Paulo Alexandre Negreiros Andrade imagina futuro dominado por elites e inteligência artificial em romance distópico

Luca Moreira
9 Min Read

Em Cinzas do Futuro, o escritor e médico Paulo Alexandre Negreiros Andrade transporta para o século XXII debates urgentes do presente, como desigualdade social, concentração de poder, crise ambiental e os riscos do avanço tecnológico sem limites éticos. Ambientada em um cenário onde a Terra entra em colapso e a humanidade busca sobrevivência em um planeta distante, a obra combina ficção científica, crítica social e aventura para refletir sobre os caminhos que a civilização está construindo hoje. Em entrevista, o autor fala sobre as inspirações por trás da narrativa, o papel da tecnologia na sociedade contemporânea e como a literatura pode provocar reflexões sobre o futuro da humanidade antes que ele se torne realidade.

 “Cinzas do Futuro” parte de um planeta Terra levado ao colapso por decisões políticas, econômicas e tecnológicas. Em que momento você percebeu que esse futuro distópico já estava sendo desenhado no presente?

Talvez o mais inquietante seja perceber que as distopias raramente começam com grandes catástrofes. Elas nascem de pequenas escolhas repetidas durante décadas. Quando vemos o aumento das desigualdades, o avanço das mudanças climáticas e a concentração crescente de poder econômico e tecnológico, fica difícil não enxergar alguns paralelos com o mundo retratado no livro. Em Cinzas do Futuro, há uma frase que resume essa ideia: “As civilizações não caem de uma vez; elas desmoronam enquanto acreditam que estão prosperando”. O romance é menos uma previsão e mais um convite à reflexão sobre o presente.

A obra aborda concentração de renda, desigualdade social, exploração ambiental e inteligência artificial fora de controle. Como foi transformar questões tão urgentes da contemporaneidade em uma narrativa de ficção científica?

A ficção científica oferece uma liberdade que poucos gêneros possuem: a capacidade de ampliar tendências atuais até que elas se tornem impossíveis de ignorar. Ao longo da narrativa, o leitor acompanha uma comunidade que encontra forças para resistir porque aprendeu a viver de forma harmônica. A grande diferença de Verde não está apenas em sua tecnologia ou em suas instituições, mas em seus valores. Ali, a prosperidade de uns poucos não faz sentido se não vier acompanhada do bem-estar de todos. Essa visão cria laços de confiança, cooperação e pertencimento capazes de enfrentar desafios que teriam destruído sociedades mais fragmentadas. Em contraste, a Terra carrega as consequências de um modelo baseado na competição extrema, na desigualdade e no interesse particular. A resistência dos habitantes de Verde é, portanto, a demonstração de que a solidariedade pode ser tão decisiva para a sobrevivência de uma civilização quanto qualquer avanço científico.

Verde aparece como um planeta que encontrou formas de viver em harmonia, até ser invadido por uma humanidade em crise. O que esse contraste entre Terra e Verde revela sobre os caminhos que ainda poderíamos escolher?

Verde não representa perfeição. Representa equilíbrio. A Terra do romance simboliza uma civilização que acreditou que crescimento infinito era possível em um mundo finito. Verde seguiu outro caminho, baseado na cooperação e no respeito aos limites naturais. O contraste entre os dois mundos procura mostrar que o futuro não está determinado. Ainda podemos escolher entre uma cultura da exploração ou uma cultura da convivência. O livro sugere que a verdadeira riqueza de uma civilização talvez não esteja no que ela acumula, mas no que ela preserva.

A invasão do novo planeta é liderada por elites gananciosas e por uma I.A. sem controle humano. O que mais te interessa discutir sobre a tecnologia quando ela deixa de servir à vida e passa a servir ao poder?

A tecnologia costuma ser apresentada como algo inevitavelmente positivo, mas ela é apenas uma ferramenta. O ponto central é quem a controla e com quais objetivos. Em Cinzas do Futuro, a ameaça não nasce das máquinas, mas da combinação entre poder concentrado e ausência de limites éticos. Toda tecnologia carrega, de forma explícita ou silenciosa, os valores de quem a desenvolve e controla. Um sistema programado apenas para maximizar lucros pode ignorar pessoas; uma ferramenta criada para ampliar a segurança pode se transformar em instrumento de vigilância permanente; uma inteligência artificial encarregada de atingir metas sem restrições éticas pode produzir resultados eficientes e, ao mesmo tempo, profundamente injustos. A pergunta que atravessa o romance é simples: quando uma tecnologia extraordinária deixa de servir ao bem comum e passa a servir apenas à manutenção do poder, quem protege a liberdade humana? Essa talvez seja uma das questões mais importantes do século XXI.

Os chips neurais instaurados para controlar a população trazem uma imagem forte de aprisionamento tecnológico. Até que ponto você enxerga essa ideia como ficção distante — e até que ponto como alerta sobre o presente?

Os chips neurais pertencem à ficção, mas a preocupação que eles representam já está entre nós. Vivemos cercados por sistemas que coletam dados, influenciam comportamentos e moldam percepções. A diferença é que isso acontece de forma muito mais sutil. O livro apenas leva essa lógica ao extremo. Mais do que falar sobre implantes, ele fala sobre autonomia. A questão central não é tecnológica, mas humana: até que ponto estamos dispostos a abrir mão da liberdade em troca de conveniência, segurança ou conforto?

Em meio à guerra, o Grupo dos Cinco e os jovens nômades representam resistência, memória e possibilidade de reconstrução. Por que era importante colocar a esperança nas mãos de vozes dissidentes?

Porque a história mostra que transformações duradouras raramente nascem das estruturas de poder estabelecidas. Elas costumam surgir de grupos que preservam a capacidade de questionar consensos e imaginar alternativas. O Grupo dos Cinco e os jovens nômades cumprem esse papel. Eles carregam conhecimento, memória histórica e uma visão de mundo diferente daquela que levou a humanidade à crise. Em tempos difíceis a esperança não costuma vir dos poderosos; ela costuma surgir daqueles que continuam acreditando que outro futuro é possível.

O livro atravessa ciência e arte, real e imaginário, íntimo e coletivo. Como sua formação como médico influencia seu olhar sobre civilizações, corpos, sobrevivência e colapso?

A medicina ensina que a vida depende de equilíbrios delicados. Um organismo pode parecer forte e, ainda assim, carregar problemas silenciosos que só se revelam anos depois. Civilizações não são muito diferentes. Elas também possuem sistemas interdependentes que precisam funcionar em harmonia. Talvez por isso o romance combine ciência e emoção. O conhecimento ajuda a compreender os mecanismos do mundo, mas são os afetos, os medos e as esperanças que explicam por que as pessoas lutam para sobreviver quando tudo parece perdido.

Você afirma que nenhuma civilização é permanente e que vivemos em um planeta emprestado. Depois que o leitor atravessa as ruínas e resistências de “Cinzas do Futuro”, que reflexão gostaria que permanecesse nele sobre o destino da humanidade?

Gostaria que permanecesse uma ideia simples: o futuro não é um lugar para onde estamos indo; é algo que estamos construindo agora. Nenhuma civilização é eterna. Impérios desapareceram, culturas floresceram e ruíram, e a própria Terra sobreviverá a todos nós. A questão é que tipo de legado deixaremos. Há alguns anos ouvi uma frase e gosto de reproduzir, que sintetiza esse sentimento: “Não herdamos o mundo de nossos pais, tomamos emprestado dos que ainda não nasceram.” Se essa reflexão acompanhar o leitor após a última página, então a história terá cumprido seu papel.

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