Em Fazenda Camélia, a escritora Katia Parente conduz o leitor a uma trama marcada por segredos familiares, lendas do folclore brasileiro e elementos fantásticos ambientados nas montanhas de Minas Gerais. A obra acompanha Pietra, uma especialista em biotecnologia que retorna às origens da família e descobre que a fazenda herdada guarda mistérios envolvendo mortes antigas, pactos, criaturas sobrenaturais e guardiões ligados à proteção da natureza. Em entrevista, a autora fala sobre a construção desse universo que une suspense, ancestralidade e sustentabilidade, transformando o Brasil profundo em cenário para uma narrativa de descoberta, legado e reconciliação com o passado.
“Fazenda Camélia” nasce entre as brumas das montanhas de Minas Gerais, misturando herança rural, mistério familiar e fantasia. Em que momento você percebeu que esse cenário poderia guardar uma história tão ancestral?
Quando estive na fazenda da família da minha amiga em Minas Gerais, ela e os irmãos contaram muitas histórias, desde quando o bisavô comprou as terras, depois dividiu entre os filhos. Essas histórias de família são muito ricas, então juntei as que eu ouvi lá, com aquelas que meus pais contam. Além disso, a própria região é muito inspiradora, com paisagens lindas e uma vida rural simples, do tipo que deixa o café com bolo ter um sabor diferente. Por isso achei que seria o cenário ideal para uma história desse tipo.
Pietra é uma especialista em biotecnologia que deixa o ambiente racional dos laboratórios para encarar os silêncios da fazenda Poço Fundo. O que te interessava explorar nesse confronto entre ciência, memória e inexplicável?
Atualmente tenho ouvido muito sobre o paralelo da ciência com a espiritualidade. Talvez o avanço da física quântica tenha despertado isso nas pessoas. E o que mais me instiga é que acredito que as duas não devem estar separadas. Ciência e misticismo andam juntos, são duas pontas de uma mesma linha. O misticismo traz a intuição, a ciência desenvolve. Então, colocar o conflito do pensamento racional com as questões da mente humana me pareceu pertencer a essa narrativa, tão absorvida pelas crenças e superstições da população.
A propriedade da família Ferrazzo permaneceu em segredo por 28 anos e passa a revelar verdades incômodas sobre o passado. Como foi construir esse mistério em torno de uma herança que é também emocional e simbólica?
Para mim escrever é sempre uma aventura. Criar um cenário como esse não foi fácil. Confesso que precisei de muito papel e lápis para anotar datas e nomes, do contrário teria me perdido. Não é a primeira vez que escrevo sobre um drama familiar com acontecimentos ancestrais. No livro Herança Sombria fiz isso pela primeira vez, mas este da Fazenda Camélia foi muito mais complexo. E a experiência foi incrível. É como viajar no tempo, pesquisando lugares e acontecimentos contemporâneos. Sem contar que me coloquei no lugar da Pietra, ser enganada dessa forma não é algo fácil de aceitar, muito menos descobrir as maldades e outros problemas que ela descobre ao longo das páginas. Escrever esse livro foi como viver outra vida, sem dúvida.
Diários antigos, registros e lembranças familiares ajudam Pietra a desconfiar que a morte dos pais não foi mero acaso. O que te atrai na ideia de que o passado sempre deixa rastros, mesmo quando alguém tenta enterrá-lo?
Gosto muito de avanços tecnológicos e ideias novas, sou aquariana, afinal! No entanto, se não conhecermos nosso passado, não há como melhorar o futuro. E o passado, ao menos por enquanto, pode ser conhecido por cartas escritas a mão, cadernos descobertos depois de mexer em armários daqueles que se foram, discos antigos, jornais e revistas. Esses registros são a história da vida de alguém. Fazem parte da família e há uma certa magia nesse material. Imagina descobrir um diário de uma pessoa da família que você nem conheceu. Com certeza, ler esse diário vai te fazer viajar no tempo e saber de onde você veio, o que aconteceu para que você chegasse até aqui. E pode ser que uma parte dessas descobertas não seja tão boa. Alguém pode querer deixar o segredo enterrado, porém, a briga para desenterrá-lo é o que torna a aventura mais interessante.

A figura do “Cabeludo” surge como uma ameaça concreta, ligada a pactos antigos e tragédias familiares. Por que você quis trazer o folclore brasileiro para dentro de um thriller com contornos mais sombrios e tangíveis?
O folclore brasileiro é muito rico e acho que deve ser explorado. E para atingir um público maior, não deve ser contado apenas como histórias infantis. Conhecemos a Cuca, o Saci e o Curupira, por exemplo, pelos livros da escola. Entretanto, são personagens um tanto sinistros, se levarmos em conta as suas habilidades. A Cuca pode ser perversa, o Curupira pode acabar com a vida daqueles que entram na floresta para caçar animais. Temos um potencial para livros e filmes de suspense tão bom quanto o de qualquer mitologia nórdica ou grega. Eu gosto de uma boa história de suspense, com fenômenos paranormais e mistérios inexplicáveis, penso que podemos explorar o conteúdo brasileiro, com as diversas lendas que circulam, principalmente pelas cidades pequenas do interior do país.
O livro também dialoga com lendas como o lobisomem e a cuca, resgatando elementos do Brasil profundo. Como foi trabalhar essas referências sem tratá-las apenas como assombração, mas como parte viva da identidade dos personagens?
Como o padre Calan do livro fala: “As lendas são tão importantes na vida desse povo, quanto a comida que eles colocam no prato.” Em algumas regiões do Brasil as lendas fazem parte da sociedade, são personagens vivas. Atiçam a criatividade e até a economia da região. Por exemplo o Lobisomem na cidade de Joanópolis, no estado de São Paulo. Por isso, quando comecei a desenvolver as personagens que moram na região da fazenda e vivem da terra, não tinha como deixar de fora as lendas. Incluindo a presença do padre, já que a igreja é parte da comunidade, assim como as lendas. São o que ajudam a construir a cultura local e podem ajudar a identificar características importantes. Para mim é fundamental que as histórias continuem sendo contadas, com boas conversas ao redor de uma mesa, mesmo que seja para desmistificá-las.
A mineração de cristais, os seres iluminados e os avistamentos de ovnis ampliam a narrativa para um universo fantástico ligado à proteção do planeta. Como surgiu essa conexão entre sobrenatural, território e sustentabilidade?
No estado de Minas Gerais há muitas histórias sobre OVNIs, assim como se fala em uma energia especial, visto que é uma região de muitos minerais. Como a minha formação é na área ambiental, em todos os meus livros falo algo sobre essa questão. E acredito que nós, seres humanos, não estamos separados do planeta. Somo parte dele e precisamos viver em harmonia com ele. Foi deste conceito que surgiu a ideia de fazer essa relação. Sem contar que ninguém garante que estamos sozinhos no universo, não é mesmo? Quem já viu um céu estrelado, de purpurina como a Pietra do livro viu, não pode acreditar que só aqui na Terra tem vida. E se soubermos respeitar o limite entre o nosso espaço e do outro, então seremos capazes de viver em paz, com qualquer ser vivo.
Ao transformar a propriedade na Fazenda Camélia, Pietra assume uma missão de proteção e reconciliação com o passado. Depois dessa jornada, que reflexão você gostaria que o leitor levasse sobre legado, raízes e responsabilidade com aquilo que herdamos?
A principal reflexão seria sobre a importância de entender nosso passado. Todos nós temos uma história, viemos de algum lugar e isso contribuiu para construir nossa vida de hoje. Ainda que tenham sido acontecimentos difíceis, como as guerras e os preconceitos, enfatizar isso não é o caminho. Temos que aceitar que aconteceu, que era o pensamento da época, e a partir daí, mudar. Para fazer diferente é preciso conhecer, entender.
Ao herdarmos algo, pode ser uma fazenda ou apenas um hábito, penso ser necessário perguntar: Isso me serve de alguma coisa? Consigo mudar? E então, faça o que tem que ser feito, sem desmerecer, ou menosprezar o havia antes. Não é destruindo as estátuas de supostos heróis do passado, que conseguiremos construir um futuro melhor. Isso vai apenas gerar mais resistência às mudanças e mais ódio. É preciso respeitar o passado, não o repetir.
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