História digna de cinema: como Daniel Nascimento se tornou um dos hackers mais conhecidos do Brasil e especialista em segurança digital

Luca Moreira
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Daniel Nascimento
Daniel Nascimento

Da adolescência marcada por invasões virtuais à atuação na segurança digital, Daniel Nascimento viu sua trajetória atravessar diferentes fases e chegar também às telas. Em entrevista, o brasileiro fala sobre dinheiro, os limites que estabelecia durante o período em que praticava ataques, a evolução do cibercrime, as vulnerabilidades que ainda colocam pessoas e empresas em risco e a experiência de ver sua própria história retratada no filme “O Rei da Internet”.

Em muitas de suas falas, você afirma não se arrepender do que fez e chega a dizer que faria tudo novamente. Sem entrar em detalhes que possam incentivar ou facilitar novos crimes, olhando para aquela época hoje, onde você acredita que errou e o que faria diferente?

Olha, a pergunta é muito interessante e, ao mesmo tempo, bem complexa. Eu não sei o que mudaria. Acho que não mudaria nada, não, viu? Não faria nada diferente.

Pela questão da época, da conjuntura, da minha idade, enfim, da adrenalina que eu vivi, foi um conjunto de fatores no qual eu não mudaria nada. Eu não acho que errei. Acho que evoluí. Acho que tudo o que passei foi uma fase de evolução para eu chegar até aqui hoje.

Então, você não pode, na minha opinião, ter a hipocrisia de dizer que se arrependeu de algo que, para mim, não é tão maléfico assim, entende? Não é algo tão negativo. Ninguém perdeu nada, ninguém teve problemas, enfim. E, tendo em vista que aquela era uma época muito, muito precária ainda, em que a tecnologia era muito precária, não mudaria nada.

Acho que não errei. Acho que foi a continuidade de uma evolução que me trouxe até aqui hoje.

Em uma entrevista, você afirmou que seguia alguns princípios, como o de não atacar determinados tipos de vítimas. Esses limites eram princípios pessoais seus ou existia uma espécie de código de conduta, ainda que informal, dentro da comunidade da qual você fazia parte?

Sim. Veja, existe essa questão das comunidades etc., mas todo mundo é livre para fazer o que bem entender. A maioria das pessoas, pelo menos da minha época, lá atrás, tinha seus princípios. Alguns tinham esse princípio; outros tinham, inclusive, o princípio de não querer fazer fraudes bancárias ou de cartão, apesar de terem o conhecimento para isso. Eles optavam por não fazer. Então, era meio dividido.

Agora, esse é um princípio que eu trago comigo. Inclusive, tenho muitas pessoas de tecnologia com quem tenho contato e tem gente que quer fazer coisa errada. Eu não estimulo, não incentivo, mas também não falo que o impacto é meu necessariamente, porque cada um sabe o que faz, né? Cada um tem livre-arbítrio.

Eu costumo brincar: eu vou lá e ensino você a atirar. Você aprende a atirar, mas quem vai comprar uma arma e atirar em alguém é você, cara. Não sou eu. É sua responsabilidade. Não tem crime em ensinar a atirar. O cara pode atirar para o bem, como pode atirar para o mal. Eu sei que é um exemplo meio pesado, mas, enfim, esse assunto também é.

Acho que esse código de conduta parte mais da pessoa. Ou seja, eu, sim, tenho esse princípio dentro de mim.

Você enriqueceu ainda muito jovem, e muitos adolescentes compartilham dessa mesma ambição de conquistar dinheiro e independência rapidamente. Considerando a sua experiência, o dinheiro, ao mesmo tempo em que pode proporcionar liberdade e satisfação, também pode se transformar em uma espécie de maldição?

É como eu estava falando na outra pergunta. Vamos usar um exemplo melhor: você dá a vara para a pessoa. Agora, é a pessoa que vai pescar o peixe, o tubarão que ela bem entender, peixe em extinção… Vai da cabeça de cada um.

Eu sei que é uma história que gera toda uma vontade por parte dos adolescentes de se verem naquilo, mas, ao mesmo tempo, a história também mostra as consequências. A história está ali, as consequências estão ali.

Então, é aquilo: o duro de quando você é adolescente é que você não mede as consequências, você só vai. Então estão ali as consequências, tudo o que eu tive que fazer, tudo o que eu paguei, o que eu carrego até hoje.

E, sim, com certeza, é uma espécie… Não vou chamar de maldição, mas é uma vida que… Por exemplo, eu desenvolvi vários problemas. Síndrome do pânico, eu tenho dificuldade para sair, tenho dificuldade para me relacionar em grupo. Tenho uma série de coisas. Tomo um monte de remédio controlado, cuido da minha cabeça porque tenho insônia, insônia aguda.

Então, tem um monte de coisa que se desenvolveu em mim por conta das porradas que levei, da adrenalina, muitas vezes do medo. Do medo de ser sequestrado, do medo de estar em um hotel e a polícia invadir. Muita coisa. Ainda mais quando você é uma criança — eu considero uma pessoa com 16 anos, pelo menos na minha época, uma criança. Hoje o negócio está mais evoluído. Não que eu seja inocente, mas sempre disse isso.

Eu fico até impressionado, mudando um pouco de assunto, com o tamanho da hipocrisia das pessoas. Apontar o dedo para uma pessoa que está dando a cara a tapa aqui, falando: “Eu fiz. Eu fiz, sim. E aí?”. O cara baixa música pirata, baixa filme pirata, sonega o Imposto de Renda, nega o CPF na nota, faz muita coisa errada, fura o sinal vermelho, para em vaga de idoso. Mas aí esses são os donos da… Como é que se fala? Da moralidade.

E, se eles tivessem a oportunidade, a opção, com essa idade, naquela época, de fazer o que eu fiz, será que eles não fariam? Ou vamos continuar a hipocrisia?

Para terminar a pergunta, eu não acho que seja uma maldição. Acho que isso é um passo de cada vez. Eu não consigo enxergar assim. Como eu disse, o que me trouxe até aqui é reflexo do meu passado. Pura.

Você é até hoje considerado um dos hackers brasileiros mais conhecidos. Embora diga não se arrepender de sua trajetória, hoje você trabalha justamente na proteção de empresas contra ataques semelhantes aos que praticava. Além daquela proposta profissional que recebeu aos 16 anos, houve algum outro fator decisivo para essa mudança de lado?

Não foi nenhuma proposta, não foi nenhuma proposta, não.

Um dia eu recebi uma espécie de convite para ser biografado e, antes de essa biografia ser escrita, fui avisado de que minha vida ia mudar, que eu ficaria exposto. “Pô, você é um cara que tem pânico, é um cara que tem ansiedade, você é isso, você é aquilo. Você vai conseguir lidar com isso?”

Bom, para mim é um livro que não vai… Entendeu? Vai ficar ali, no máximo a família vai ler e acabou.” Eu não coloquei tanta fé que o livro fosse ter uma projeção grande, a ponto até de se tornar um filme, que, com 10 ou 12 dias de lançamento no Globoplay e no Prime Video, nós estamos no Top 1 dos mais vistos. Não só dos filmes nacionais, como dos internacionais também. E agora foram vendidos os direitos para o filme ser produzido nos Estados Unidos e no Canadá.

Acho que o fator foi esse. Foi essa proposta, que foi muito difícil. Eu pensei muito, mas, como gosto de desafio, falei: “Eu topo”. E, de repente, virou uma projeção que saiu do meu controle.

Eu lembro que, quando fui chamado para o “The Noite”, do Danilo Gentili, três meses após o lançamento do livro, minha ficha começou a cair. Falei: “Ixi…”. Aí começaram a ligar alguns diretores de cinema, já conhecendo a história, para fazer um filme. Houve mais de uma proposta para a história ser produzida no cinema, mas foi produzida pelo Fabrício. Ainda bem. Fabrício é um grande profissional e hoje eu vejo que ele é o cara mesmo, é o cara para fazer esse filme.

Apesar de histórias envolvendo hackers existirem há décadas, o cibercrime ainda é percebido por muitas pessoas como uma forma relativamente moderna de criminalidade. Na sua visão, o crime está migrando cada vez mais do mundo físico para o digital ou esses dois universos continuarão coexistindo e até se complementando?

Olha, o cibercrime, como você disse aqui, sempre existiu, desde que computador é computador. Nós temos que prestar atenção nessa pergunta e saber distinguir uma coisa da outra.

Uma coisa é o estelionatário, que pega um telefone, induz você a cair em um golpe para fazer Pix com a sua conta. Outra coisa é o cara que invade o sistema do Pix e faz o Pix.

O que está acontecendo? Hoje, os estelionatários estão inovando muito para fazer fraudes. Então você pega os caras, por exemplo: o cara suborna uma pessoa que tem acesso a um sistema, pega o usuário da pessoa e usa o usuário da pessoa que foi subornada. É mais ou menos assim que estão funcionando muitos crimes.

E aí, quando a pessoa é presa, a mídia fala: “Hacker…”. Isso é um erro muito grande do Brasil. O Brasil não sabe sequer distinguir a palavra hacker de cracker.

Então, prende o cara lá, mas o cara invadiu o quê? O cara estudou o quê? O cara entende o quê de tecnologia? Não. Mas ele tem a malandragem, a malícia de pagar alguém e ter a senha de alguém e pagar de hacker.

Como acontece no Judiciário brasileiro: tem um monte de senhas que eu sei, que tenho conhecimento, de juiz, de tribunal, de sei lá mais o quê. Aí o cara vai lá, pega a senha, tira um mandado, mete um mandado de qualquer coisa do tipo, e vem a mídia e fala: “O hacker fulano de tal”. Não, pô. O cara não invadiu a Justiça. O cara simplesmente comprou a senha de um estagiário. Então essa questão tem que ser muito bem vista.

Outra coisa: de fato, o crime está migrando mais para o digital do que para o físico. Bom, vamos lá: quanto movimenta o cibercrime hoje de bancos e quanto movimenta o crime de assalto a banco à mão armada?

O dinheiro está saindo, o papel está saindo de circulação. É tudo virtual, é tudo digital. Então, naturalmente, os crimes cibernéticos vão crescer cada vez mais e mais.

Hoje existe uma quantidade enorme de informação sobre golpes e segurança digital. As principais modalidades são divulgadas na imprensa, por bancos, empresas e especialistas e, ainda assim, pessoas de todas as idades e até grandes empresas continuam sendo vítimas. Afinal, se conhecemos tanto sobre esses golpes, por que continuamos caindo neles?

É como eu disse para você. Primeiro, a inovação da engenharia social, como eu estava falando do estelionato na pergunta acima.

E o segundo é que, sabe o que acontece? Uma empresa, uma pessoa, acha que nunca vai ser invadida. As pessoas não têm a precaução.

Então, eu vejo, por exemplo, no dia a dia, pessoas plugarem cabos em um telefone no aeroporto sem imaginar que aquele cabo pode ser um cabo espião. Eu vejo as pessoas não usarem autenticação de dois fatores, vejo as pessoas deixarem a tela do celular desbloqueada de qualquer jeito. Eu vejo tanto erro…

Wi-Fi: você sai conectando em qualquer Wi-Fi que vê na sua frente, da cafeteria, do posto, da padaria, da academia. Então as pessoas não se conscientizam de que podem cair em um golpe ali, entende?

Eu estou falando de golpe hacker, tá? Não estou falando de estelionatário. Elas não se conscientizam disso.

Então é difícil. Você fala, fala, fala, mas, no final: “Cara, legal, beleza, mas eu não… Que hacker vai querer me hackear?” A pessoa pensa assim, entende?

Claro, você tem os alvos seletivos. Os alvos seletivos são quando você direciona o ataque a uma determinada empresa, a uma determinada pessoa. Mas 90% não é, não. 90% é sorteio. Você joga a isca lá; enquanto os peixes morderem, você puxa de volta, entendeu?

Então você tem 100 peixes lá no lago. Se dez morderem, você ganha dez. É mais ou menos isso.

O que falta, na verdade, é a conscientização da pessoa em torno disso. Conscientização de segurança. Entender que isso pode acontecer com ela, sim.

Ter estado do outro lado lhe permite enxergar vulnerabilidades que um profissional de segurança com uma trajetória mais convencional talvez não perceba? O quanto do hacker que você foi ainda existe no profissional que você é hoje?

Ter estado do outro lado me permite ter uma visão melhor e maior, sim, a respeito do hack. Por quê?

Primeiro, porque eu entendo um pouco do sentimento que o cara tem, qual a sensação que ele tem. Segundo, em muitas palestras, debates que fiz, painéis dos quais participei, sempre vem aquele professor, aquele doutor que entende de tudo.

Mas o que adianta ele entender tanto, até mais do que eu, da minha equipe, enfim? O que adianta aquele cara ter tanto conhecimento teórico se ele nunca invadiu nada? Entende?

Aí o cara vem e fala em código, em sistemas, em tudo o que você possa imaginar, mas o cara não invadiu nada. E as maiores invasões que vi na minha vida foram simples. As pessoas acham que é tipo “Matrix”, sabe? Não é. Foram simples.

Já vi invasões pequenas que dão muito mais trabalho do que uma grande invasão. Então, quanto maior o sistema, mais vulnerável ele é.

Quando você fala de uma grande invasão, vamos falar de uma grande corporação que tem 50 mil funcionários, 500 terminais, mil terminais, 30 servidores. Olha o tamanho do negócio que você pode explorar.

Aí você pega e fala assim: “Não, eu vou assaltar… Desculpa, eu vou invadir o mercadinho.” O mercadinho tem quatro caixas, tem um computador. É muito mais difícil, entende?

Mas esse é um sentimento que só quem é hacker mesmo — no meu caso, cracker, hacker, enfim, que eu fui — e outros por aí conseguem identificar.

A diferença é que eu dou minha cara a tapa. Os outros não. Então eu estou aqui, entende? Os outros já não fazem a mesma coisa. Acho que, para mim, é isso.

Histórias reais levadas ao cinema inevitavelmente passam por adaptações e dramatizações. No caso de “O Rei da Internet”, quanto do que vemos realmente aconteceu com você e quanto foi transformado ou dramatizado para funcionar na tela?

Olha, de fato, o filme segue uma linha temporal perfeita, exatamente do que aconteceu, mas mudam as cenas, mudam os personagens das cenas.

Então, de repente, uma forma da escola, por exemplo, do colégio ali, que foi colocada… Bullying eu sofri, mas talvez mais, talvez menos, entende? Não daquele ponto. Acho que o meu bullying foi mais psicológico do que um bullying de tanta pancadaria como tem no filme. Tem muita ação.

Eu não tive tantos entraves duros assim com meu pai. Apesar de a gente ter discutido bastante, discutia muito — até hoje discuto —, não foi assim. Eu não consigo puxar isso na minha cabeça, os entraves.

Mas meu pai e eu brigávamos, sim. Não é que nós brigávamos: nós não nos entendíamos. E meu pai nunca aceitou, enfim, o que estava acontecendo com o filho dele. Eu era meio rebelde e por aí foi.

Aquela senhora que eles colocam lá no filme, que fala “boa noite” e tal, da questão da virgindade, aquilo não existiu. Foi uma trollagem dos caras. Sim, perdi a virgindade com uma garota de programa, isso é fato, em Porto Alegre, mas não foi daquele jeito que foi colocado. Ela era mais nova, tá?

O que mais? Não sei, eu teria que pegar as cenas. Acho que dá um soco no Muralha, que “eu te dou tanto ali, te dou 10 mil, 5 mil”… Não lembro. Eu teria que rever a cena. Não lembro disso ter acontecido, acho que não aconteceu.

Mas, de fato, existia um cara que era o Muralha, que fazia a segurança do pessoal, sim, e cuidava dos meninos — no caso, de mim — bastante. Inclusive encontrei ele, a pessoa real, no Rio de Janeiro, uns meses atrás. Encontrei ele. Ele está aí até hoje. É uma das poucas pessoas com quem tenho contato daquela época.

Também estou falando aqui porque está vindo da minha cabeça a linha do tempo. Acho que o ataque da Telemar, quando o Nordeste ficou uma semana sem internet, para mim é uma das cenas mais perfeitas do filme.

O João Guilherme, no caso, interpretando o Daniel ali, tocando aquele piano e acontecendo… Ele explicando tecnicamente, passo a passo, ficou perfeito. Olha, nota dez. Acho que ele fez até melhor do que eu o ataque. Foi muito bom.

Então é isso. Eu teria que pegar o filme e ir vendo passo a passo. Até porque, vou ser sincero com você, eu não consigo assistir ao filme inteiro. Eu vejo parte por parte, porque você se ver em uma história é muito difícil, para mim pelo menos.

Porque você está se vendo ali, aí você fica com uma vergonha, como se isso não estivesse acontecendo, entende? É igual assistir às minhas entrevistas. Eu não assisto. Eu não consigo.

Mas, para chegar a uma resposta melhor, eu teria que ver parte por parte do filme e responder parte por parte.

A linha temporal, pelas três vezes, quatro vezes que vi parte por parte e pelo que tenho na minha cabeça por conta da história, segue realmente o ritmo da história que aconteceu.

Algumas cenas são mais dramatizadas, mudadas; algumas, mais exageradas, outras, menos, para que o público seja envolvido com o cinema. Isso é normal em qualquer história.

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