Murilo Muraah une música, espiritualidade e política em nova session ao vivo

Luca Moreira
17 Min Read
Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)
Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)

O cantor e compositor Murilo Muraah apresentou a session Murilo Muraah ao Vivo no Gugastro Estúdio, projeto lançado em 1º de maio que marca sua retomada artística dentro do ciclo Inquieto Caminhante. Mais do que um registro musical, a apresentação propõe um diálogo entre arte, espiritualidade e questões sociais contemporâneas, abordando temas como democracia, extremismos e liberdade de pensamento. Em entrevista, Murilo fala sobre a decisão de retornar aos palcos em um momento de crises políticas e sociais, a construção coletiva do repertório e o desejo de transformar a música em espaço de reflexão e conexão humana.

“Inquieto Caminhante” marca uma retomada artística em um momento de crises sociais, econômicas e políticas. O que dentro de você pediu esse retorno agora, e não antes?

Nos anos anteriores, especialmente após 2018, minha atuação profissional e também como ativista fez com que eu estivesse no centro de lutas relevantes, como a defesa da democracia e pelo direito à cultura. Ainda assim, sentia muita falta do fazer artístico, que adiciona uma outra dimensão às lutas e permite a construção de outros olhares para a vida. Mais do que lutar contra as desigualdades, injustiças e a perda de nossos direitos, é preciso também apontar para outros caminhos. Costumo dizer que ser incapaz de querer um futuro diferente do que o sistema sociopolítico atual nos entrega é não apenas falta de humanidade, já que são imensas as injustiças e desigualdades no Brasil e no mundo, mas também uma tremenda falta de criatividade. O retorno do meu projeto artístico se deu a partir dessa vontade de questionar o passado e o presente, apontando para outros futuros, outras formas de estar no mundo.

Você fala de música, espiritualidade e política como partes de uma mesma experiência. Como essas dimensões passaram a se encontrar de forma tão orgânica no seu trabalho?

Minhas composições nascem, quase sempre, pela escrita. Eu primeiro tenho algo a dizer, só depois isso ganha uma forma musical. Então o fazer musical, para mim, sempre foi uma maneira de expressar diferentes pensamentos, sensações, sentimentos, percepções, dúvidas…

A investigação sobre a espiritualidade é algo que me acompanha há muitos anos, então é natural que seja o ponto central do meu trabalho artístico. Já a dimensão política sempre esteve de alguma forma presente, de forma não panfletária. Ela surge a partir de uma postura de questionamento crítico do mundo em que vivemos ou de fatos específicos. Um exemplo é a música Esperando Seu Fim, presente no álbum Mundo Dual (2006) e na live session Ao Vivo no Gugastro Estúdio (2026), que expôs de forma ácida uma preocupação humanista frente ao que estava acontecendo no mundo a partir dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Outro exemplo é a música Bélico, Fálico, Falho, também presente no Mundo Dual, que narra um feminicídio de forma crítica a um modelo violento de masculinidade décadas antes destes assuntos terem no debate público a importância que finalmente ganharam nos tempos atuais.

Nos últimos anos, a religião passou a ser instrumentalizada para fins políticos no Brasil, EUA e outros países ocidentais. Por isso, para mim veio de forma natural a vontade de unir espiritualidade e política nessa volta do meu trabalho musical. Diante de tentativas de constranger visões de mundo diferentes para impor uma vivência religiosa única, entendi que era o momento de expor minhas ideias sobre a construção de outras formas de viver a espiritualidade, valorizando inclusive a dúvida, o ceticismo, o ateísmo. Enxergar a espiritualidade como processo em constante mutação, que se enriquece a partir de diferentes experiências, sejam elas religiosas ou não. Tratar a espiritualidade desta forma no contexto atual é, sem dúvidas, uma escolha que também é política.

Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)
Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)

Sua espiritualidade aparece no projeto como algo filosófico, livre e não dogmático. O que te interessa nesse caminho mais aberto de reflexão e como ele atravessa suas canções?

Estamos acostumados a entender a espiritualidade sempre pela ótica religiosa, mas essa é apenas uma das dimensões possíveis da espiritualidade. Além disso, é preciso saber interpretar a prática religiosa dogmática a partir de uma construção que é não somente histórica, mas também política. A instrumentalização política de diferentes religiões já levou a humanidade a cometer inúmeros atos de covardia injustificáveis. Quantos projetos de poder souberam utilizar a fé como ferramenta de controle e de submissão? Quantos ainda usam?

Minhas composições se propõem a ampliar essa compreensão sobre a espiritualidade, incluindo o autoconhecimento e a postura investigativa como pontos fundamentais. A religião, nesse contexto, pode ser uma escolha pessoal, capaz de fornecer importantes conhecimentos e percepções a partir de histórias, práticas e pensamentos repletos de simbolismo. Livre de imposições, a espiritualidade se apresenta como um caminho a ser trilhado de forma livre, sem um destino final, onde o caminhar já oferece, em si, as mais profundas oportunidades de conexão com a vida e com as potencialidades do ser humano. Com essa liberdade, os ensinamentos de diferentes religiões podem ser acolhidos como expressões de diferentes culturas sobre aspectos da espiritualidade. As diferenças se somam, não se excluem. Há uma imensa beleza nisso. Em parte, são esses questionamentos e essa beleza que tento apresentar em minhas músicas.

Ao longo da session, você intercala músicas com falas sobre democracia, extremismos e o uso da religião como instrumento de poder. O que te move a transformar o palco também em espaço de pensamento e posicionamento?

Entendo que o palco não é transformado, ele já é, antes de tudo, um espaço de pensamento e posicionamento. Quem está pisando, em qual palco, por qual motivo, para qual público… todos esses pontos são parte de um contexto político, estejamos conscientes dele ou não.

No Brasil de 2026, pisar no palco sem ter essa consciência seria reproduzir, de forma acrítica, uma lógica perversa que une diversas injustiças e desigualdades sociais à escalada global de um projeto político excludente, desumano, autoritário e ultraviolento. A extrema-direita tem dado repetidas provas do que é capaz de fazer. Diante disso, entendo que qualquer pessoa que tem uma voz, que tem capacidade de falar para outras pessoas, deve fazer uso dessa capacidade para construir maior compreensão e consciência política, humanitária.

Não é algo fácil, já que há anos vem sendo construída uma barreira que dificulta as tentativas de comunicação com pessoas que se tornaram vítimas desse projeto extremista. Quando os únicos veículos de informação permitidos são alimentados pelos próprios extremistas, qualquer coisa que esteja fora deles passa a ser rejeitada. Ainda assim, é preciso seguir tentando, seguir buscando pontos de conexão, e a arte, sem dúvidas, pode oferecer boas oportunidades.

Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)
Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)

O repertório reúne composições recentes, faixas de Mundo Dual e medleys que cruzam diferentes referências. O que esse diálogo entre passado e presente revela sobre o artista que você era e o que é hoje?

As faixas do álbum Mundo Dual demonstram que parte do que apresento em meu trabalho hoje já estava presente há mais de duas décadas, tanto nas ideias como nos sons. Mas tem muitas diferenças também, maior compreensão sobre temas que eu já abordava, maior capacidade musical na criação e execução das músicas.

A reverência ao passado sempre esteve presente, não por acaso músicas como Cristina (Tim Maia e Carlos Imperial) ou Ai Que Saudade D’Ocê (Vital Farias) já eram tocadas em shows naquela época e continuam no meu repertório. Já a conexão com artistas independentes da atualidade tem sido uma marca nesse retorno, procuro sempre incluir músicas recentes nos shows, como Quem Vai Apagar a Luz (Sophia Chablau) ou Vampiro (YMA). Isso é resultado da maior curiosidade musical que eu tenho hoje, mas também da vontade de celebrar a cena independente brasileira, que é riquíssima e gera, ano após ano, inúmeros artistas e composições de imensa qualidade.

Você comenta que cada música parte de uma versão de estúdio, mas ganha outra vida com a banda. O que a experiência ao vivo te permite dizer ou sentir que o estúdio sozinho não alcança?

O contato direto com o público transforma completamente não só a música, mas o próprio artista. Nem sempre é o que se diz que muda, mas o como aquilo é sentido e como se traduz mesmo usando as mesmas palavras. O estúdio é muitas vezes espaço de experimentação sonora, de tentativa e erro, de lapidação de cada música. Quando chega no show, a música geralmente já tem uma base bem estruturada, mas ainda assim cada apresentação consegue ser única. A diferença pode vir de improvisos, de sutilezas na execução, da resposta ao que o público demonstra a cada momento. Apesar de ter construído uma vida profissional dentro de estúdios, o ao vivo me provoca e emociona de um jeito único, faz eu me perguntar como consegui passar tantos anos longe dos palcos. Fiquei afastado de uma parte muito importante da minha vida, é maravilhoso poder estar de volta.

Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)
Murilo Muraah (Rodrigo Calorio)

Há algo muito bonito na intenção de registrar essa fase com qualidade, quase como uma forma de reparar a ausência de registros da sua primeira etapa. Que significado emocional esse projeto tem para você nesse sentido?

Essa ausência de registros sempre me incomodou muito. Fiz shows inesquecíveis e toquei ao lado de ícones da música brasileira, mas tenho apenas registros fotográficos daqueles momentos, em qualidade bem inferior à capacidade das câmeras digitais de hoje. Praticamente não tenho vídeos das apresentações que fiz entre 1999 e 2009. Por isso, foi natural querer gravar o show de retorno, ainda mais por ser realizado no Gugastro Estúdio, que já conta com uma ótima estrutura audiovisual, comandada pelo Renato Soares.

Mais do que isso, essa gravação tem um quê de salto no escuro. Era o meu primeiro show em 16 anos, ao lado de uma banda que estava junta no palco pela primeira vez. Então claro que tive dificuldades técnicas, e isso fica visível no registro do show, até pela própria emoção de estar voltando aos palcos. Sabia que ia ser assim, mas queria deixar registrado do mesmo jeito, foi um momento muito importante não só da minha trajetória artística, mas da minha própria vida.

Lançar o EP e a live session Ao Vivo no Gugastro Estúdio foi uma escolha de expor esse retorno a um público mais amplo. Ver agora esse registro chegando ao canal Music Box Brasil é algo que tem um valor imenso para mim. Quem já esteve em um palco sabe como as inseguranças podem incomodar, ainda mais depois de tanto tempo afastado. É muito bom ver que essa primeira apresentação já despertou tanto interesse, só ampliou o meu ânimo pra fazer mais e mais shows, estudando sempre e praticando para que sejam cada vez melhores.

Paralelamente à música, sua trajetória passa pela gestão cultural e pelo ativismo em defesa da democracia. Como essas vivências fora do palco transformaram sua maneira de criar, cantar e se colocar artisticamente no mundo?

Como disse antes, eu costumo escrever as letras antes de criar as minhas músicas. De certa forma, isso vale também para o papel que tenho como gestor cultural e ativista. Antes de agir, existe o motivo que me faz querer agir. Isso quer dizer que, antes de trabalhar por 10 anos como técnico e depois gestor dos estúdios das Fábricas de Cultura, já existia a vontade de trabalhar com música dentro de um contexto de transformação social. Desde que entrei no programa, tive consciência da minha responsabilidade por estar trabalhando em uma política pública capaz de impactar tantas pessoas, especialmente jovens, em uma situação de alta vulnerabilidade social. Enquanto estive lá, quis sempre entregar mais e melhores possibilidades de ações para o público, o que possibilitou a construção de diversas parcerias estratégicas e a ampliação das ações oferecidas pelos estúdios. Ao mesmo tempo, mantive sempre uma abertura para fazer as coisas de forma diferente do que eu pensava, buscando responder a demandas e ideias que vinham do próprio público e das equipes. Foi uma oportunidade única de crescimento pessoal e profissional, transformou minha visão de mundo, me colocou em contato com diferentes pessoas e realidades. Isso, sem dúvidas, influenciou na construção do ciclo Inquieto Caminhante, que construo não a partir de certezas pessoais, mas da importância de estar aberto às diferenças, à diversidade da vida.

Como ativista, comecei integrando lutas do setor cultural, mas a situação do país fez com que eu mergulhasse de cabeça na luta em defesa da democracia. Ajudei a fundar o Direitos Já! Fórum pela Democracia e atuei como coordenador de formulação e de articulação da sociedade civil entre 2019 e 2023, realizando onze grandes atos, a campanha nacional Abrace a Vacina e diversas outras ações. Ajudei a construir diálogos com lideranças e organizações de diferentes perfis, buscando não apenas proteger a democracia, mas alertando para a necessidade de aprimorá-la. Saí do movimento em 2025 por não enxergar mais nele o compromisso com esses propósitos, mas essa experiência sem dúvidas foi de imensa importância para mim.

Minhas músicas são autorais e retratam sem medo o que passa pela minha cabeça, pelos meus sentimentos. Fiquei distante do meu projeto e dos palcos entre 2009 e 2025, mas isso foi fundamental para que eu desenvolvesse outras partes da minha vida. Então é natural que tudo se misture agora com tanta força e senso de urgência, o que pode ser visto no show gravado, nas apresentações que tenho feito e, sem dúvidas, em outras etapas do meu projeto que ainda estão por vir.

Acompanhe Murilo Muraah no Instagram

TAGGED:
Share this Article

Você não pode copiar conteúdo desta página