Americana Jazz Big Band celebra a tradição do jazz vocal em “Cheek to Cheek” ao lado de Mila Barros

Luca Moreira
9 Min Read

A Americana Jazz Big Band apresenta, no dia 10 de julho, uma nova versão de “Cheek to Cheek”, clássico do repertório norte-americano que ganha interpretação especial da cantora Mila Barros. Inspirada na gravação consagrada por Ella Fitzgerald e no arranjo histórico de Paul Weston, a faixa integra o processo de construção do primeiro álbum do grupo e reafirma seu compromisso com a preservação da linguagem das grandes bandas. Em entrevista, os músicos falam sobre o desafio de revisitar um marco do jazz vocal, a importância dos arranjos históricos para a formação de uma big band e a atmosfera de colaboração que marcou a gravação.

“Cheek to Cheek” é uma canção que atravessa gerações e carrega um imaginário muito forte dentro do jazz vocal. O que fez a Americana Jazz Big Band sentir que esse clássico deveria fazer parte da construção do primeiro álbum?

Cheek to Cheek representa um momento muito importante da história do jazz e das grandes bandas. Quando pensamos no repertório do nosso primeiro álbum, queríamos que ele apresentasse não apenas a identidade da Americana Jazz Big Band, mas também prestasse homenagem às obras que ajudaram a construir essa linguagem ao longo do tempo.

A presença dessa música no álbum dialoga diretamente com esse propósito. Ela é um clássico do Great American Songbook e sintetiza a elegância, o balanço e a sofisticação que marcaram as grandes orquestras. Ao mesmo tempo, ela cria um contraponto muito interessante com os nossos arranjos autorais, mostrando que preservar a tradição e produzir novas leituras são caminhos que podem caminhar juntos.

A escolha do arranjo de Paul Weston, eternizado na interpretação de Ella Fitzgerald, revela um desejo de dialogar diretamente com a história do jazz. Como foi assumir a responsabilidade de revisitar uma gravação tão emblemática sem perder a identidade da banda?

Encaramos essa responsabilidade com muito respeito. Não existe a intenção de substituir ou reinventar um arranjo que já se tornou referência mundial. Nossa proposta foi estudar profundamente essa escrita, compreender as escolhas musicais de Paul Weston e apresentar essa obra da forma mais fiel possível.

Ao mesmo tempo, nenhuma interpretação acontece da mesma maneira. A personalidade dos músicos, a sonoridade da Americana Jazz Big Band, a participação da Mila Barros e o fato de termos gravado tudo ao vivo fazem com que essa versão tenha uma identidade própria. Acreditamos que preservar uma tradição não significa reproduzi-la mecanicamente, mas mantê-la viva através de novas interpretações.

Vocês falam sobre os arranjos históricos como verdadeiras obras de arte para grandes formações. O que uma big band aprende, tecnicamente e artisticamente, ao mergulhar nesse repertório?

Aprende praticamente tudo. Os grandes arranjadores construíram uma linguagem que continua sendo referência para quem escreve para big band até hoje. Quando estudamos esses arranjos, estamos aprendendo sobre orquestração, condução de vozes, equilíbrio entre os naipes, dinâmica, articulação, uso das tensões harmônicas e construção de climas musicais.

Mas existe também um aprendizado artístico. Esses arranjos revelam uma forma de pensar a música coletivamente, em que cada instrumento possui uma função muito específica dentro do conjunto. Esse conhecimento acaba influenciando diretamente os nossos próprios arranjos e nos ajuda a desenvolver uma linguagem autoral mais consistente.

A faixa busca preservar a elegância das grandes gravações de jazz vocal das décadas de 1950 e 1960. Como vocês equilibraram esse respeito à tradição com a energia de uma formação brasileira contemporânea?

Acredito que esse equilíbrio acontece de forma bastante natural. O arranjo preserva toda a elegância e a escrita característica das grandes gravações daquela época, mas quem está tocando são músicos brasileiros, com vivências, referências e uma maneira própria de fazer música.

Existe uma espontaneidade muito grande na forma como interagimos dentro da big band. Essa energia coletiva acaba aparecendo naturalmente na interpretação, sem que fosse necessário modificar a essência do arranjo. O resultado mantém o respeito à tradição, mas também revela a personalidade da Americana Jazz Big Band.

A participação de Mila Barros aparece como um dos pontos centrais da gravação. De que forma a voz dela transformou a atmosfera da faixa e a interação com os naipes da big band?

A Mila trouxe exatamente a elegância que essa música pede. Ela possui uma interpretação muito refinada, com grande domínio de fraseado, dinâmica e intenção, características fundamentais para uma obra como Cheek to Cheek.

Além disso, a relação entre a voz e os naipes é um dos elementos mais bonitos desse arranjo. A big band não funciona apenas como acompanhamento; ela conversa o tempo todo com a cantora, respondendo frases, construindo texturas e ampliando a narrativa musical. A presença da Mila tornou esse diálogo muito natural e deu à gravação uma identidade muito especial.

O registro ao vivo foi feito durante as gravações do primeiro álbum, em uma igreja na cidade de Americana. Como a acústica desse espaço e o clima daquele dia influenciaram a sonoridade e a emoção do projeto?

Influenciaram completamente. A igreja oferecia uma acústica muito favorável para uma formação desse porte, permitindo que a big band soasse ampla, equilibrada e natural. Desde o início queríamos evitar uma sonoridade excessivamente processada e preservar a sensação de estarmos ouvindo uma orquestra tocando no mesmo ambiente.

Também existia uma carga emocional muito grande. Estávamos registrando o primeiro álbum da Americana Jazz Big Band, então todos tinham consciência da importância daquele momento. A tensão natural de uma gravação ao vivo acabou se transformando em concentração e entrega, e acredito que isso pode ser percebido tanto no áudio quanto no vídeo.

A Americana Jazz Big Band nasceu no interior de São Paulo, com a proposta de fortalecer grandes formações instrumentais fora dos grandes centros. Que importância existe em construir esse tipo de cena musical a partir de Americana?

Existe uma importância simbólica e prática. Durante muito tempo, grandes produções musicais ficaram concentradas nas capitais, mas o interior paulista reúne músicos extremamente qualificados, excelentes escolas de música e um público cada vez mais interessado na música instrumental.

Construir uma big band em Americana significa mostrar que é possível produzir arte de alto nível fora dos grandes centros, criar oportunidades para músicos da região e incentivar a formação de novos públicos. Também é uma forma de fortalecer a identidade cultural do interior, demonstrando que a excelência artística pode surgir em diferentes lugares quando existe continuidade, planejamento e compromisso com a qualidade.

 “Cheek to Cheek” pode alcançar tanto amantes do jazz quanto pessoas que talvez estejam descobrindo esse universo agora. Que porta vocês esperam abrir para o público com essa gravação?

Esperamos que essa gravação desperte a curiosidade das pessoas. Quem já conhece jazz certamente vai reconhecer a importância dessa obra e do arranjo que escolhemos interpretar. Já quem está tendo um primeiro contato com esse universo pode descobrir uma música extremamente acessível, elegante e envolvente.

Se conseguirmos fazer com que alguém ouça Cheek to Cheek e tenha vontade de conhecer Ella Fitzgerald, Paul Weston, as grandes big bands ou até mesmo explorar outros trabalhos da Americana Jazz Big Band, já teremos cumprido uma parte importante da nossa missão. Acreditamos que preservar essa tradição também significa criar novas conexões entre esse repertório histórico e o público de hoje.

Acompanhe Americana Jazz Big Band no Instagram

Share this Article

Você não pode copiar conteúdo desta página