Paulo Spínola transforma Amazônia e ancestralidade indígena em aventura juvenil em “O Mistério do Povo Mamoé”

Luca Moreira
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Paulo Spínola
Paulo Spínola

Em “O Mistério do Povo Mamoé”, o escritor e biólogo Paulo Spínola conduz o leitor por uma jornada de aventura, descoberta e resistência através da Amazônia. A obra acompanha Jobim, um adolescente que parte em busca do pai e acaba encontrando também suas raízes indígenas e a complexidade dos povos que habitam a região. Inspirado por experiências reais vividas durante anos de atuação como analista ambiental, Spínola mistura fantasia, geografia e questões socioambientais para construir uma narrativa que aproxima jovens leitores da cultura amazônica e dos desafios enfrentados por comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

Em “O Mistério do Povo Mamoé”, a jornada de Jobim em busca do pai também parece ser uma busca por pertencimento e identidade. O que mais te interessava explorar nessa travessia tão íntima e, ao mesmo tempo, tão grandiosa?

A busca pela identidade e de encontrar seu lugar no mundo, fazem parte do ser humano. O texto sobre a trajetória de Jobim, retrata como a experiência de conhecer e trabalhar na Amazônia, permitiu delinear uma história pautada nesse universo rico em estímulos, surpresas e desafios. Permitiu mesclar a diversidade cultural e ambiental, com os conflitos inerentes ao histórico de ocupação da Amazônia, provocados tanto por inserções do passado, quanto por ações recentes.

Jobim parte em direção à Amazônia movido por uma ausência muito profunda. Como foi construir um protagonista que transforma uma falta afetiva em coragem para seguir adiante?

A falta pode promover diferentes tipos de resposta, desde recolhimento e depressão, até o enfrentamento e a busca por respostas. Nosso protagonista, o garoto Jobim, encontra-se num momento de escolha e conta com o apoio de sua mãe, para partir em busca de preencher as lacunas de sua história. Creio que todo ser humano passa por momentos semelhantes durante a vida, e cada um responde a seu modo, e essas escolhas determinam o futuro.

O livro mistura aventura, mistério e fantasia, mas também carrega um olhar muito concreto sobre a região amazônica e seus conflitos. Como você encontrou esse equilíbrio entre encantamento narrativo e realidade social?

Não pretendia criar um texto meramente fantástico, nem escrever algo técnico sobre meio ambiente. A ideia foi criar uma história que pudesse explorar fatos sobre ilícitos ambientais e sobre a história de ocupação da Amazônia, de forma atrativa ao público-alvo, ou seja, ao leitor adolescente e jovem, unindo à aventura, mais o componente mágico representado pelo Povo Mamoé.

Sua vivência como analista ambiental e suas viagens pela região claramente atravessam a obra. Em que momento essas experiências deixaram de ser memória pessoal e passaram a pedir forma literária?

Os relatos de viagens foram cruciais para dar azas à imaginação. O trabalho como Analista Ambiental, nas ações de fiscalização e de reuniões com comunidades, evidenciou o grande conflito que existente entre as leis ambientais e modo de vida das comunidades que, por vezes, atuam diretamente nos ilícitos. O contato com o ambiente amazônico e a convivência com estes conflitos, acabaram gerando o desejo de transformar relatos e anotações em texto fluido e atrativo ao leitor.

Paulo Spínola
Paulo Spínola

Ao longo da narrativa, Jobim cruza rios, territórios e povos diferentes, e cada encontro parece ampliar sua visão de mundo. O que essa geografia da travessia representa, simbolicamente, dentro da história?

A vida na Amazônia é refém de seus rios e igarapés. A Amazônia é gerida em função do ciclo das águas, assim como o modo de vida de seu povo. Viver neste ambiente é um desafio constante, e toda vivência traz ganhos, mesmo as mais desagradáveis, isso faz parte de nossa trajetória pela vida. Acredito que as experiências têm que ser vividas no mundo real, conflitos, desafios, frustrações, derrotas, vitórias, fazem parte de todo aprendizado. Afastar os jovens dos riscos da vida, forma indivíduos fracos, imaturos e superficiais. Por outo lado, enfrentar desafios testam nossa coragem e receios, e evidenciam nossos potenciais e limites,

A obra apresenta aos jovens leitores temas como garimpo, degradação ambiental e resistência indígena, quilombola e ribeirinha. O que te moveu a tratar dessas questões dentro de uma narrativa voltada para adolescentes?

Os jovens devem ser os principais agentes de defesa ambiental, eles não são os responsáveis pela imensa variedade de irregularidades cometidas contra a natureza, mas, certamente, serão os maiores prejudicados no futuro. Criar gerações conscientes da necessidade de cuidar da saúde ambiental de sua cidade e de seu país, é cuidar do futuro planeta também.

Samiris e a trajetória da Sacerdotisa Mamoé ampliam a dimensão mítica e espiritual do livro. O que a fantasia te permitiu dizer sobre a Amazônia que talvez uma narrativa puramente realista não alcançasse?

A Amazônia é um ambiente místico, por natureza, seu povo é formado ouvindo lendas e causos sobre visagens, sobre o boto que vira homem para seduzir as donzelas, sobre o Curupira que cuida da floresta, sobre o Mapinguari e tantos outros seres espirituais. Daí a inclusão do Povo Mamoé na história.

A ideia de criar os Mamoé, veio de relatos, sobre um povo que migrou do Peru para a Amazônia, fugindo dos invasores espanhóis, que dizimaram e pilharam o Império Inca. Daí, bastou juntar a aura mística de Machu Picchu, com a ligação espiritual que os povos da floresta mantêm com os elementos da natureza.

Você conta que essa história começou ainda quando escrevia correspondências para amigos, imaginando aventuras possíveis. Depois de tantos anos e caminhos vividos, o que significa ver esse universo finalmente chegar aos leitores em livro?

A Saga de Jobim na Amazônia, é contada em três volumes, e O Mistério do Povo Mamoé é o primeiro volume da saga. Embora o esboço da trama já estivesse praticamente escrito desde 2012, a história foi sendo aprimorada e enriquecida com novas vivências ao longo dos anos, e agora chegou meu momento de fazer como Jobim, e enfrentar mais este desafio.

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