A banda Nuna lança, no dia 28 de agosto, o single “Vai Ver”, faixa que transforma o fim de uma relação unilateral em um processo de lucidez, ruptura e retomada da própria história. Entre guitarras densas, referências ao rock, pop punk e pop e uma interpretação marcada pela intensidade emocional, o grupo revisita o momento em que antigas lembranças ganham novos significados diante da percepção do egoísmo e da falta de reciprocidade. Em entrevista, a banda fala sobre o processo criativo da música, a evolução de sua identidade sonora e como a desilusão pode se tornar ponto de partida para amadurecimento e autoconhecimento.
“Vai Ver” fala sobre o momento em que alguém finalmente percebe que uma relação foi marcada pelo egoísmo e pela falta de reciprocidade. Em que ponto vocês sentiram que esse despertar emocional poderia virar música?
O estalo aconteceu quando a frustração deu lugar à clareza. Percebemos que continuar racionalizando a falta de reciprocidade era bem mais cansativo do que encarar a verdade. Transformar essa percepção em composição foi a forma mais natural de organizar o turbilhão interno e ressignificar o peso do que estávamos carregando.
A canção revisita lembranças do passado sob uma nova perspectiva, quando situações antes inocentes passam a revelar outras intenções. Como foi traduzir essa virada de consciência em letra, melodia e interpretação?
A construção foi como olhar pelo retrovisor com novas lentes. A letra começa mais contemplativa, repassando o passado com certa perplexidade, enquanto a melodia e o arranjo ganham pressão à medida que a resignação vira decisão. Na interpretação vocal e instrumental, buscamos exatamente esse contraste: o tom contido de quem analisa a cena versus a energia de quem escolhe fechar o ciclo.
Vocês definem a faixa como o fim da inocência em uma relação unilateral. O que existe de libertador em parar de justificar o comportamento do outro e retomar o controle da própria história?
O ato libertador está em parar de gastar energia criando desculpas para a postura alheia. Quando você para de justificar o outro, a expectativa desmorona e a dependência de validação acaba. A dor do término ainda existe, mas o controle da própria narrativa volta integralmente para as suas mãos.
Musicalmente, “Vai Ver” combina guitarras densas, groove de bateria e vocais carregados de emoção. Como vocês buscaram equilibrar peso, melodia e vulnerabilidade nessa faixa?
A intenção foi criar uma sonoridade que espelhasse a dinâmica da letra. As guitarras densas trazem a tensão e o desabafo, enquanto o groove de bateria garante a tração e a postura firme que a música pede — evitando que ela soe apenas melancólica. A vulnerabilidade sobressai nos respiros harmônicos, onde a voz fica exposta.

A Manu tem um papel importante na construção das melodias e letras da banda. Como a voz dela ajuda a dar verdade emocional a uma música sobre desilusão, amadurecimento e ruptura?
A Manu imprime uma entrega vocal crua e muito honesta. Em “Vai Ver”, ela transita da fragilidade à indignação sem soar caricata. A voz dela busca a intenção exata de cada verso, fazendo com que quem escuta sinta a dor do desencanto e a força da ruptura na mesma medida.
O produtor Vini Nalon manteve a estrutura da música, mas acrescentou coberturas de guitarra e novas ideias ao arranjo. O que essa parceria trouxe para ampliar os diferentes climas da faixa?
O Vini teve a sensibilidade de preservar a espinha dorsal que levamos ao estúdio, mas agregou camadas texturais de guitarra e detalhes de arranjo que amplificaram os contrastes. Ele ajudou a valorizar as dinâmicas de volume e os climas da faixa, criando picos de intensidade nos momentos certos.
A Nuna vem construindo uma nova fase desde a transição do nome Sem Meia, passando por lançamentos como “Faz um Favor”, “Velha Jaqueta”, “Outro Lugar” e “Vozes”. Como “Vai Ver” se encaixa nesse processo de reinvenção e consolidação da identidade da banda?
“Vai Ver” sintetiza a maturação desse ciclo. Desde a transição do nome Sem Meia e o caminho percorrido com “Faz um Favor”, “Velha Jaqueta”, “Outro Lugar” e “Vozes”, viemos lapidando nossa sonoridade e narrativa. A nova faixa consolida uma postura mais visceral, direta e consciente do espaço que a banda quer ocupar.
Apesar de partir de uma dor, a música parece apontar para autoconhecimento e reconstrução. Que sensação vocês gostariam que permanecesse em quem ouvir “Vai Ver” e se reconhecer nessa história?
Queremos que permaneça uma sensação de alívio e encorajamento. Que a música funcione como um desabafo necessário, mas, acima de tudo, como um lembrete de que encerrar ciclos unilaterais não é uma perda, e sim o ponto de partida para a reconstrução do próprio valor.
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