Com guitarras intensas, atmosfera crua e referências ao rock alternativo dos anos 1990, o projeto musical Capim Cósmico apresenta o single Capivara & Fuzz, faixa que transforma inquietações emocionais, hábitos repetitivos e pensamentos intrusivos em uma experiência sonora carregada de personalidade. Liderado pelo músico e compositor Mateus Cursino, o projeto inaugura uma nova fase artística marcada pelo trabalho coletivo da banda e por uma identidade sonora ainda mais definida. Em entrevista, Mateus fala sobre o simbolismo por trás da canção, as influências que moldaram o lançamento e os próximos passos de uma trajetória construída a partir da experimentação e da autenticidade musical.
“Capivara & Fuzz” transforma a figura da capivara em símbolo de vícios, hábitos repetitivos e pensamentos intrusivos. Em que momento essa imagem começou a fazer sentido para traduzir esse ruído interno?
Eu descobri, por intermédio da própria internet, que capivara na língua original tupi-guarani significa “comedor de capim”. Aí fez total sentido incluir a capivara no meu quintal, devorando “plantações”. Um animal extremamente pacífico que se alimenta de capim. Capim Cósmico tem muito dessa relação com os delírios da mente, a conexão com o universo, com os seres vivos e o divino. O divino me aparece repetidamente, em diversos momentos, porém, com mais intensidades, nos meus delírios.
A faixa parece caminhar entre conforto e desconforto, lucidez e confusão. Como foi construir uma música que não entrega uma mensagem fechada, mas uma sensação quase física?
A letra nasceu de um momento de confusão e perturbação da minha mente. Eu estive preso numa paranoia que envolvia ansiedade e alguns delírios. Fiquei um tempo com insônia e tal. Tudo isso foi combustível pra que a música existisse. Ela nasceu da necessidade de compor num período delicado sobre algo pessoal e que pode ser algo que acontece com diversas pessoas iguais à mim.

O “fuzz” aparece como uma representação desse barulho mental, mas também como elemento estético da faixa. Para você, até que ponto o som distorcido ajuda a dizer aquilo que a letra talvez não diga sozinha?
O Rock, com suas guitarras distorcidas, talvez seja a melhor forma de expressar barulhos mentais. Acredito que outros estilos, talvez excetuando o rap, não tenham tal liberdade. O que se vê geralmente nos estilos mais populares no Brasil são letras falando sobre curtição e como a vida é “maravilhosa” na sua ostentação. Eu não prezo por ostentação nenhuma. Então o fuzz se encaixou perfeitamente na minha composição. Não só esteticamente, mas poeticamente. O ruído né, a vida se resume muitas vezes em barulho e ruído.
O single traz guitarras quase desafinadas, baixo pulsante e uma bateria direta, com influência do rock alternativo dos anos 90. O que essa sonoridade mais crua permite expressar sobre o momento atual do Capim Cósmico?
O Capim Cósmico nasceu de um projeto pessoal meu (Mateus Cursino). Quase todas as musicas do disco que será lançado em Agosto pela Marã Musica foram gravados por mim sozinho no estúdio. Eu toquei bateria e todos os demais instrumentos. Então, o disco está bem cru, acho que me inspirei no primeiro disco do Foo Figthers no qual o Dave gravou tudo sozinho. Só que depois que terminei as gravações, eu formei uma banda. E aí o projeto tomou outra forma, muito melhor do que eu imaginei de início.

Você contou que a música nasceu de um riff e ganhou força com a nova formação da banda. Como Alberto Barbosa e Fernando de Paula ajudaram a transformar essa ideia inicial em uma faixa mais viva e coletiva?
Os meus dois amigos e integrantes fixos do Capim Cósmico me ajudaram a transformar o projeto em uma banda. Os caras lapidaram a música que eu apenas rascunhei. Desta vez não precisei sentar na bateria e iniciar a gravação. Até pq, por ter gravado o disco quase que sozinho, eu estava exausto. Precisava de uma ajudinha dos brothers. E foi foda demais tê-los efetivamente comigo. A parceria saiu apenas do espectro de shows e foi se transformar numa parceria de arranjos e aquela composição crua, ganhou uma vida na mão dos caras muito diferente do que eu imaginei.
Há algo muito interessante na mistura entre humor, caos e introspecção em *“Capivara & Fuzz”*. Como você equilibra essa leveza quase absurda com temas emocionalmente mais densos?
Esse é o exato ponto das coisas (rs). Pode atrapalhar, mas é intencional, muita gente não entende que estou falando de um tema sério, de algo perturbador por qual eu passei. Na real, eu tenho de suavizar e deixar de alguma forma mais palatável. Só que estou falando de algo que são problemas pelos quais muita gente sempre passa e sempre vai passar com a rotina cotidiana e maluca que vivemos atualmente. Aí tem gente que não leva a sério, fazer o que. Não dá pra agradar gregos e troianos.
O lançamento parece marcar uma nova fase artística do Capim Cósmico, mais definida na sonoridade e na estética. O que você sente que ficou mais claro sobre a identidade do projeto agora?
Acho que principalmente no estilo da banda. Acredito que consegui chegar num formato ideal, onde consigo aliar o rock alternativo com o rock psicodélico. O psicodélico é muito forte na minha formação musical pois passei boa parte da minha vida mergulhado na discografia de bandas como Os Mutantes e Beatles dos discos Sgt Peppers e Revolver. Mas também, durante a adolescência, eu só ouvir Nirvana e Ramones. Alinhar o punk, o psicodélico e o alternativo foi o que consegui com o projeto Capim Cósmico.
Depois de experiências em palcos como o Sesc Belenzinho, festivais como o Hacktown e sua trajetória anterior com os Velhos Aspargos, que lugar “Capivara & Fuzz” ocupa na sua caminhada como compositor e artista independente?
Acho que encontrei o meu caminho, a composição veio do meu âmago. Claro que todas essas outras referencias e bandas foram fundamentais pra chegar num momento em que eu tenho muito mais clareza do que devo fazer musicalmente e artisticamente. Mas acredito que agora, já com todas essas experiencias anteriores, vivo o meu melhor momento (rs).
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