Capim Cósmico transforma caos pessoal em rock visceral no álbum Ruído Colateral Crônico

Luca Moreira
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Em Ruído Colateral Crônico, o músico e compositor Mateus Cursino, criador do projeto Capim Cósmico, transforma um período marcado pelo diagnóstico de diabetes tipo 2, fragilidades emocionais e necessidade de recomeço em uma obra crua e visceral. Com lançamento previsto para 24 de julho, o álbum transita entre a psicodelia e o rock alternativo, guiado pela liberdade criativa e pela estética faça-você-mesmo. Em entrevista, o artista fala sobre o processo intenso de gravar quase todos os instrumentos, o papel da música na elaboração de momentos difíceis e o encerramento de um ciclo que abre espaço para novas possibilidades em sua trajetória.

 “Ruído Colateral Crônico” nasce de um momento muito delicado da sua vida, após o diagnóstico de diabetes tipo 2. Em que ponto você percebeu que aquela experiência precisava ser transformada em música?

Desde o início do diagnóstico, foi um impacto descobrir que eu tinha uma doença crônica. Isso mudou radicalmente a minha forma de encarar muitas coisas na vida, dando importância ao que realmente eu gostaria de fazer. Estava em outra banda e aí rompi com eles e comecei a trabalhar de maneira direta no meu projeto e na elaboração do disco.

Você descreve o início do processo como uma espécie de explosão no estúdio, quase uma necessidade física de se expressar. Como foi canalizar raiva, medo e inquietação para dentro dos instrumentos?

Eu descreveria como um arrebatamento criativo que passei e que pelo visto precisava de um gatilho. Muitas vezes, esse gatilho pode ser o amor ou um romance, ou então uma noite bacana. Porém, no caso do disco, foi a descoberta da doença.

O álbum tem uma sonoridade crua, psicodélica e ligada ao espírito punk do faça-você-mesmo. Por que fazia sentido que esse trabalho carregasse também as marcas das suas limitações e da urgência do processo?

Toda a minha formação musical veio do “do it yourself”. Eu nunca estudei música, componho e toco de uma forma intuitiva. A primeira grande influência do rock na minha vida foram bandas como The Clash e Ramones, aos poucos fui me interessando por outros estilos, principalmente o rock psicodélico, pois me aprofundei na discografia dos Mutantes. Essas duas vertentes estão muito presentes no som do disco. Acho que a forma de cantar e compor tem mais haver com o rock psicodélico e a forma crua de trocar os instrumentos com o punk rock.

Muitas faixas surgiram sem fórmula, a partir de baixos, baterias ou ideias espontâneas. O que essa liberdade criativa revelou sobre o Capim Cósmico neste momento da sua trajetória?

Foi realmente algo especial fazer esse disco. Claro que muitas ideias levaram mais tempo para amadurecer, mas todo o processo de gravação durou mais ou menos duas semanas. Eu sentava na bateria, ligava o click e saia tocando. Assim, a base já estava pronta. Ou então fazia o mesmo processo com o baixo e assim por diante.

Embora o disco venha de um lugar sombrio, ele também fala sobre fragilidade, saúde mental, saúde física e acolhimento. Que tipo de conversa você gostaria de abrir com o público a partir dessas músicas?

Muitos sentimentos meus fazem parte do processo doloroso de ser humano. Acho que são problemas comuns e compartilhados. A depressão, ansiedade, síndrome do pânico, todas essas questões estão relacionadas ao modo como vivemos hoje dia quase que de maneira antinatural. O nosso cérebro foi preparado por centenas de anos a caçar e colher e não em viver dependente de um sistema capitalista que destrói a natureza e modifica o modo de nos relacionar com ela.

Você comenta que a arte foi a melhor forma que encontrou para se libertar de certos pensamentos. Depois de gravar esse álbum, sentiu que alguma coisa dentro de você mudou ou encontrou algum tipo de alívio?

Sim, total. É quase que um problema passado a questão da diabetes. Claro que terapia e outras formas de tratamento foram necessárias mas a música me ajudou muito. Ela sempre me ajudou nos momentos solitários ou difíceis da vida.

 “Ruído Colateral Crônico” também aparece como um encerramento de ciclo, depois de quatro singles lançados. O que você sente que está deixando para trás com esse disco — e o que gostaria de encontrar na próxima fase?

O que eu sentia naquele momento ficou para trás e agora eu já estou com ideias novas e com uma vibe bem melhor para compor de formas diferentes, sobre temas diferentes. Aliás, já estou com pelo menos um EP pronto para começar a gravar.

Entre distorção, melancolia, peso e busca por alívio, o álbum parece nascer do caos, mas apontar para a possibilidade de seguir em frente. Quando alguém escutar o disco inteiro, que sensação você gostaria que permanecesse?

Espero que, depois de ouvir o disco inteiro, fique a sensação de que é possível atravessar o caos da vida cotidiana. Para mim, se alguém terminar de ouvir o álbum já seria um grande feito. Porém, hoje em dia não espero mais nada da reação do público. Depois de tanto tempo sendo um artista independente, ainda mais sendo oriundo de uma cidade pequena com apenas 20 mil habitantes e de não ter praticamente nenhum incentivo para a musica autoral, eu faço as coisas do meu jeito sem esperar nada de ninguém.

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