KIAROSCURO estreia com narrativa conceitual que une rock progressivo, brasilidade e cinema sonoro

Luca Moreira
15 Min Read
KIAROSCURO (Alexandre Chang)

Com o lançamento do single O Mundo Inteiro, o projeto autoral KIAROSCURO apresenta ao público o primeiro capítulo de um universo artístico que combina rock progressivo, influências da música brasileira e uma forte abordagem cinematográfica. Idealizado pelo músico e guitarrista Tiago Almeida, o trabalho propõe uma reflexão sobre crescimento, pertencimento, vulnerabilidade e transformação por meio de uma narrativa conceitual que se desenvolverá nos próximos lançamentos. Em entrevista, Tiago fala sobre a construção desse projeto ambicioso, as referências que inspiraram sua identidade sonora e o desafio de transformar música, imagem e história em uma experiência única e imersiva.

 “O Mundo Inteiro” marca a estreia oficial do KIAROSCURO, mas também parece carregar anos de amadurecimento artístico. Em que momento você sentiu que esse universo finalmente estava pronto para começar a ser apresentado?

Acredito que, como acontece com muita gente, tudo começou pelo ouvido. Sempre escutei música de muitos estilos diferentes: do rock clássico ao rock moderno, passando por metal, música clássica, blues antigo com gravações muito precárias, jazz, folk, músicas de outros países e cenas menos conhecidas. Aos poucos, fui tentando entender como tudo isso poderia caber dentro da minha própria linguagem.

Eu também nunca consegui me enxergar 100% dentro de um único gênero musical. Amo hard rock, por exemplo, mas não me vejo como um “hard rocker”, me sinto deslocado no grupo. Gosto muito de folk de vários lugares, mas também nunca me vi pertencendo a esse universo. Não acho que consigo colaborar para esses nichos, músicos ótimos já estão fazendo isso de forma muito mais verdadeira do que eu faria. Em algum momento, decidi me permitir fazer a música que estava na minha cabeça, sem me preocupar tanto com rótulos. Fui desenvolvendo isso por muitos anos, às vezes de forma mais exagerada, outras de forma mais tímida, até encontrar uma dose de mistura que eu conseguisse transformar em algo coeso.

Acho que o momento em que senti que o KIAROSCURO estava pronto veio quando percebi que ele já não era apenas um conjunto de ideias, mas um universo com identidade própria. Sempre gostei muito de álbuns conceituais e de obras que criam uma atmosfera maior do que a faixa isolada. Durante muito tempo, eu tinha ideias soltas: temas, imagens, referências sonoras, histórias pessoais, elementos visuais. Mas foi quando tudo começou a se conectar — narrativa, estética, letras, arranjos e sonoridade — que senti que o projeto finalmente podia ser apresentado.

“O Mundo Inteiro” carrega muito desse amadurecimento porque nasce de algo íntimo, mas aponta para uma obra maior. Ela abre a porta para a história do personagem e também para o tipo de experiência que quero construir com o KIAROSCURO: algo emocional, conceitual, visual e sonoramente intenso.

A faixa acompanha a infância e a adolescência do personagem central, sob o olhar dos pais. O que te interessava explorar nessa perspectiva de proteção, vulnerabilidade e medo diante de um mundo tão grande?

Me interessava muito olhar para esse momento da vida pela perspectiva de quem ama e, ao mesmo tempo, sente medo. Existe algo muito forte na figura dos pais, ou de quem cuida: eles querem proteger, preparar, entregar tudo, mas muitas vezes também carregam suas próprias limitações, inseguranças e dores.

A música fala sobre esse desejo de dar “o mundo inteiro” para alguém, mesmo quando talvez você mesmo não tenha tido acesso a quase nada. Existe uma vulnerabilidade muito grande nisso. Não é uma proteção perfeita ou idealizada, é uma proteção humana. É o olhar de quem sabe que o mundo pode ser duro, desigual e caótico, mas ainda assim tenta preservar no outro a capacidade de sonhar.

Também sempre me interessei por histórias meio amargas. Não acredito muito em narrativas totalmente catastróficas nem totalmente belas. O meio-termo sempre me pareceu mais real e mais interessante. “O Mundo Inteiro” tem esse lugar: é uma música sobre amor e esperança, mas sem ignorar o medo, a desigualdade e a dureza do mundo.

Além disso, dentro da narrativa do álbum, esse era o início mais natural. A história começa quando esse personagem nasce, cresce, observa o mundo pela primeira vez e ainda está muito ligado às suas raízes e à proteção da família. É literalmente o começo da jornada.

KIAROSCURO (Alexandre Chang)

Você fala sobre preservar algo puro em meio a um cenário intenso, desigual e caótico. Que tipo de inocência ou esperança essa música tenta proteger?

Acho que a música tenta proteger aquela esperança que existe antes da vida nos endurecer demais. Não no sentido de ingenuidade, mas de uma força muito bonita que aparece na infância: a capacidade de imaginar possibilidades, acreditar que existe caminho, olhar para o mundo com curiosidade e não apenas com medo.

“O Mundo Inteiro” fala muito sobre crescer em um ambiente onde o jogo já começa desigual, mas ainda assim manter algum tipo de luz. Existe uma inocência que não é fraqueza. Pelo contrário, ela pode ser uma forma de resistência. A música tenta preservar esse lugar interno onde ainda é possível sonhar, amar e acreditar que a vida pode ser maior do que as condições que nos foram dadas.

Também vejo essa fase da vida como um momento em que absorvemos tudo com muita intensidade. Somos uma espécie de molde ainda flexível. Depois, infelizmente, algumas coisas vão se enrijecendo, e precisamos lidar com isso. Muito do mundo — propaganda, política, tecnologia, mercado, discursos prontos — se aproveita justamente desse endurecimento para matar nossas raízes, nossa curiosidade e nossa capacidade de imaginar outras formas de vida. Isso começa a aparecer com mais força nas próximas canções.

Sonoramente, a canção começa quase como uma abertura de filme e cresce até um final mais denso e cinematográfico. Como foi pensar a estrutura da música como uma narrativa em movimento?

Desde o início, eu queria que a música tivesse uma sensação de jornada. Ela não foi pensada apenas como uma canção tradicional, com partes que se repetem de forma previsível, embora ainda tenha verso, ponte e refrão, estruturas que eu gosto muito. A ideia era que ela se desenvolvesse como uma cena em movimento, quase como se o ouvinte acompanhasse o personagem saindo de um lugar mais íntimo e protegido para algo cada vez maior, mais intenso e mais complexo.

Por isso, o começo tem uma atmosfera mais épica, como uma abertura. Aos poucos, os elementos vão entrando, a dinâmica cresce, a banda ganha mais peso e a música vai ficando mais cinematográfica. Esse crescimento acompanha a própria narrativa: a infância, a descoberta do mundo, o medo, a esperança e a intensidade de perceber que existe algo muito maior lá fora.

Também escolhemos propositalmente não pesar tanto a mão nos elementos mais digitais e elétricos nessa primeira faixa, justamente porque o personagem ainda está próximo das suas raízes. Conforme as próximas músicas avançam e outras influências chegam na vida dele, esses elementos começam a aparecer com mais força. A sonoridade também acompanha a transformação do personagem.

O projeto dialoga com o rock progressivo, o rock conceitual e também com referências brasileiras muito fortes. Como você encontrou um caminho para unir peso, brasilidade, experimentação e identidade própria?

Esse foi um dos maiores desafios e também uma das coisas que mais me interessaram no KIAROSCURO. Eu venho de uma formação muito ligada ao rock, ao metal, ao progressivo e a bandas conceituais como Pink Floyd, Porcupine Tree, Genesis e tantas outras. Mas, ao mesmo tempo, existe uma bagagem latina muito forte na minha escuta, especialmente de artistas que buscaram manter suas raízes enquanto experimentavam em cima delas.

Penso em nomes como Clube da Esquina, Secos & Molhados, Os Mutantes, Almir Sater, Raul Seixas, o próprio Angra, Sepultura e, mais recentemente, Papangu. São artistas e bandas muito diferentes entre si, mas que, de alguma forma, mostram que é possível dialogar com linguagens internacionais sem abandonar o lugar de onde se vem.

O caminho foi tentar não tratar essas referências como colagens óbvias, mas como partes naturais da linguagem do projeto. O peso está ali, a atmosfera progressiva também, mas existe uma preocupação com melodias, texturas acústicas, ritmos, harmonias e imagens que têm muito a ver com a nossa terra. A identidade própria veio justamente dessa tentativa de não escolher entre uma coisa e outra. O KIAROSCURO nasce desse contraste.

A composição começou de forma simples, com voz e violão, antes de ganhar camadas, arranjos e atmosfera. O que mudou na música à medida que ela deixou de ser uma ideia íntima e passou a se tornar parte de uma obra maior?

Quando a música nasceu no violão, ela já tinha uma emoção central muito clara. Era algo mais direto, quase como uma conversa. Mas, à medida que entrou no universo do KIAROSCURO, ela começou a ganhar contexto. Deixou de ser apenas uma canção sobre um sentimento específico e passou a ser o primeiro capítulo de uma história maior.

Com os arranjos, a música ganhou escala. As camadas de guitarra, bateria, vozes, texturas e atmosferas ajudaram a ampliar aquilo que já estava na composição original. O sentimento íntimo continuou ali, mas agora cercado por um mundo maior.

Acho que essa é uma das ideias mais importantes do projeto: partir de algo pessoal e transformar isso em narrativa, imagem, som e experiência. A música não perdeu sua origem simples, mas passou a carregar também o peso de abrir uma porta para todo o universo que vem depois.

O visualizer em colagens promete trazer beleza, estranhamento e certo desconforto, sem apenas ilustrar literalmente a faixa. O que a imagem permite revelar sobre o KIAROSCURO que a música sozinha talvez não dissesse?

A imagem permite mostrar o contraste de forma muito imediata. O próprio nome KIAROSCURO já traz essa ideia de luz e sombra, beleza e desconforto coexistindo. O visualizer em colagens ajuda a traduzir isso visualmente, sem precisar explicar tudo de forma literal.

Eu não queria um vídeo que apenas “contasse” a letra. A ideia era criar uma camada paralela, quase como uma memória fragmentada ou um sonho estranho. A linguagem da colagem, que veio da direção do Molho Crocante e também dialoga com a capa feita pelo Leo Serezuela, tem essa força: ela junta elementos que nem sempre pertencem ao mesmo lugar, cria tensão, deslocamento, beleza e ruído.

Isso revela muito sobre o projeto, porque o KIAROSCURO não é só sobre contar uma história, mas sobre construir uma atmosfera. Às vezes, a imagem consegue acessar sensações que a palavra e a música sugerem, mas não explicam completamente. Ela amplia o universo e deixa algumas perguntas no ar, o que me interessa bastante.

 “O Mundo Inteiro” é apresentado como o primeiro capítulo de uma narrativa conceitual que seguirá nos próximos lançamentos. Que tipo de jornada você espera que o público aceite atravessar junto com o KIAROSCURO?

Eu espero que o público aceite atravessar uma jornada emocional e simbólica. “O Mundo Inteiro” é o começo, um ponto de partida mais ligado à infância, à formação, às raízes e ao desejo de proteger algo essencial. Mas, ao longo dos próximos lançamentos, essa história vai se expandir para temas como deslocamento, identidade, cidade grande, alienação, tecnologia, perda de conexão e a tentativa de reencontrar algum sentido.

Não quero que seja uma experiência fechada ou explicada demais. Gosto da ideia de que cada pessoa possa se reconhecer em partes diferentes da narrativa. O personagem pode ser alguém específico, mas também pode ser qualquer um de nós.

No fundo, a jornada do KIAROSCURO é sobre sair para o mundo, se perder um pouco nele e tentar descobrir o que ainda vale a pena preservar no caminho.

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