavam abertamente e comecei a deixar de comer , eu literalmente não comia nada e na época eu nem estava tão acima do peso mas eu me via enorme e eu não tinha namoradinhos como minhas amigas e eu me sentia péssima, cheguei até tentar uma vez contra minha vida pois era tudo muito difícil e foi quando meus pais voltaram a se aproximar pra me ajudar . Então pra eu falar sobre gordofobia e distúrbio alimentar é muito importante e fundamental pois vivo fazendo dietas pela minha saúde e mesmo assim ainda vejo e ouço comentários de que estou muito acima do meu peso, como se eu não soubesse ou não tivesse espelho em casa. Mas as pessoas falam pelo simples prazer de ferir, de humilhar sem se importar com a dor do outro. Sem saber como a pessoa chegou naquela situação, se foi por problemas de saúde ou por outros motivos. Depois ficam falando sobre saúde mental como se realmente se importassem. Distúrbio alimentar vai muito além, eu poderia passar horas aqui falando sobre, mas resumindo tudo é isso, nunca foi falta de vontade, de coragem, nunca foi preguiça e as pessoas precisam aprender a respeitar pois por causa do julgamento alheio tenho ansiedade e depressão e se eu não tivesse muito amor, conversa e acolhimento por parte da minha mãe eu certamente não estaria aqui hoje.

O disco transita por relações tóxicas, luto, assédio, amores não correspondidos e decepções, mas também fala de cura e acolhimento. Como encontrar equilíbrio entre expor a dor e oferecer algum tipo de abrigo para quem escuta?

Eu sei que muitas pessoas passam e passaram pelo que passei, ao longo dos meus lançamentos recebi várias mensagens de pessoas contando suas histórias e no fim é sobre isso, desabafar, dizer ” olha eu entendo sua dor, você não está sozinha ” Acho que esse é o poder da música, eu busquei cura ao escrever sobre todos esses temas e espero também oferecer cura e acolhimento pra quem ouvir. Sempre que posso, vejo e tenho tempo procuro responder quem me escreve, porque quando mais precisei muitos não entenderam e me viraram as costas. Espero com minha música ajudar o máximo de pessoas que puder, que mesmo sem me conhecerem pessoalmente saibam que entendo e respeito cada pessoa como são com toda bagagem de vida que elas possam se sentir compreendidas e acolhidas através das minhas músicas e experiências. Em tempos de músicas feitas por IA acho que escancarar minha vida dessa forma é um ato de resistência, é assumir que nossa força pra passar por tantas provações está em nós mesmos, é saber se impor e falar com clareza nossos limites.

Os arranjos buscam unir doçura, melancolia e peso instrumental para traduzir a densidade dessas experiências. Como a sua banda ajudou a transformar memórias difíceis em uma sonoridade que também acolhe?

Quando escrevi as músicas ainda não tinha uma banda 100% formada, então não teve a participação deles, todo instrumental foi feito pelo meu produtor Maurício Hoffman da One Produtora junto comigo durante as gravações, conversávamos antes sobre o que eu queria em cada música e na hora de gravar tudo fluía muito natural.

Você entrega “Estilhaços” com uma mistura de ansiedade e alívio, como quem oferece mais do que um álbum, mas um porto seguro. Que mensagem você gostaria que chegasse a quem também se sente quebrado, julgado ou sozinho?

Que elas não estão sozinhas, que existem muitas pessoas passando pelo mesmo e que por mais doloroso e difícil é possível seguir em frente, porque a vida é muito mais que tudo o que nos machuca, a gente só não pode desistir jamais, ser resiliente e lutar e não se deixar abater por críticas de pessoas maldosas.

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