Às vésperas da eleição, um estudo inédito do Projeto Desapocalíptica da Avaaz, em parceria com o Datafolha, fornece uma explicação inesperada para o vertiginoso crescimento da abstenção eleitoral no Brasil: a epidemia de solidão, o esgotamento mental e a dependência digital.
O estudo Termômetro do Bem Viver indica que a ausência nas urnas — que cresceu para quase um quarto do eleitorado no último pleito — não é mero desinteresse ideológico, mas reflexo de um eleitorado exausto e sem conexão comunitária. Confira aqui: https://images.avaaz.org/termometro-do-bem-viver.pdf
Quase a metade (47%) dos brasileiros que se enquadram neste perfil (classificados pela pesquisa como “desvinculados”) já deixou de votar ou vota raramente. Mais: 27% desistiram totalmente do pleito. Enquanto isso, 9 em cada 10 indivíduos classificados como “vinculados” comparecem às urnas. O estudo aponta ainda a juventude como o epicentro desse isolamento: 44% dos jovens entre 18 e 34 anos são desvinculados, enquanto apenas 21% são vinculados.

Inspirado em metodologias globais de medição de bem-estar, como o Ipsos Happiness Index, o Termômetro do Bem Viver propõe uma nova lente cultural: avaliar a qualidade de vida dos brasileiros para além dos indicadores tradicionais de consumo, conforto material ou desempenho do PIB. O estudo mapeou o grau de vínculo dos indivíduos com as pessoas ao seu redor, suas comunidades e o meio ambiente.
Para Nana Queiroz, Diretora do Projeto Desapocalíptica, a eleição para o Congresso Nacional em 2026 é o momento decisivo para transformar esse diagnóstico em legislação concreta.
“Se nosso estudo fosse resumido a uma frase, seria: gente exausta não consegue esperançar”, defende. “O brasileiro não cansou da democracia, cansou de ser ignorado por um Congresso comprometido com a política da exaustão, que perpetua jornadas massacrantes, redes sociais tóxicas e cidades sem vida. A resposta para essa crise é levar a filosofia do Bem Viver para o centro das urnas: votando em candidatos ao Congresso que sejam comprometidos com pautas concretas, como o fim da jornada 6×1, a regulação das redes e a proteção de áreas verdes.”
A pesquisa traz ainda outros destaques sobre o comportamento dos eleitores: O voto é pragmático e sem esperança: mesmo o eleitor engajado vota de forma defensiva para evitar retrocessos políticos (“redução de danos”), enquanto o mais desiludido encara o ato apenas como uma obrigação burocrática para não anular documentos.
A fé na democracia depende de vínculo comunitário: A pesquisa revela que 79% dos brasileiros vinculados consideram a democracia inegociável, contra apenas 30% entre os desvinculados.
A juventude como epicentro da falta de vínculo: quanto mais velhos, maior é o nível de vínculo dos entrevistados com os princípios do Bem Viver. Quando olhamos para os mais jovens, entre 18 e 34 anos, o número de desvinculados do Bem Viver é o dobro (44%) dos vinculados (21,6%). Já quando olhamos para os vinculados, 78% estão acima dos 35 anos.
Telas são escape e natureza é antídoto para exaustão: o celular atua como anestésico contra a ansiedade e o tédio dos mais jovens, gerando culpa. Em contrapartida, o contato com o meio ambiente é visto de forma unânime como o verdadeiro restaurador da saúde mental.
Redes sociais e noticiário são fontes de desesperança: se na rotina privada (família e afetos) o brasileiro se declara feliz, o fluxo incessante de tragédias políticas e climáticas nas redes sociais e noticiários alimenta uma profunda desesperança e impotência sobre o futuro coletivo.
De matriz indígena, o Bem Viver é uma filosofia que propõe uma organização social focada na harmonia entre as pessoas, a comunidade e a natureza. Essa visão de mundo defende que o verdadeiro progresso depende de relações de cuidado, cooperação, justiça social e sustentabilidade, reconhecendo que o bem-estar individual é inseparável do coletivo. Já consagrado nas Constituições do Equador e da Bolívia, o Bem Viver é mais que um conceito: é uma bússola para a organização política da sociedade e uma matriz concreta para o desenho de políticas públicas.
“A expectativa do Projeto Desapocalíptica é de que os achados deste termômetro inspirem essa conversa urgente nas urnas, permitindo ao país prosperar, e não apenas sobreviver, como nação e espécie”, afirma Nana Queiroz.
Sobre o Projeto Desapocalíptica:
A Desapocalíptica é um movimento cultural criado pela Avaaz que busca combater o sentimento de paralisia diante das crises atuais, como a crise climática e as políticas da exaustão. O movimento debate problemas sociais profundos sob a ótica de soluções, humor e construção de comunidade, funcionando como um espaço de mobilização on e offline que incentiva a ação coletiva para nos libertarmos do isolamento e da paralisia gerada pelas notícias.
(Crédito: Divulgação)