No romance O Rito do Pentagrama, primeiro volume da série Os Artefatos Profanos, o escritor Vitor Truono conduz os leitores a uma trama que combina assassinatos misteriosos, elementos sobrenaturais e os dilemas da adolescência. Enquanto investigam uma sequência de crimes ligados a antigos rituais, os jovens Sarah e Alex também enfrentam o despertar dos primeiros sentimentos, descobrindo que amadurecer pode ser tão desafiador quanto encarar forças desconhecidas. Em entrevista, Vitor fala sobre as inspirações que unem o suspense investigativo de Agatha Christie ao terror juvenil de R. L. Stine, o processo de criação de um universo repleto de enigmas e a forma como temas como saúde mental, dependência química e crescimento pessoal se entrelaçam à fantasia para dialogar com o público jovem.
O Rito do Pentagrama mistura adolescência, paixão, terror e investigação. Em que momento você percebeu que o despertar amoroso de Sarah e Alex poderia caminhar junto com uma trama tão sombria?
Sempre fui leitor assíduo de terror, mistério e thrillers, mas também de diversos tipos de fantasia, drama, conflitos adolescentes à la “Gossip Girl” e até mesmo de chick-lit, com toda sua dose de humor — uma de minhas autoras favoritas é Marian Keyes. Nunca tive qualquer preconceito literário e acredito que isso se refletiu naturalmente na minha escrita e na maneira como incorporei elementos de todos os gêneros que consumo. Foi um processo de criação tão orgânico (e longo) que não houve um momento específico em que decidi reunir elementos românticos, dramáticos e sombrios numa mesma trama. Desde o início, eu sabia que esses ingredientes fariam parte da receita de “O Rito do Pentagrama”, primeiro volume da série “Os Artefatos Profanos”.
Sarah começa a viver pesadelos realistas e visões macabras enquanto tenta entender os assassinatos ao seu redor. O que mais te interessava explorar nessa fronteira entre medo, intuição e amadurecimento?
Busquei criar um equilíbrio entre aquilo que me fascinava no universo do macabro e do desconhecido e o que eu sabia ser importante para os adolescentes e seus dilemas cotidianos. Assim, integrei elementos de ambos os lados: o assustador que paira além do campo da intuição e as situações bastante reais enfrentadas por um jovem em processo de descoberta e amadurecimento. O mais importante para mim foi trabalhar tudo isso da maneira mais verossímil possível, deixando aquela impressão de: “Será que aconteceu mesmo como a personagem contou?” Quis fazer com que a própria crença e o ponto de vista do leitor dialogassem com a trama, inserindo-o na história e criando, assim, uma experiência única e envolvente.
O pentagrama aparece como elemento central dos rituais e conecta amor, perigo e sacrifício. Como surgiu essa escolha simbólica dentro da construção do mistério?
A pesquisa que fiz sobre a figura do pentagrama me deixou fascinado pelos detalhes, então a escolha foi natural. A simetria perfeita, a matemática intrínseca à forma… Não por acaso, ele é utilizado há milhares de anos em rituais e escrituras de diferentes culturas e religiões. Há algo de enigmático em sua complexidade, tornando-o um ícone de poder imediatamente reconhecível. Meu desafio foi desconstruir o lugar-comum que livros, filmes e séries de TV estabeleceram para reintroduzi-lo como um dos artefatos profanos — que serão explorados com maior profundidade nos próximos volumes da série —, que possuem uma mitologia própria. Aproveitei o impacto que o símbolo já desperta para apresentar ao leitor “a minha versão de um pentagrama”: a peça central de um rito de poder que exige o sacrifício do sentimento mais nobre, o amor. Da mesma forma, somente o amor pode conduzir alguém a desvendar os mistérios e enfrentar os perigos necessários para pôr fim a essa obscura busca por poder.
A protagonista decide investigar por conta própria diante da falta de respostas das autoridades. O que essa atitude revela sobre a coragem, a impulsividade e a vulnerabilidade típicas da juventude?
Esse aspecto da trama é importante demais para mim em um nível pessoal. Histórias de pessoas plenamente convictas do que estão vivendo, que não são levadas a sério e, ainda assim, seguem em busca de respostas por conta própria são extremamente emocionantes. Fazem com que você torça pela vitória e para que seja provada a verdade. Existe aí um elemento de fé, de crença absoluta em si mesmo. Esse grau de autenticidade, que persiste apesar da descrença alheia, representa, na minha opinião, uma das maiores formas de coragem. Essa é uma das mensagens que quis deixar aos leitores: numa sociedade em que pertencer a um grupo e estar rodeado de amigos muitas vezes é sinônimo de popularidade e poder, quem não muda apenas para ser aceito, não abre mão de seus valores e opiniões e permanece fiel à própria essência é quem está dez passos à frente.

O livro transita entre fantasia e terror, com amuletos, dons sobrenaturais e experiências sensitivas. Como foi encontrar o equilíbrio entre o extraordinário e as vivências comuns da adolescência?
Como eu vivia minha própria adolescência e fase de autodescoberta quando comecei a escrever esse livro, aos 13 anos, a maioria dos acontecimentos típicos da idade e das cenas ambientadas na escola foi diretamente inspirada no que vivenciei naquela época. Estruturei a narrativa como um romance adolescente repleto de conflitos que, aos poucos, se aproxima do mistério sobrenatural até colidir com o horror dos crimes violentos e o responsável por eles. Essa dinâmica de “dois mundos se interligando” foi a forma que encontrei para equilibrar esses elementos e fazê-los funcionar de maneira satisfatória.
A música tem um papel importante na ambientação, com referências como Pitty e Mariah Carey. De que forma essas canções ajudam a traduzir os sentimentos dos personagens e o clima emocional da história?
Diversas canções de sucesso dos anos 2000, tanto nacionais quanto internacionais, serviram de inspiração para o desenvolvimento das personagens, de cenas específicas, de diálogos e da atmosfera da história como um todo. Algumas letras traduzem sentimentos e pensamentos com enorme precisão, como “Equalize”, da banda Pitty, e “We Belong Together”, de Mariah Carey, que capturam a intensidade do primeiro amor adolescente, a idealização do outro e o escapismo característico da mentalidade juvenil. Ao final, selecionei 29 músicas, uma para cada capítulo, entre todos esses hits que embalaram a escrita do livro, e criei uma playlist oficial no Spotify.
Além do mistério, a narrativa toca em temas como dependência química e saúde mental. Por que era importante inserir essas camadas mais reais dentro de uma trama fantástica e assustadora?
Como presenciei colegas e conhecidos se envolvendo com drogas, além de casos de gravidez na adolescência, acompanhei de perto os momentos difíceis pelos quais esses jovens e suas famílias passaram, bem como tudo o que precisaram sacrificar ao assumir a responsabilidade por suas escolhas. Também fui testemunha de inúmeros episódios de bullying, ansiedade e depressão em uma época em que pouco se falava sobre assédio moral e saúde mental, e menos ainda se fazia para enfrentar esses problemas. Por isso, registrar de maneira crua cenas inspiradas no que realmente vi e vivenciei me pareceu necessário. Além de enriquecerem a ambientação adolescente, tornando-a mais multifacetada, essas camadas convidam à reflexão sobre o quanto avançamos diante desses desafios, sobre a forma como lidamos com eles e sobre o que ainda podemos fazer para preveni-los.
Você cita influências como R. L. Stine e Agatha Christie, mas também fala que o livro nasceu de um fluxo criativo guiado por memórias e emoções. O que essa história revelou sobre você enquanto escritor ao longo do processo?
Essa história é praticamente uma autobiografia trajando diversas fantasias de Halloween. Muitos aspectos da minha personalidade foram transferidos para as personagens de forma natural; as inspirações e homenagens a pessoas reais aparecem em diferentes níveis, desde nomes até uma fala inteira retirada de uma discussão que realmente aconteceu. “O Rito do Pentagrama” não foi o primeiro livro que escrevi, mas foi o primeiro que levei verdadeiramente a sério e que considero minha obra de estreia. Mais do que “uma carta ao meu eu do futuro” — que hoje releio e me faz recordar pessoas, acontecimentos, preferências culinárias e referências culturais —, esse livro provou para mim mesmo que sou capaz de escrever exatamente a história que idealizei, misturando todos os gêneros que eu desejar, quebrando regras, fazendo tudo do meu próprio jeito e, acima de tudo, criando conexões e momentos valiosos com leitores que gostam de se aventurar pelo diferente. Talvez o mais importante seja que esse projeto me permitiu honrar e realizar o sonho do pequeno Vitor, que sempre quis ser escritor.
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