Antônio Carreira Alvim transforma fantasia épica em história sobre superação, amizade e pertencimento

Luca Moreira
11 Min Read

Com apenas 15 anos, o escritor Antônio Carreira Alvim estreia na literatura com Joaquim e Call: O Mundo Submerso, romance que combina fantasia épica, aventura e reflexões sobre os desafios emocionais da adolescência. Acompanhando a jornada de dois irmãos convocados para enfrentar uma ameaça capaz de colocar diferentes mundos em risco, a obra aborda temas como perda, bullying, empatia e aceitação, mostrando que a verdadeira força nasce da amizade e da capacidade de acreditar em si mesmo. Em entrevista, o jovem autor fala sobre as experiências pessoais que inspiraram a narrativa, o processo de criar um universo próprio — incluindo os personagens desenhados por ele — e como encontrou na literatura uma forma de transformar dificuldades em esperança para outros jovens leitores.

“Joaquim e Call: O Mundo Submerso” nasce de um universo fantástico, mas também de sentimentos muito reais, como perda, insegurança e busca por pertencimento. Em que momento você percebeu que essa história precisava ser contada?

Eu criei Joaquim e Call ainda muito pequeno. Aos 6 anos de idade desenhei os personagens que representavam as minhas próprias mãos. E de posse delas, eu passava todo o tempo criando diálogos e aventuras entre Joaquim e Call. Com o passar dos anos fui percebendo que meus personagens não viviam histórias e aventuras apenas relacionadas às minhas questões. E que milhares de crianças e jovens também se sentiam isolados e sem lugar no grupo. Então pensei: Vou escrever um livro com algo para ajudar a todos que por algum motivo se sintam à parte do grupo.

Joaquim e Call são irmãos marcados pela destruição da Vila das Mãos e pelo desaparecimento dos pais. Como foi construir personagens tão jovens, mas já atravessados por responsabilidades, culpa e medo?

Toda a minha arte e as minhas histórias acontecem de forma espontânea. São ideias, realidades, acontecimentos que vejo, sinto e passo para o papel. Em relação a Joaquim e Call eu nunca quis criar heróis perfeitos. Sabia que não podia ser sério demais, porém, não podia ser raso ao extremo. Eles perderam muito cedo aquilo que nos dá segurança: a família, o lar. Pensei em Joaquim como aquele jovem que, com a morte dos pais, atravessa um crescimento prematuro e forçado e isso se torna crucial na formação da personalidade desse personagem. E Call tem um traço de personalidade inspirado em mim e nas minhas vivências. Na parte do garoto que sofre, mas prefere se esconder através do riso e da piada. Escrever esses jovens é muito prazeroso porque é revigorante vê-los se superando e enfrentando seus medos e inseguranças até alcançarem suas vitórias.

Call usa o humor e a ironia para esconder inseguranças, enquanto Joaquim carrega o peso de ter sobrevivido. O quanto esses conflitos emocionais dialogam com sentimentos que muitos adolescentes vivem, mesmo fora da fantasia?

Acho que é justamente por isso que muitas pessoas vão se identificar com eles. Apesar de viverem em um mundo fantástico, Joaquim e Call sentem coisas que existem na vida de qualquer adolescente. O Call faz piadas o tempo todo para disfarçar seu sofrimento. Já o Joaquim representa outro sentimento muito comum: o peso de achar que precisa ser forte o tempo inteiro. Isso gera insegurança, ansiedade e uma tensão constante de falhar. Muitos adolescentes sentem essa pressão, seja na escola, entre os amigos ou consigo mesmos. Quando um jovem vê Joaquim enfrentando a insegurança ou Call escondendo seus sentimentos atrás das brincadeiras, talvez ele perceba que também faz isso. E, quem sabe, entenda que pedir ajuda, conversar ou demonstrar vulnerabilidade não são sinais de fraqueza.

Felitrix chega por um portal interdimensional e muda completamente o destino dos protagonistas. O que essa personagem representa dentro da jornada de Joaquim e Call?

A Felitrix representa uma virada de chave para os protagonistas. Ela rompe a realidade que Joaquim e Call conheciam, mostrando que o mundo é muito maior do que imaginavam e que existe muita dor espalhada pelo universo. Ela funciona como uma espécie de catalisadora da jornada. Não porque resolve os problemas deles, mas porque os convida a enfrentá-los. É ela quem mostra que existe um caminho

possível e que não deve ser percorrido sozinho e sim em união. Ela carrega consigo emoções e conflitos próprios. Não está ali apenas para guiar os protagonistas; ela também tem uma missão, faz escolhas difíceis e cresce ao longo da história. Isso era muito importante para mim, porque eu queria que todos os personagens fossem transformados pela jornada. No fundo, a Felitrix simboliza a esperança.

Antônio Carreira Alvim

A obra transforma valores como empatia, amizade, solidariedade e amor em fontes de poder. Por que era importante mostrar que a verdadeira força pode nascer justamente dos sentimentos mais puros?

Hoje vivemos em um mundo cruel onde o egoísmo, a avareza, o precoceito e a descrença mergulham na sociedade como pragas. O poder está associado ao controle, violência, corrupção. Eu quis mostrar o contrário: que sentimentos como empatia, amizade, solidariedade e amor também são forças poderosas. Eles podem transformar pessoas, salvar relações e dar coragem para enfrentar os momentos mais difíceis. Em Joaquim e Call, esses valores não aparecem apenas como uma lição de moral. Eles fazem parte das regras do próprio universo. As escolhas dos personagens têm consequências porque as emoções têm poder. Quando alguém age com egoísmo, medo ou ódio, isso transforma o mundo de uma maneira. Quando age com compaixão, confiança ou amor, transforma de outra. Eu gosto dessa ideia porque ela mostra que aquilo que sentimos e fazemos importa.

Você se inspirou em situações de bullying que enfrentou para criar uma história sobre diferença, exclusão e superação. Como a escrita e o desenho ajudaram você a transformar dor em criação?

A escrita e o desenho me fizeram esquecer da realidade que vivi na escola por muitos anos. Ali eu tive a oportunidade de transformar tudo que eu sofria em “heróis”e “vilões” batalhando em um mar de tramas, o que me acalmava muito. Foi nesse processo que nasceram Joaquim e Call. Eles não representam a minha vida literalmente, mas carregam sentimentos que eu conhecia muito bem: a insegurança, a vontade de encontrar um lugar no mundo e a esperança de que a diferença não fosse uma subtração e sim uma soma. A arte me ensinou que a dor não precisa ser o ponto final de uma história. Ela pode ser o começo de uma criação capaz de tocar outras pessoas. Quando transformamos uma experiência difícil em algo que emociona, inspira ou faz alguém se sentir compreendido, aquela dor ganha um novo significado.

Além de escrever o livro, você também desenhou os personagens desse universo. Como foi dar forma visual a criaturas, heróis e vilões que antes existiam apenas na sua imaginação?

Foi uma das partes mais especiais de todo o processo, porque, antes de existir um livro ou um roteiro, existiam desenhos. Foi desenhando que esse universo começou a ganhar vida. Desenhar foi uma forma de tornar concreto aquilo que antes existia apenas na minha imaginação. Era como visitar esse universo e trazer um pedaço dele para o papel. Muitas vezes eu fazia um desenho e, a partir dele, descobria novas características do personagem ou até mudava partes da história. Acho que essa é uma das maiores riquezas de Joaquim e Call: o universo foi construído de dentro para fora. Os personagens não nasceram apenas para cumprir uma função na narrativa; eles foram sendo desenvolvidos ao longo dos anos, crescendo junto comigo. Talvez por isso eu tenha uma ligação tão forte com cada um deles.

A mensagem do livro convida jovens leitores a não se deixarem definir por rótulos impostos pelos outros. Depois que alguém termina “Joaquim e Call: O Mundo Submerso”, que sentimento você gostaria que essa pessoa levasse consigo?

Mais do que qualquer emoção específica, eu gostaria que o leitor terminasse a história com esperança. Muitas vezes, passamos a acreditar que somos aquilo que disseram que éramos: fracos, diferentes, incapazes ou insuficientes. Mas a verdade é que nossa identidade não pode ser construída pelo olhar dos outros, e sim pelas escolhas que fazemos e pelos valores que carregamos. Se Joaquim e Call conseguir fazer uma criança ou um adolescente acreditar um pouco mais em si mesmo, entender que suas diferenças e seus bons sentimentos também podem ser uma força e perceber que pedir ajuda ou demonstrar sentimentos não é sinal de fraqueza, então a história já terá cumprido seu papel.

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