Katia Vaz Perez Alves Bacariça resgata ancestralidade e tradições da Umbanda em “A Menina que Via Iemanjá”

Luca Moreira
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Katia Vaz Perez Alves Bacariça
Katia Vaz Perez Alves Bacariça

Em “A Menina que Via Iemanjá”, a yalorixá e escritora Katia Vaz Perez Alves Bacariça transforma memória familiar, espiritualidade e tradição em uma narrativa de acolhimento e pertencimento. Inspirada na trajetória de sua avó Marina, liderança religiosa que dedicou décadas à condução de um terreiro de Umbanda, a obra apresenta ensinamentos sobre os Orixás, a história da religião e a importância da ancestralidade na formação da identidade. Em entrevista, Katia fala sobre o legado transmitido entre gerações, a missão de ampliar o conhecimento sobre a Umbanda e o papel da fé como instrumento de força, esperança e transformação.

 “A Menina que Via Iemanjá” nasce de um legado espiritual e familiar muito profundo. Em que momento você sentiu que essa herança precisava ganhar forma de livro?

Eu acredito que algumas histórias não escolhem apenas ser lembradas — elas pedem para ser preservadas. Eu nasci na Umbanda e durante muitos anos, vivi cercada por ensinamentos, experiências espirituais e relatos que fizeram parte da minha infância, da minha família e da trajetória do terreiro Reino de Iemanjá e Nanã. Em determinado momento, percebi que aquilo não podia permanecer apenas na memória afetiva de quem viveu tudo isso. O livro nasceu dessa necessidade de registrar uma herança espiritual e humana muito rica, mas também de transformar vivências em acolhimento para outras pessoas. “A Menina que Via Iemanjá” é, ao mesmo tempo, uma homenagem, um testemunho e um convite ao entendimento da espiritualidade através do afeto, da ancestralidade e da fé.

A obra homenageia sua avó Marina e, ao mesmo tempo, inaugura uma série. O que existe nessa figura ancestral que ultrapassa a memória pessoal e se transforma em símbolo de continuidade?

Minha avó Marina representa muito mais do que uma lembrança familiar. Ela simboliza a força ancestral de mulheres que acolhem, orientam, sustentam espiritualmente suas famílias e deixam marcas profundas nas pessoas ao redor. Ao escrever sobre ela, percebi que sua trajetória ultrapassa a esfera pessoal porque fala também sobre continuidade, tradição oral, cuidado e espiritualidade viva. Marina se transforma em símbolo porque sua presença permanece através dos ensinamentos, da fé e da missão que seguem ecoando nas próximas gerações. Existe algo muito poderoso quando percebemos que o amor e a sabedoria de alguém continuam influenciando vidas mesmo após o tempo passar.

Ao apresentar os Orixás não apenas como divindades, mas também como referências simbólicas para a vida cotidiana, você aproxima a espiritualidade do dia a dia. O que mais te interessava revelar com esse olhar?

O que mais me interessava era justamente mostrar que espiritualidade não está distante da vida comum. Muitas vezes as pessoas enxergam os Orixás apenas como figuras religiosas, mas existe também um ensinamento humano muito profundo em cada energia representada por eles. Iemanjá fala sobre acolhimento, Oxum sobre autoestima e sensibilidade, Iansã sobre coragem e movimento, Xangô sobre justiça e equilíbrio. Meu desejo era aproximar esses ensinamentos da experiência cotidiana, mostrando que a espiritualidade também pode ser uma ferramenta de fortalecimento emocional, autoconhecimento e transformação interior.

O livro também contextualiza a Umbanda como expressão do sincretismo brasileiro, fruto do encontro entre tradições africanas, indígenas e europeias. Por que era importante, para você, unir ensinamento espiritual e dimensão histórica na mesma obra?

Porque compreender a Umbanda também exige compreender sua origem, sua resistência e sua importância cultural dentro da formação do Brasil. Muitas vezes as religiões de matriz africana são vistas de forma superficial ou cercadas por preconceitos construídos historicamente. Trazer a dimensão histórica para a obra foi uma maneira de mostrar que existe uma riqueza espiritual, cultural e humana muito profunda nesse encontro de tradições africanas, indígenas e europeias. Mais do que apresentar fundamentos religiosos, eu queria oferecer contexto, reflexão e conhecimento, ajudando o leitor a enxergar a Umbanda com mais respeito e consciência.

Há algo muito forte na ideia de que a fé pode ser também espaço de escuta, solidariedade e esperança. Como os relatos reais presentes no livro ajudam a mostrar essa dimensão comunitária da Umbanda?

Os relatos reais têm um papel muito importante porque mostram a espiritualidade acontecendo na vida concreta das pessoas. Muitas vezes alguém chega ao terreiro carregando dor emocional, medo, perdas ou momentos de fragilidade, e encontra acolhimento, escuta e esperança. A Umbanda possui uma dimensão comunitária muito forte, baseada na caridade, no cuidado e na orientação espiritual. Ao incluir experiências reais no livro, eu quis mostrar justamente esse lado humano da fé — uma fé que não se limita ao ritual, mas que também ampara, fortalece e ajuda pessoas a reencontrarem equilíbrio em momentos difíceis.

Você escreve a partir de uma linhagem viva, marcada pelo terreiro Reino de Iemanjá e Nanã e pela atuação da sua avó, do seu avô, da sua mãe e agora de você e sua irmã. O que significa, emocional e espiritualmente, ocupar hoje esse lugar de continuidade?

Significa carregar uma grande responsabilidade, mas também um sentimento muito profundo de honra e gratidão. Existe emoção em perceber que fazemos parte de uma história construída com dedicação espiritual, acolhimento e amor ao próximo ao longo de gerações. Ao mesmo tempo, existe o compromisso de preservar essa essência com respeito e verdade. Eu vejo essa continuidade não apenas como herança familiar, mas como missão espiritual. É dar sequência a um legado de fé, cuidado e orientação, mantendo viva uma tradição que transformou e continua transformando vidas.

Em um país onde ainda existe tanto desconhecimento e preconceito em relação às religiões de matriz africana, o livro também parece cumprir um papel de acolhimento e esclarecimento. O que você mais gostaria de transformar na visão das pessoas sobre a Umbanda?

Gostaria que as pessoas enxergassem a Umbanda com menos medo e mais humanidade. Grande parte do preconceito nasce justamente da falta de conhecimento. A Umbanda é uma religião baseada na caridade, no acolhimento, na espiritualidade e no amor ao próximo. Existe muita beleza, sabedoria e sensibilidade dentro dessa tradição. Se o livro puder ajudar alguém a olhar para as religiões de matriz africana com mais respeito, empatia e abertura, então ele já estará cumprindo uma missão muito importante.

Você afirma que a principal mensagem da obra é mostrar a espiritualidade como fonte de força, acolhimento e transformação. Quando alguém terminar essa leitura, que sentimento ou aprendizado gostaria que permanecesse no coração dessa pessoa?

Eu gostaria que a pessoa terminasse a leitura sentindo acolhimento. Que percebesse que espiritualidade também pode ser um caminho de fortalecimento emocional, esperança e reconexão consigo mesma. Mais do que transmitir conhecimento sobre os Orixás e sobre a Umbanda, meu desejo é tocar emocionalmente o leitor, mostrando que fé também pode ser amor, escuta, equilíbrio e transformação interior. E espero, acima de tudo, que fique no coração das pessoas uma mensagem de respeito — respeito pela ancestralidade, pela espiritualidade e pelas diferentes formas de viver a fé.

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