Gilson Pinheiro resgata o afeto e as memórias que transformam o bolo em símbolo de celebração

Luca Moreira
9 Min Read

Muito além de uma receita, um bolo pode guardar lembranças, fortalecer vínculos e contar histórias de diferentes gerações. Em Bolos, Histórias e Memórias Afetivas, o psicólogo, gastrônomo e escritor Gilson Pinheiro propõe uma reflexão sobre a relação entre alimentação, emoções e identidade, mostrando como sabores e aromas são capazes de despertar memórias e aproximar pessoas. Mesclando receitas, relatos e reflexões sobre o papel da comida na construção dos afetos, a obra convida o leitor a redescobrir o alimento como expressão de cuidado e pertencimento. Em entrevista, o autor fala sobre a influência da gastronomia na saúde emocional, a importância de preservar tradições familiares e o desafio de resgatar o prazer de comer em um mundo cada vez mais guiado por dietas, números e padrões estéticos.

“Bolos, histórias e memórias afetivas” parte de um alimento presente tanto nas grandes celebrações quanto nos momentos simples da vida. Em que momento você percebeu que o bolo poderia ser o fio condutor de um livro sobre afeto?

Tudo começou ao constatar a relevância do bolo em momentos importantes da minha vida, de amigos, dos pacientes nas celebrações e também no cotidiano). Ele extrapola a receita e é um importante agregador entre pessoas. Fazer um bolo é um ato de amor, é um abraço em forma de sabor, é o elemento exato que agrega e acolhe.

Tornou para mim o fio condutor ao perceber que é muito mais do que misturar farinha, ovos e manteiga, ele é a forma universal de amar, ser amado e acolher alguém. Ao servir um bolo também carregamos histórias, despertamos lembranças, permitimos um “dedo de prosa” e é capaz de unir pessoas ao redor da mesa.

A obra propõe olhar para a comida para além de calorias, estética ou função nutricional. Como psicólogo e gastrônomo, por que era importante resgatar essa dimensão emocional da alimentação?

É crucial resgatar a dimensão sócio-emocional da comida em um mundo das fragilidades das relações onde vivemos correndo e sempre atrasados para tudo. Compreender o valor afetivo da relação emoção/comida ajuda a estabelecer um comportamento alimentar mais saudável, consciente e equilibrado. Muitas vezes o comer costuma ser uma resposta à ansiedade, estresse ou tristeza. Ao assinalar a dimensão emocional proponho que não seja vista como a válvula de escape para as dores cotidiano ou para compensar ausências. Não há necessidade de ter medo de comer, mas é preciso ultrapassar o aspecto unicamente fisiológico.

O livro trabalha com lembranças como o cheiro da massa no forno, a mesa da avó e a família reunida. Que memórias pessoais ajudaram a inspirar essa atmosfera afetiva da obra?

Tenho memórias afetivas marcantes. Não consigo esquecer o delicioso cheiro do bolo de fubá com erva doce assando no forno. Mapear esta lembrança traz para mim lugares (casa de minha infância), sensações (cheiros, sabores, músicas), afeto e pessoas e é altamente prazeroso.  Lembro da alegria de minha mãe com todos em volta tentando “ajudar” e ela pacientemente acolhia e orientava. Sentir o aroma e comer o bolo desperta em mim uma maravilhosa saudade. Pode até ser um momento simples, mas sempre foi carregado de afeto, de alegria, de amor.

Dona Dora aparece como uma personagem que pode ser a avó, a mãe ou uma figura de cuidado na vida de qualquer leitor. Como surgiu essa personagem e o que ela representa dentro do livro?

Começou vendo minha mãe na cozinha e depois percebi a universalidade das “Donas Doras”. Elas são o coração da história, o porto seguro que permitme a descoberta do mundo. Elas transitam em todos capítulos, trazendo para o leitor a voz do acolhimento e olhar de doçura. Ao ler cada página provoco sensação de cumplicidade fazendo com o leitor também tome parte da trajetória emocional em cada capítulo e vislumbrem as suas avós, mães, … as Donas Doras.

As receitas recebem nomes simbólicos, como “Bolo da Felicidade”, “Bolo Mãe é Quem Espera” e “Bolo da Paciência e Elegância”. Como foi transformar emoções e sensações em sabores?

Oferecer os nomes simbólicos permite transformar cada bolo em uma experiência única. Vieram à minha mente os aromas, os sabores, a sensação de conforto ao escrever cada capítulo. Cada bolo é um amalgama de sentimentos e recordações.  Cada fatia de bolo me permite lembrar das conquistas, das alegrias, dos risos, dos momentos desde a “mis em place” até o bolo estar na mesa (e mesmo estando na mesa, temos que aguardar esfriar) servido com um dedo de prosa, olhar acolhedor, café delicioso e com pessoas inesquecíveis ao lado. Estou convicto que diante da correria do dia a dia, o bolo nos permite parar, sorrir pois o paladar “toca” o coração.

Você propõe textos reflexivos para serem lidos enquanto o bolo assa. O que existe nesse tempo de espera que combina tão bem com memória, silêncio e contemplação?

Tudo começa com um desejo, um tempo e um local, onde o tempo de espera permite lidar com a ansiedade e frustração. A espera reforça o sentimento de pertencimento, de estar jnto e oferta significado especial; Nela percebemos o quanto somos especiais e partilhamos afetos. Esperar é o contraponto ao imediatismo, a lidar apenas com resultados. É um momento de introspecção ativa. É a transformação do vazio em um contexto de vida onde se indaga o futuro (como vai ser, sempre ansiando pelo sabor. A espera oferece presença. É uma espera propositiva.

Em um mundo cada vez mais marcado pela culpa alimentar e pela preocupação excessiva com calorias, que tipo de relação mais saudável e humana você espera incentivar entre as pessoas e a comida?

Proponho que comam sentindo prazer e não por culpa ou vergonha. Comer oferece as calorias necessárias para executarmos as atividades do dia a dia, é fonte de energia e também de satisfação de necessidades afetivas. Sugiro que sejamos mais compassivos e comamos com atenção plena. Muitos comem sem perceber os gatilhos de fome e saciedade, sem perceber o sabor dos alimentos. Gostaria que as pessoas “namorassem” o prato (sentindo o aroma, textura e sabor) e reduzissem as (auto)cobranças, aprendam a gerenciar emoções sem privar, exceder ou compensar na comida, e aprendendo habilidades para lidar com as demandas do cotidiano.

Ao final, o livro parece convidar cada leitor a juntar sua própria história a essa “tapeçaria de sabores e memórias”. Que lembrança ou sentimento você gostaria que alguém recuperasse ao preparar uma dessas receitas?

Gostaria que verificassem que os bolos são portais de memórias importantes em nossas vidas, que cada fatia de bolo é oferecida na segurança de um abraço e olhares acolhedores. Ontem um leitor me enviou uma mensagem e disse que chorou ao ler o livro ao lembrar do bolo de pé de moleque feito pela mãe dele. Lembrou do cheiro, da casa, da família. Foi transportando a um momento inesquecível de aconchego. Gostaria que todos se transportassem para este momento de acolhimento e saíssem do “pilo automático”.

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