Em “Olho por Olho: Ecos do Imperdoável”, a escritora Eliane Cristina constrói uma narrativa marcada por traumas, silêncios e escolhas que atravessam gerações. Ambientado no Rio Grande do Sul e inspirado por reflexões sobre a antiga Lei de Talião, o romance investiga os impactos da violência, do ressentimento e da busca por reparação diante de injustiças que permanecem sem resposta. Ao combinar contexto histórico, drama familiar e questionamentos filosóficos sobre perdão, livre-arbítrio e moralidade, a autora convida o leitor a refletir sobre o verdadeiro preço da vingança e as marcas deixadas por decisões que ecoam muito além do tempo.
“Olho por Olho: ecos do imperdoável”, parte de uma pergunta muito forte: depois da vingança, o que sobra? Em que momento essa inquietação começou a se transformar em romance?
A inquietação nasce da percepção de que alguns atos não terminam depois de praticados. De fato, seguem ecoando, para o bem ou para o mal, na vida das pessoas envolvidas, nas famílias e até na vida daquele que os praticou. Então, juntei essa percepção ao desejo de escrever um romance policial.
A obra não trata a vingança como um impulso isolado, mas como algo que se constrói ao longo do tempo, entre dor, silêncio e rancor. O que mais te interessava investigar nessa lenta formação do desejo de reparação?
Justamente a permanência desse desejo de vingança. Nada modificou o intento de realizar a vingança. A dor e o trauma marcaram de forma definitiva aquela pessoa, passando a definir a sua vida.
O crime à beira do Rio dos Sinos deixa uma família marcada não apenas pela violência, mas também pela censura das vítimas e pelo apagamento das provas. Como o silêncio se torna um personagem dentro da narrativa?
O silêncio é um observador onisciente dentro da narrativa. Diante da impossibilidade da verdade, encontra voz na vingança perpetrada.
Ao ambientar a história em São Leopoldo e trazer a experiência dos imigrantes alemães após a década de 1910, você conecta feridas individuais a traumas coletivos. Por que era importante aproximar história, memória e drama íntimo?
Era um cenário muito coerente com a proposta do romance. O trauma individual surge quase como reflexo do trauma coletivo vivido naquele período, especialmente após a entrada do Brasil na Segunda Guerra.

A repressão política e cultural, a proibição da língua alemã e o desapossamento de terras aparecem como marcas de um período específico, mas também dialogam com sentimentos universais de perda e injustiça. Como essas vivências ajudam a moldar os conflitos dos personagens?
Houve solidariedade entre os personagens. A resiliência da comunidade, ainda que muitas vezes atravessada pelo receio de perseguições e sanções, foi fundamental para que aquelas pessoas enfrentasse o período da forma menos dolorosa possível.
Personagens como Otto e Manoel parecem carregar dilemas que não permitem respostas fáceis. Como foi construir figuras capazes de despertar, ao mesmo tempo, compaixão, revolta, apoio e decepção no leitor?
A construção desses personagens nasceu muito da observação da vida, de muitas leituras e das contradições humanas, contextualizadas à época do romance. Os personagens centrais, são acompanhados desde a infância até depois dos sessenta anos de vida. São histórias construídas dentro de um caleidoscópio de dores, afetos, saudades e amores. É uma viagem profundamente humana e apaixonante.
O livro atravessa temas como livre-arbítrio, perdão, violência e responsabilidade. Para você, até que ponto uma escolha extrema nasce da liberdade de alguém — e até que ponto nasce das feridas que essa pessoa carrega?
Penso que tudo aquilo que nasce do extremo já não nasce em equilíbrio. Assim, não estamos tratando de uma escolha livre e consciente, mas de uma resposta a um fato doloroso. Mesmo com cicatrizes, uma escolha conduzida pelo equilíbrio será sempre uma opção melhor.
A obra dispensa o julgamento direto e convida o leitor a encarar a complexidade das decisões humanas. Depois de acompanhar esses “ecos do imperdoável”, que tipo de reflexão você gostaria que permanecesse em quem fecha o livro?
A vida é passageira, mágoas ou vinganças não deveriam nos definir. É preciso encontrar caminhos que não nos conduzam ao revide, mas à superação do mal em vez de sua continuidade.
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