Arthur V. F. Furtado transforma crise da educação em distopia provocadora sobre o papel dos professores

Luca Moreira
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Arthur V. F. Furtado (Jaqueline Hernandez Risse)
Arthur V. F. Furtado (Jaqueline Hernandez Risse)

Em uma sociedade onde ensinar se tornou um ato de resistência, o escritor Arthur V. F. Furtado utiliza a ficção para refletir sobre os desafios enfrentados pela educação contemporânea. No livro que reúne oito contos interligados, o autor imagina um futuro em que escolas foram esvaziadas de sua função principal e professores passaram a ser vistos como inimigos de um sistema que rejeita conhecimento, autoridade e pensamento crítico. Inspirado por sua experiência como docente e pesquisador, Furtado aborda temas como precarização do ensino, violência contra educadores e os impactos de discursos extremistas, convidando o leitor a refletir sobre o valor da educação e o papel transformador dos professores na sociedade.

“Queimem todos os professores” é um lema forte, quase incômodo de ler. Em que momento você percebeu que precisava começar o livro por uma provocação tão direta sobre o lugar do professor na sociedade?

A perseguição contra os professores vem se intensificando dentro e fora das escolas, o que me fez lembrar dos relatos de caça às bruxas e da histeria do período maoísta. No presente, temos um sistema educacional falido e precarizado, no qual todos os índices são péssimos e não se apresenta qualquer solução para garantir a almejada qualidade. Diante de tamanha omissão, encontrou-se o bode expiatório perfeito: o docente. Mesmo adoecido, exausto e sem apoio, este assume cada vez mais responsabilidades, ao mesmo tempo em que é xingado, estigmatizado e desautorizado de todas as formas. Assim, o título do livro funciona como um grito de alerta: “Leitor, veja o que estão fazendo com os nossos professores!”.

O C.U.L.P.E. surge na obra como uma força distópica, mas muito próxima de debates reais sobre educação. Como foi construir esse limite entre exagero ficcional e crítica concreta ao sistema de ensino?

C.U.L.P.E. significa “Culto Pedagógico”, porque muitos dos atuais problemas foram criados por acadêmicos fanáticos que impuseram suas ideias pseudocientíficas às políticas públicas voltadas à educação. Esse grupo é bastante influente e ostenta uma visão contrária aos conhecimentos escolares, ao ensino explícito e à aplicação de evidências científicas à área. Além disso, trabalha ativamente para erodir as regras escolares e a autoridade dos professores, vistas como formas de autoritarismo e opressão. Políticos oportunistas e burocratas ambiciosos completam o grupo. Na vida real, o C.U.L.P.E. não existe formalmente como grupo ou ente organizado, mas segue atuando para destruir o pouco que restou. Na verdade, não precisei exagerar muito.

Você menciona que o livro nasceu dos seus estudos de doutorado e da sua vivência como docente. O que a ficção te permitiu dizer sobre a educação que talvez um texto acadêmico não alcançasse da mesma forma?

A ficção viabilizou um canal para que eu pudesse compartilhar o meu cotidiano profissional e expressar as minhas angústias de docente brasileiro, sem as amarras da metodologia científica. Isso trouxe liberdade para que eu pudesse me conectar com muitas lembranças, medos, alegrias e decepções. Cada personagem-professor carrega um pedacinho das minhas vivências e leituras, o que confere um tom mais realista à prosa ficcional. Mesmo assim, fiz questão de iniciar todos os contos com um trecho de livro ou artigo científico, além de trazer muitos dados sobre educação ao longo da obra, como formas de instigar novas leituras e debates fundamentados.

Na obra, os professores são perseguidos por estudantes, pais e burocratas, mas ainda tentam defender o pensamento crítico. O que personagens como Martha, Dirce, Henrique e Eliete revelam sobre a resistência silenciosa dos educadores?

A educação brasileira só permanece de pé porque muitos professores resistem, ainda que cansados e enfermos. Não estou romantizando o sofrimento ou a profissão, mas apenas constatando um fato. Como os meus personagens, os docentes reais insistem em ensinar, mesmo diante dos ataques aos conhecimentos e ao ensino explícito; continuam a avaliar, mesmo sabendo que a maior parte dos alunos será aprovada à sua revelia, sem qualquer critério pedagógico; prosseguem acolhendo e apoiando os discentes, mesmo sob ataque feroz de muitos pais e burocratas; seguem tirando dinheiro do próprio bolso vazio para suprir as carências de escolas em ruínas, mesmo sabendo que o Estado se omite vergonhosamente.

O livro critica tanto ataques vindos da esquerda quanto da direita, apontando uma culpabilização constante do professor. Por que você acha que a figura docente se tornou um alvo tão recorrente em disputas ideológicas?

Ambos os lados atacam os professores, ainda que de modos diferentes. Os ataques da direita são mais diretos e brutais, marcados por xingamentos, estigmatização ― o célebre “professor doutrinador” e comunista ― e cortes draconianos de verbas destinadas ao setor educacional. Ademais, adoram vender ilusões como a escola cívico-militar. Por outra via, a esquerda agride de maneira discreta e silenciosa, podando os docentes de sua autoridade, naturalizando a violência escolar e impedindo a aplicação de evidências científicas à área. As suas ideias são mais sofisticadas e, portanto, mais perigosas. A educação possui muitos inimigos, posicionados dos dois lados da trincheira.

A ausência de provas, regras e hierarquias aparece como parte do desmantelamento das escolas no universo da obra. Para você, qual é o risco de confundir protagonismo estudantil com abandono da responsabilidade formativa?

Inger Enkvist afirma que “uma educação familiar e escolar que aceita que os jovens não se esforcem é antiética porque não os prepara bem para o futuro”, enquanto Hannah Arendt critica o fato de que “a educação moderna, na medida em que tenta estabelecer um mundo próprio das crianças, destrói as condições necessárias para o seu desenvolvimento e crescimento”. Em um mundo ideal, provas e regras não seriam necessárias, e cada discente chegaria à escola disposto a construir o próprio aprendizado; contudo, no mundo real, na ausência de provas e regras, a maior parte dos alunos sequer abre o caderno. O protagonismo estudantil deve ser incentivado ― o aprendizado só ocorre quando há engajamento mental ―, mas, da forma como foi imposto, transformou-se em mais uma arma para inviabilizar o trabalho docente.

Os contos misturam formatos como listas, índices, manchetes e receitas. Como essa experimentação formal ajuda a traduzir o caos, a burocracia e a fragmentação vividos dentro do ambiente escolar?

O trabalho pedagógico do professor é constantemente entrecortado pelas demandas da burocracia estatal, materializadas em relatórios, planilhas, listas, padlets e todo tipo de documentação. À medida que o tempo passa e os resultados educacionais não evoluem, os gestores, incapazes de resolver os problemas reais, investem em novas formas de controle do professorado, o que resulta em mais labor burocrático. O problema é que esse excesso de papelada vem invadindo o tempo pedagógico, o qual deveria ser dedicado ao planejamento de aulas, à correção de atividades e à formação docente. Assim, as listas, receitas e mandamentos que se intercalam com os contos ilustram o caos reinante e o peso que a burocracia exerce no cotidiano do docente.

Apesar do tom distópico e crítico, a obra parece carregar uma defesa muito forte da educação como formação cidadã. Depois de atravessar esses oito contos, que tipo de inquietação você gostaria de deixar no leitor?

Apesar dos problemas relatados, encontrei, ao longo desses quinze anos de atividade profissional, professores e alunos dedicados e competentes com quem foi possível estabelecer uma parceria muito produtiva em favor do aprendizado e da educação. Também presenciei a educação mudando a vida de muitos estudantes, que aprenderam a amar a leitura, a filosofia e a história. Por isso, continuo certo da essencialidade da educação para a formação integral do ser humano. Finalmente, gostaria que os leitores compreendessem que o inimigo não é o professor, embora seja muito conveniente para o sistema que as pessoas pensem dessa forma.

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