Americana Jazz Big Band celebra a tradição do jazz e apresenta novas interpretações de clássicos em álbum de estreia

Luca Moreira
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Americana Jazz Big Band
Americana Jazz Big Band

Entre a preservação de arranjos históricos e a liberdade de construir novas interpretações, a Americana Jazz Big Band apresenta seu primeiro álbum como um encontro entre tradição e contemporaneidade. Gravado ao vivo em Americana, no interior de São Paulo, o trabalho reúne clássicos do jazz internacional e releituras autorais, valorizando a interação entre os músicos e a sonoridade característica das grandes orquestras. Em entrevista, o grupo fala sobre os desafios de registrar seu primeiro trabalho fonográfico, a importância de manter viva a linguagem das big bands e a busca por uma identidade artística capaz de aproximar diferentes gerações da riqueza da música instrumental.

Este álbum de estreia apresenta a Americana Jazz Big Band como um coletivo dedicado à tradição das grandes bandas de jazz. Em que momento vocês perceberam que esse repertório precisava ganhar um registro fonográfico próprio?

Desde o início da Americana Jazz Big Band, existia a percepção de que o trabalho desenvolvido pelo grupo precisava ser registrado. Uma big band é uma formação que depende muito da experiência coletiva: os arranjos, o equilíbrio entre os naipes, a interação entre os músicos e a própria energia do conjunto só ganham sua dimensão completa quando são vivenciados. Ao longo do desenvolvimento da banda, percebemos que já tínhamos um repertório, uma sonoridade e uma identidade suficientemente consolidados para transformar esse trabalho em um registro fonográfico. O álbum surge, portanto, como uma consequência natural desse processo e como um primeiro documento artístico da formação.

O disco atravessa diferentes momentos da história do jazz, entre obras consagradas e arranjos originais. Como foi construir um repertório que respeitasse a herança das big bands, mas também revelasse a identidade do grupo?

A construção do repertório partiu justamente desse diálogo entre tradição e identidade. Existe uma responsabilidade muito grande quando trabalhamos com um repertório que possui uma história tão rica dentro do jazz e da música popular. Por isso, procuramos conhecer e estudar diferentes referências, inclusive arranjos consagrados, antes de propor novas leituras. Ao mesmo tempo, não queríamos fazer apenas uma reprodução do passado. Os arranjos originais presentes no álbum, como “Blue Moon”, “Cry Me a River” e “Dindi”, ajudam a revelar a personalidade da Americana Jazz Big Band e a maneira como músicos brasileiros, inseridos no contexto do interior paulista, interpretam essa linguagem.

A gravação ao vivo em Americana valorizou a acústica do espaço, o som natural da big band e a interação entre os músicos. O que esse ambiente trouxe para a energia e a organicidade do álbum?

A gravação aconteceu em uma igreja em Americana, justamente em um espaço cuja acústica favorecia muito a sonoridade de uma formação grande como a nossa. Fizemos a gravação de áudio e vídeo simultaneamente, buscando preservar a experiência de tocar como um grupo, sem transformar o processo em uma construção excessivamente fragmentada em estúdio. Isso trouxe uma característica muito orgânica para o disco. É possível perceber o conjunto respirando, os naipes dialogando e a energia que existe quando todos os músicos estão tocando juntos. Para nós, isso também era importante porque o álbum registra não apenas as músicas, mas um momento muito significativo da história da banda.

Em uma formação como a big band, o equilíbrio entre os naipes é essencial. Como vocês trabalham essa escuta coletiva para que cada seção tenha força sem perder a unidade do conjunto?

Essa é uma das grandes características e também um dos grandes desafios de uma big band. Não se trata simplesmente de reunir muitos músicos tocando ao mesmo tempo, mas de construir uma unidade a partir de diferentes seções e funções. Trabalhamos muito a escuta, a dinâmica, a articulação e o entendimento do papel que cada naipe exerce em determinado momento do arranjo. É importante que os músicos saibam quando devem estar em primeiro plano e quando devem funcionar como sustentação. A unidade nasce justamente dessa consciência coletiva: cada seção precisa ter personalidade, mas sempre dentro de uma concepção sonora maior.

Obras como “Blue Moon”, “Cry Me a River” e “Dindi” ganham novas leituras no álbum. Que cuidados existem ao revisitar canções tão conhecidas sem descaracterizá-las?

O primeiro cuidado é compreender profundamente a obra antes de tentar transformá-la. Uma música conhecida carrega uma identidade melódica, harmônica e emocional que precisa ser preservada. A partir daí, o arranjo pode criar novos caminhos sem perder essa essência. Em “Dindi”, por exemplo, procuramos explorar novas movimentações melódicas e diferentes ambientes harmônicos, além de criar uma seção de soli para os sopros, mas sempre mantendo reconhecível a composição de Tom Jobim. O mesmo princípio vale para “Blue Moon” e “Cry Me a River”: a ideia não é descaracterizar essas obras, mas descobrir possibilidades dentro delas e fazê-las dialogar com a linguagem da banda.

O projeto dialoga tanto com o jazz norte-americano quanto com o jazz brasileiro. Como essas duas tradições se encontram dentro da sonoridade da Americana Jazz Big Band?

A Americana Jazz Big Band nasce justamente desse encontro. A formação e grande parte do repertório estão profundamente ligadas à tradição norte-americana das big bands, mas somos músicos brasileiros, com nossas próprias referências, experiências e formas de compreender a música. Quando tocamos esse repertório, inevitavelmente ele passa pelo nosso contexto. “Dindi” evidencia isso de maneira muito clara, porque parte de uma composição brasileira inserida em uma formação tradicionalmente associada ao jazz norte-americano. No fim, não buscamos separar essas duas tradições, mas permitir que elas convivam e produzam uma linguagem própria.

Mais do que um registro documental, o álbum apresenta a banda como um coletivo ativo, comprometido com preservação, difusão e renovação do repertório de big band. O que significa manter essa linguagem viva no contexto contemporâneo?

Para nós, preservar uma linguagem não significa simplesmente reproduzir aquilo que foi feito no passado. Significa conhecer essa história, compreender seus fundamentos e permitir que ela continue sendo criada no presente. A tradição das big bands produziu um patrimônio musical enorme, tanto do ponto de vista artístico quanto da própria linguagem de arranjo e composição. Queremos contribuir para que esse repertório continue circulando, seja conhecido por novos públicos e, ao mesmo tempo, possa gerar novas criações. O álbum é justamente um ponto de partida nesse sentido: uma forma de reconhecer uma tradição e, a partir dela, continuar construindo.

A Americana Jazz Big Band reúne músicos profissionais do interior paulista e também atua na formação de público e circulação cultural. Que papel vocês acreditam que uma big band pode desempenhar hoje fora dos grandes centros?

Acreditamos que uma big band pode ter um papel muito importante na descentralização da produção cultural. Existe uma ideia de que projetos dessa dimensão precisam necessariamente estar concentrados nos grandes centros, mas a experiência da Americana Jazz Big Band mostra que é possível construir uma formação profissional, desenvolver repertório, produzir fonogramas e realizar ações de circulação e formação também a partir do interior. Isso fortalece a cena cultural local e cria oportunidades tanto para os músicos quanto para o público. Mais do que levar uma linguagem para fora dos grandes centros, queremos mostrar que também é possível produzir cultura de alto nível a partir desses territórios, criando identidade e pertencimento.

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