Em Crônicas das Brumas Densas, o escritor Rafael Mininel constrói um universo de fantasia sombria onde batalhas épicas, entidades sobrenaturais e uma mitologia original servem de pano de fundo para discutir temas profundamente humanos. Acompanhando a jornada de Valek, um soldado treinado para obedecer que passa a questionar a violência do regime que jurou defender, a obra aborda dilemas como autoritarismo, manipulação da memória, perseguição e o preço de desafiar sistemas opressores. Em entrevista, o autor fala sobre a criação desse vasto universo fantástico, as inspirações por trás de seus personagens e como a fantasia pode se tornar um instrumento para refletir sobre liberdade, consciência e os conflitos que atravessam diferentes sociedades.
“Crônicas das Brumas Densas” apresenta Valek como um soldado treinado para obedecer sem questionar, até o momento em que a violência ultrapassa qualquer justificativa possível. Em que ponto você percebeu que a ruptura moral dele seria o coração da narrativa?
A origem de Valek surgiu quando estudei os massacres da Guerra da Bósnia, especialmente os relatos de soldados enviados para exterminar aldeias inteiras em nome de uma limpeza étnica. Aquilo me fez perguntar o que acontece dentro de alguém treinado para obedecer quando uma ordem destrói sua própria humanidade. Percebi então que o verdadeiro conflito da história não seria uma guerra, mas a consciência.
A cena em Porthus, com uma cidade simples sendo condenada por ser considerada “improdutiva”, carrega uma brutalidade muito humana. O que você queria provocar no leitor ao contrastar a vida cotidiana da população com a lógica fria do Império?
Queria mostrar que a violência se torna mais assustadora quando atinge pessoas comuns. Antes da invasão, Porthus tem cheiro de pão, crianças brincando e uma rotina simples. Isso faz o leitor perceber que estatísticas, discursos e justificativas políticas sempre escondem vidas concretas. Quando a guerra entra em uma casa comum, deixa de ser uma ideia e passa a ser uma tragédia humana.
Valek foi doutrinado a acreditar na superioridade do seu povo e a naturalizar mortes em nome do poder. Como foi construir um protagonista que começa como instrumento do autoritarismo, mas passa a confrontar aquilo que ajudou a sustentar?
Eu não queria um herói perfeito, mas alguém profundamente marcado pelo ambiente em que foi criado. Pessoas não abandonam anos de doutrinação de um dia para o outro. A transformação de Valek acontece lentamente, atravessada por culpa, medo e contradições. Para mim, romper uma ideologia exige enfrentar também a própria identidade.
A presença das duas crianças escondidas sob a mesa parece funcionar como o instante em que Valek recupera algo essencial de sua humanidade. Por que esse encontro se tornou o ponto de virada da trajetória dele?
Porque ali desaparece qualquer abstração. Até então, a guerra podia ser justificada por discursos, ordens e ideologias. Diante de duas crianças aterrorizadas, nenhuma teoria permanece de pé. Valek deixa de enxergar “inimigos” e passa a enxergar pessoas. É nesse instante que a consciência finalmente vence a doutrinação.

O livro aborda violência estatal, limpeza étnica, apagamento da memória e perseguição política dentro de uma fantasia sombria. Por que esse gênero te pareceu um caminho potente para discutir temas tão duros e atuais?
A fantasia cria uma distância segura para que o leitor entre na história sem levantar defesas, mas preserva toda a força das questões humanas. Ao inventar um mundo, não estou fugindo da realidade; estou oferecendo outra perspectiva para observá-la. Muitas vezes, o fantástico consegue discutir autoritarismo, intolerância e violência com uma liberdade que o realismo dificilmente alcança.
O Arquivista Sombrio, que se alimenta de versões contraditórias de uma mesma história, é uma figura muito simbólica. O que essa entidade revela sobre memória, verdade e manipulação narrativa dentro do universo da obra?
O Arquivista Sombrio simboliza um mundo em que a verdade pode ser destruída não apenas pela censura, mas também pelo excesso de versões, pela manipulação da informação e pelas fake news. Quando ninguém sabe mais em que acreditar, a própria realidade enfraquece. Ele representa o poder de controlar narrativas e transformar o esquecimento em uma arma.
Personagens como Mira, Led e Lyra carregam formas diferentes de resistência: liderança, ruptura da ordem e sensibilidade em meio à brutalização. Como essas figuras ampliam a jornada de Valek para além do heroísmo individual?
Eu queria mostrar que nenhuma transformação acontece sozinha. Mira é uma tecelã que deixa de apenas remendar a própria vida para unir pessoas e tecer uma resistência coletiva, conquistando a liderança pelo respeito. Led representa o sacrifício absoluto, apagando a própria existência para salvar o mundo. Lyra, como cantora capaz de ancorar a realidade, simboliza a arte como resistência ao autoritarismo. Juntos, mostram que um mundo não é salvo apenas por guerreiros.
A obra sugere que a lucidez tem um preço alto em um mundo onde a verdade pode ser apagada e o heroísmo raramente é recompensado. Depois de atravessar essa jornada com Valek, que tipo de inquietação você gostaria que permanecesse no leitor?
Espero que o leitor termine o livro perguntando até que ponto suas próprias convicções são realmente suas. Mas também gostaria que guardasse a memória de Led. Seu maior ato heroico foi salvar o mundo ao custo da própria existência, tornando-se alguém que jamais poderia ser lembrado por aqueles que salvou. Apenas o leitor conhece esse sacrifício. Talvez lembrar de Led seja, no fim, uma forma de vencer o esquecimento.
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