Depois de anos afastada da atuação e de enfrentar momentos decisivos em sua vida, como a perda da mãe e um AVC que quase interrompeu sua trajetória, a atriz e humorista Yrla Braga vive uma virada profissional ao interpretar Rosinha na novela “Coração Acelerado”, da Globo. Conhecida por transformar experiências difíceis em humor e conexão com o público, Yrla fala sobre o reencontro com a arte, a influência da comédia em seu processo de cura e a oportunidade inesperada que a levou de volta aos palcos e às telas. Em entrevista, ela relembra os desafios da caminhada, a importância de acreditar em novos começos e os planos para uma carreira que, agora, volta a acelerar.
Você vive hoje um momento muito bonito com a Rosinha em Coração Acelerado, mas sua trajetória até aqui foi marcada por interrupções, dor e recomeços. Em que momento você sentiu, de verdade, que a arte tinha voltado a fazer sentido na sua vida?
O dia em que subi no palco de fato para atuar, não só para produzir, não só para ajudar, para escrever. Naquele momento em que pisei no palco, vi a plateia, me conectei, fiz as primeiras piadas e fui conduzindo o show de humor, as coisas foram se encaixando. Eu senti que nunca deveria ter saído dali, que aquele lugar me acolhia, me fazia bem, ao mesmo tempo em que eu conseguia fazer outras pessoas se sentirem bem. E essa troca de energia entre mim e a plateia me fez entender que era aquilo que eu tinha que fazer, que aquele era o meu lugar. Era viver da minha arte, e aquilo fazia sentido. Eu não devia ter deixado isso para trás, como deixei, como abandonei, quando acabei perdendo a minha mãe.
A perda da sua mãe parece ter mudado completamente a sua relação com o palco. Como foi redescobrir a arte não mais a partir da ausência, mas como um caminho possível de cura?
A minha mãe era o fundamento mais importante da minha vida, era a minha melhor amiga, minha confidente. Eu falo que minha mãe não supria só o papel financeiro, de mãe, de educação, tudo isso. Ela cuidava de mim e do meu irmão, e não só de nós dois, mas de tantas outras pessoas, de um jeito mais profundo. Às vezes a gente fala assim: “Ah, porque é sua mãe”, mas, de fato, a minha mãe era muito fora da casinha, tanto que vários amigos nossos a tinham como uma mãe, uma segunda mãe também. Mas, quando eu me vi sem essa pessoa que me incentivava, que me assegurava, que me dava esse porto seguro, para mim, além de tudo perder o sentido, parecia que todas as coisas ruins do universo conseguiam me atingir. Eu não tinha mais aquele escudo, aquela segurança de olhar para a plateia e ver minha mãe. Então fui acometida por um medo muito grande: do fracasso, do não conseguir, do medo de subir no palco com o sentimento de não tê-la ali, de não ter ela para me apoiar, de não ter a opinião dela. Eu sempre me baseei muito na opinião da minha mãe quando fazia um texto, quando estava interpretando alguém. Eu sempre fazia uma preparação artística com ela, sabe? Mesmo ela não sendo atriz. E isso me ajudava muito. Me ajudava a fundamentar meus personagens, as minhas histórias. Então, eu me vi totalmente sem amparo quando me vi sem a minha mãe. Mas, em algum momento, o universo me empurrou de volta para esse lugar, para entender que o palco, em vez de me trazer medo e me afastar da minha mãe, ia me deixar mais próxima dela, em um lugar de segurança, de acolhimento, de colo, muito parecido com o que eu tinha com ela. Então, acho que, no palco, por mais que minha mãe — mais uma vez eu repito — não fosse artista, ela era professora, e eu acho que lecionar é uma das artes mais importantes que a gente tem. Ela fundamentou toda a minha base artística, e eu guardo muito dos conselhos dela, das dicas dela, na minha memória, na minha construção de personagens e também como ser humano.

Você disse que escreveu seu primeiro show de stand-up inteiro sobre a sua mãe. O que a comédia te permitiu dizer sobre o luto que talvez nenhum outro formato conseguisse alcançar?
A comédia me permitiu falar sobre esse luto sem que ele me engolisse, sem que ele me dominasse. O stand-up me fez transformar tudo aquilo, toda aquela dor, toda aquela coisa que me fazia paralisar, em algo que pudesse fazer sentido. Então, escrever um show… Eu não comecei pensando sobre o que ele seria. Conforme fui escrevendo, foram surgindo histórias da nossa infância, da minha vida com a minha mãe, da minha relação com ela. E esse show inteiro foi uma forma que encontrei de mantê-la viva. Em vez de apenas falar da ausência, eu pude falar da presença dela, das histórias engraçadas, dos ensinamentos, das manias, que continuam comigo até hoje. Então, o humor tem esse poder de acessar lugares mais profundos sem tornar tudo insuportável, tudo muito doloroso. A comédia permite — e me permitiu — compartilhar essa experiência com outras pessoas. Então, quando alguém ri de uma história sobre a minha mãe, é como se, por alguns segundos, ela estivesse ali de novo, presente na memória e no afeto. E, ao mesmo tempo, eu consigo perceber que muita gente se reconhece nessas histórias e também acaba encontrando um pouco de conforto. Talvez nenhum outro formato me desse essa possibilidade de chorar e rir ao mesmo tempo. O stand-up, a comédia, transformou essa saudade em um encontro. E mostrou que o luto não precisa ser apenas silêncio e dor. Ele também pode ser memória, amor e até riso. Inclusive o riso.
Há algo muito forte na sua fala sobre pessoas que te procuravam depois dos shows para dizer que se reconheciam naquilo. Em que momento você percebeu que a sua cura também começava a tocar a dor dos outros?
Acho que esse foi um dos momentos mais inesperados da minha trajetória dentro da comédia. No começo, eu não queria subir no palco. Aí subi quase por uma obrigação de agenda e porque as pessoas que me queriam ali precisavam de mim. Depois, isso passou a ser uma necessidade pessoal para organizar muita coisa, para tentar sobreviver a esse luto, e a comédia era, antes de tudo, uma forma de me curar também. Mas, toda vez que chegava ao fim dos shows, muitas pessoas se aproximavam emocionadas: pessoas que conheciam minha mãe, lembravam muito dela, ou pessoas que nunca tinham me visto na vida, não conheciam a minha história, mas que também tinham perdido alguém importante. E elas vinham me dizer que, ao ouvir aquelas histórias, conseguiam rir de uma dor que, até então, parecia impossível de ser tocada. Foi nesse momento que percebi que aquilo já não era apenas sobre mim. Eu entendi que, quando a gente conta uma história com honestidade, abre espaço para que outras pessoas se sintam acolhidas e compreendidas. A minha dor, que parecia tão particular, tão minha, acabou se revelando profundamente humana e compartilhada, porque todo mundo passa por experiências traumáticas durante a vida. Então, perceber isso foi muito transformador para mim. A cura deixou de ser um processo solitário e passou a ser um processo de encontro. Enquanto eu tentava reconstruir a minha própria vida, acabava oferecendo a outras pessoas a possibilidade de enxergar que, mesmo depois de uma perda devastadora, ainda era possível encontrar leveza, afeto, carinho e sentido para continuar. E isso foi muito bacana, sabe? Eu demorei para entender isso. Foi muita gente me apontando isso, e a terapia também, porque eu tenho um grande defeito de não acreditar no poder das coisas que a gente pode fazer, principalmente das que eu posso fazer. Então, foi bem importante realizar e entender tudo isso, sabe? E compreender o tamanho da força da arte que eu estava fazendo — e estou fazendo.

O AVC aos 29 anos aparece na sua história como uma espécie de ruptura definitiva, quase um chamado para viver sem adiamento. O que essa experiência extrema mudou em você como mulher, artista e ser humano?
Ah, foi um bagulho meio louco, né? Mas me mudou, acho que, completamente, porque o trauma de perder a minha mãe me deixou num ponto em que eu precisava aproveitar as pessoas, porque eu achava que elas eram finitas e eu tinha que aproveitar, falar para elas que as amava, que gostava de estar com elas. Se tivesse algum problema, eu queria resolver o quanto antes, porque precisava aproveitar ao máximo aquela pessoa. Isso era uma coisa que minha mãe já ensinava. Tanto que ela colocava a gente para ler O Menestrel toda vez, e esse texto é muito bonito. E aí a gente sempre teve essa coisa de falar “eu te amo” um para o outro o tempo todo, principalmente quando se despedia, porque existia essa ideia do Menestrel: pode ser a última vez que você vê aquela pessoa, pode ser o último “eu te amo” que vai dizer a ela. Porque a gente não sabe o próximo segundo, né? Mas eu tinha isso muito com o outro, não comigo. A partir do episódio do AVC, em que fiquei dentro de uma UTI, eu falei: “Cara, eu também sou finita, eu também tenho meu prazo correndo aqui, e preciso aproveitar esse prazo comigo. Eu também preciso ser amada, eu também preciso me amar”. Então, tudo isso que eu fazia pelo outro eu tive que começar a fazer por mim. E isso acabou me mostrando um ponto que minha mãe sempre falava: você pode amar o outro o tanto que quiser, mas tem que amar a si mesma ainda mais, porque precisa ter esse respeito por si, precisa saber os seus limites. Eu comecei a entender os meus limites e a me arriscar mais também, porque antes eu achava que não tinha esse direito, que tinha que estar sempre presente para a outra pessoa. E foi quando até a minha carreira começou a alçar voos maiores. E isso foi muito gostoso. Ainda estou nesse processo de me amar, de me aproveitar mais. Agora, passando bastante tempo sozinha, longe da família, aqui no Rio de Janeiro, eu tenho tido bastante tempo para me entender, para compreender meus medos, minhas ansiedades, os meus sins, os meus nãos, comigo mesma, eu comigo mesma. E tem sido bem gostoso, bem gostoso mesmo me descobrir nesse mundo como um ser humano que, além de amar, também quer ser amada — e eu entendo que não só pelo outro, mas por mim também.
O encontro com Paulo Vieira parece ter acontecido justamente num momento em que você começava a se reposicionar diante da vida. Como foi receber essa aposta de alguém de fora quando você mesma já não colocava mais a televisão entre os seus sonhos possíveis?
O Paulo, eu já tinha uma imagem dele como um artista genial, imenso, maravilhoso. Mas a gente sempre tem medo de conhecer esses artistas que admira muito e essa pessoa não ser aquilo que você idealizou. Só que o Paulo realmente não era nada do que eu idealizava, porque ele é muito maior, muito mais generoso, muito mais admirável, muito mais gênio do que eu consegui imaginar. E esse encontro com ele foi muito bom, porque eu já estava num processo de fazer shows e ir para algumas outras cidades, mas ainda tinha muito medo de enfrentar isso, porque achava que talvez não estivesse em um nível bom para grandes capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro. E ele virou para mim e falou: “Não, você está, sim. Eu acho que você tem que ir, sim. E, se você quiser minha ajuda, eu estou disposto a ajudar”. Então foi muito gostoso ouvir isso de uma pessoa que nunca tinha me visto na vida, que não tinha motivo para puxar saco ou afofar o meu ego. Porque, muitas vezes, dentro de casa, as pessoas falam: “Não, mas é bom mesmo”, né? Um amigo, uma pessoa que te ama, às vezes vai achar qualquer coisa que você faz muito boa — apesar de o meu marido ser um crítico ferrenho e me dar toques maravilhosos, inclusive sobre shows, piadas e tudo. Então eu sempre ficava desconfiada, pensava: “Ah, essa galera gosta de mim, né? Acho que não sei, não confio”. E aí, quando vem o Paulo, ele realmente esfrega na minha cara que eu tinha, sim, uma possibilidade, uma capacidade de estar em um nível que eu achava que ainda não estava. E isso foi crucial para mim, para eu ter coragem de sair da minha zona de conforto e partir para São Paulo, Rio de Janeiro. E todas as oportunidades que surgiram dali em diante eu não deixei passar nenhuma.

Rosinha chegou quando você já não estava mais esperando por esse tipo de oportunidade. O que existe nela que conversa com a Yrla de hoje, essa mulher que voltou a acreditar depois de tanto tempo?
A Rosinha… Nossa, a Rosinha. Eu não sei se é assim que funciona sempre com os primeiros personagens que a gente faz na TV, mas estou bem apaixonada pela coragem dela, acho isso muito bacana. Porque a Rosinha fala algumas coisas com as quais eu não concordo, mas, quando percebe que passou do ponto, ela volta atrás e reconhece o erro. Ela sabe que errou, pede desculpas, não tem problema com isso, não tem essa coisa do ego inflado, de ficar batendo na tecla de que está certa, de que o que falou está certo. Então, ela viu que errou, vai lá e pede desculpas. Eu gosto disso, dessa capacidade de reconhecer e não ter medo de falar. Eu quero isso para mim. E acho que a Rosinha vai mostrar muito esse lado dela, essa personalidade forte, essa opinião de mulher que não vai deixar alguém dizer para ela o que pode ou o que tem que fazer. E poder fazer isso com as gravações ali tem sido muito gostoso. A Rosinha está definitivamente morando no meu coração. Estou apaixonada pela Rosinha, gente. Está muito gostoso fazer essa personagem. Lógico que quero fazer outros papéis, mas acho que ela sempre vai ficar marcada como esse primeiro momento de viver tudo isso, de ser uma pessoa deslumbrada, que não esconde o deslumbramento, não esconde as pessoas que admira. E acho que eu e a Ila também temos um pouco disso. Eu não tenho escondido a minha felicidade. O pessoal até começou a brincar no elenco, porque todo dia em que vou gravar eu passo dando bom-dia, boa-tarde, boa-noite para o seu Roberto. Quando saio dos estúdios, também falo com o seu Roberto, que é uma estátua que fica bem na entrada dos estúdios, logo depois das catracas. A gente entra e ele está lá, dando boas-vindas para a gente. Então eu falo com o seu Roberto, brinco, e isso acabou virando uma brincadeira interna entre algumas pessoas do elenco: mandar esse alô para o seu Roberto, em respeito à firma. Então comecei essa brincadeira porque não tenho vergonha de ser quem eu sou, de fazer as gracinhas que faço, e acho que a Rosinha tem um pouco disso também.
Você diz que quer continuar fazendo comédia, mesmo num meio que muitas vezes ainda trata o humor como algo menor. O que te move tanto nesse desejo de defender a comédia como linguagem potente e profundamente humana?
O que me move, com toda certeza, é que a comédia pode alcançar lugares que muitas vezes outro formato não vai conseguir tocar. Durante muito tempo, o humor foi tratado como algo superficial, como se fazer rir fosse menos importante do que fazer chorar ou provocar reflexão. Para mim, a comédia é justamente uma das formas mais profundas de a gente falar sobre a condição humana. Foi através dela que consegui elaborar e lidar melhor com o luto pela minha mãe, ressignificar dores muito íntimas e transformar experiências difíceis em algo capaz de gerar identificação e acolhimento. Então, quando uma pessoa ri, ela abaixa suas defesas, se reconhece, se permite sentir. E, nesse instante, é possível falar de temas delicados com uma honestidade que talvez não fosse suportável de outra maneira. Talvez, se você falar do luto diretamente com a pessoa, ou de uma dor específica… Eu encontrei outras pessoas que tiveram AVCs muito jovens e também estavam muito revoltadas com a vida, e, ao verem o show, ao ouvirem as piadas, começaram a enxergar aquilo de outra forma. Porque, talvez, quando alguém tentava justificar dizendo “não, mas olha, pelo menos você está aqui”, elas já não queriam mais ouvir aquilo. Então comecei a fazer piadas, e elas entenderam que, calma, também existe um outro viés nisso tudo. Então, defender a comédia é defender essa potência de cura, de conexão. O riso não diminui a dor; ele talvez a torne mais compartilhável. Ele cria pontes entre pessoas que muitas vezes poderiam estar se sentindo sozinhas em seus próprios conflitos. E, através do riso, a gente se conecta. É por isso que eu quero muito continuar fazendo comédia, porque acredito que fazer alguém rir também pode ser uma forma de oferecer conforto, de levar aquela pessoa a refletir, de trazer esperança. E poucas coisas me parecem tão profundamente humanas quanto a capacidade de transformar a própria vulnerabilidade em um encontro verdadeiro com o outro. Então, acho que a comédia tem esse poder gigantesco, e eu vou continuar lutando e tentando fazer comédia aonde quer que eu vá.
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