Ana Carolina Sauwen vive vilã em Cansei de Ser Nerd e transforma desconforto em linguagem artística

Luca Moreira
13 Min Read
Ana Carolina Sauwen
Ana Carolina Sauwen

Com a estreia de Cansei de Ser Nerd nos cinemas, no dia 28 de maio, a atriz, diretora e criadora Ana Carolina Sauwen apresenta uma nova faceta de sua trajetória ao interpretar Amanda, uma vilã magnética, estranha e marcada pelo desconforto. Conhecida por transformar contradições do cotidiano feminino em humor e reflexão, Ana fala sobre o desafio de provocar riso a partir do estranhamento, a parceria com Fernando Caruso e seus projetos autorais, como o solo Da Mama ao Caos. Em entrevista, ela reflete sobre maternidade, síndrome da impostora, trabalho feminino e a força de uma arte que nasce justamente das camadas não resolvidas da vida.

Em Cansei de Ser Nerd, você interpreta uma personagem que parece provocar mais estranhamento do que identificação imediata. O que te atraiu nesse lugar mais desconfortável e menos óbvio da Amanda?

Eu acho muito interessante trabalhar personagens que não são planas, personagens que, quando você olha, não consegue definir imediatamente quem  elas são. Gosto desse lugar que deixa dúvidas, abre camadas e mantém possibilidades em aberto, em vez de entregar uma leitura tão imediata. Isso amplia muito as possibilidades do meu trabalho como atriz e também pode despertar um interesse maior no público.

A Amanda tem exatamente isso. Ela é muito esquisita, tem um olhar extremamente penetrante e, ao mesmo tempo, fala como se estivesse seduzindo o tempo inteiro. Só que você nunca sabe exatamente se aquilo é sedução ou ameaça. E esse território ambíguo me parece muito instigante, tanto para quem interpreta quanto para quem assiste.

Você comenta que te interessa um tipo de riso que nasce da desorganização, e não do conforto. Como essa ideia atravessa sua construção como atriz e também sua visão de humor?

Eu me interesso muito mais por um humor que provoca do que por um humor que simplesmente conforta. Acho interessante quando o riso desloca o olhar, provoca novas leituras e faz a gente enxergar as coisas por um caminho menos óbvio.

Na minha construção como atriz, isso também aparece bastante. Gosto de personagens e situações que criam algum tipo de tensão, estranhamento ou contradição, porque sinto que é justamente aí que existe potência. Um humor que provoca mais do que acalma acaba abrindo espaço para reflexão. Ele não entrega tudo pronto, ele mexe em alguma coisa. E isso me interessa muito artisticamente.

Amanda fala como se estivesse sempre seduzindo alguém, mas de um jeito estranho, quase deslocado. Como foi encontrar a medida dessa presença tão magnética quanto incômoda?

Encontrar essa medida foi um trabalho muito conjunto entre mim e o preparador de elenco, Marcello Bosschar. E eu confesso que, até assistir ao filme pronto, eu estava insegura sobre como a personagem chegaria na tela.

Eu brinco que era um tipo de construção que podia dar errado, podia facilmente ficar exagerado demais. Então foi um processo bastante delicado, de tentar encontrar esse equilíbrio entre sedução, estranhamento e ameaça sem transformar a personagem numa caricatura.

Acho que a gente conseguiu chegar num território de bastante rico, mas justamente por ter trabalhado no risco é que a construção ficou tão interessante. Amanda habita um lugar muito desconcertante, e eu gosto disso nela.

Ana Carolina Sauwen
Ana Carolina Sauwen

Ao longo da sua trajetória, humor, crítica e experiência pessoal aparecem muito entrelaçados. O que muda quando você sai de um humor mais reconhecível do cotidiano e entra em um território mais inquietante, como nesse filme?

Eu acho muito interessante poder trabalhar dentro de vários territórios e linguagens artísticas. No stand-up comedy, por exemplo, eu parto muito de situações cotidianas, especialmente ligadas à maternidade, que geram uma identificação muito imediata nas mulheres e nas mães que assistem.

Mas entrar em um universo como o de Cansei de Ser Nerd, uma comédia sci-fi que vai para um lugar completamente absurdo e inquietante, me encanta da mesma maneira. O que muda é justamente o caminho pelo qual o humor chega. Nesse caso, ele nasce mais do estranhamento, do desconcerto, de um território menos reconhecível.

E eu gosto muito dessa possibilidade de percorrer caminhos tão diferentes. Acho que o mais interessante da minha profissão é justamente poder transitar entre linguagens, entre tons, entre universos distintos — não só dentro da comédia, mas também no drama e em outras formas de narrativa.

Sua fala sobre maternidade chama atenção justamente por fugir da idealização e afirmar que a mãe também existe para além do cuidado. Em que momento essa percepção se tornou central na sua criação artística e no seu discurso público?

Acho que isso veio de um processo de amadurecimento na minha relação com a maternidade, muito atravessado por leitura crítica, estudo e também pela análise — eu faço análise há muitos anos, então estou sempre pensando sobre o meu próprio percurso existencial.

Na medida em que eu fui me tornando uma voz para muitas mães, comecei a sentir uma responsabilidade grande de dizer algo que fosse realmente relevante. Eu sou muito estudiosa: quando um tema me interessa, gosto de mergulhar profundamente nele. Então li muito sobre maternidade, gênero e estrutura social, e isso foi afinando meu olhar crítico.

Ao mesmo tempo, houve um movimento muito pessoal. Em determinado momento, percebi que a maternidade tinha me ocupado completamente e que eu estava cansada de existir apenas dentro desse lugar. Comecei a querer retomar meus próprios interesses, desejos e sonhos. E, quando comecei a falar sobre isso publicamente, percebi o quanto essa sensação ecoava em outras mulheres.

Também fui entendendo que existe um interesse social em manter a mulher apenas a serviço do cuidado. Então pensei: “tem alguma coisa errada aqui”. E comecei deliberadamente a me reconectar comigo mesma e a dividir esse processo com outras mulheres.

O que me toca muito é perceber que, muitas vezes, aquilo que eu elaboro através da arte, da leitura e da reflexão acaba funcionando como uma voz para mulheres que estão sentindo tudo isso, mas não tiveram tempo, espaço ou possibilidade de elaborar essas questões. E aí entram também atravessamentos de classe e raça muito importantes. Muitas mulheres estão completamente absorvidas pela sobrevivência e pela criação dos filhos. Então poder transformar essas experiências em reflexão coletiva também é uma forma de ampliar o debate e criar identificação.

Em trabalhos como Da Mama ao Caos e na palestra Muito além do parabéns, você transforma experiências íntimas em reflexão coletiva. Como é perceber que aquilo que nasceu da sua vivência também funciona como espelho e alento para tantas mulheres?

Acho que isso é justamente o que mais me motiva a continuar aprofundando esses temas. Tenho muito interesse em entender de onde vêm certos comportamentos femininos, o quanto eles são fruto de processos de socialização e como a gente pode começar a olhar criticamente para isso. Na palestra, por exemplo, existe muito esse desejo de fazer com que mais mulheres consigam perceber determinados padrões e, a partir daí, possam construir uma existência mais plena e mais feliz.

Eu sou muito movida pelo retorno que recebo das mulheres. Recebo muitas mensagens na internet e também no fim dos shows, contando o quanto o meu trabalho impacta de maneira positiva a vida delas. E acho que isso acontece porque a maternidade é muito atravessada pela culpa. Existe sempre uma cobrança muito grande sobre as mães, e nós mesmas acabamos indo facilmente para esse lugar da culpa materna.

Então sinto que o meu trabalho também oferece um certo alívio. Um entendimento de que “tá tudo bem sentir o que eu sinto”, de que outras mulheres também passam por isso. E perceber isso pode ser muito libertador.

Ana Carolina Sauwen
Ana Carolina Sauwen

Você menciona ter enfrentado a síndrome da impostora e, aos poucos, entendido a importância da sua própria voz. O que esse processo de se autorizar a falar mudou em você como artista e como mulher?

Acho que, como artista, esse processo me fez perder um pouco o medo de mergulhar profundamente nas coisas. Entender que o risco de ser mal compreendida ou de ousar demais não pode ser maior do que a vontade de investigar aquilo que realmente me atravessa. Hoje me interessa muito mais criar a partir da verdade, da complexidade e até do desconforto do que tentar caber em expectativas externas.

E, como mulher, isso também foi muito transformador. Acho que a sociedade constantemente tenta fazer com que as mulheres se diminuam para caber em relações, trabalhos, dinâmicas sociais. Existe sempre uma pressão para ocupar menos espaço, para ser mais palatável, mais agradável. Mas agradável para quem?

Então encontrar a minha voz tem muito a ver com ocupar o meu tamanho. Poder me expressar da forma que faz sentido para mim, sem tentar me encaixar o tempo inteiro. E é muito bonito perceber que, quando eu faço isso, encontro eco em outras mulheres também. Acho que existe uma força muito grande quando uma mulher se autoriza a falar e, sem perceber, acaba autorizando outras também.

Hoje você transita entre cinema, teatro, redes sociais, dramaturgia e fala pública com uma coerência muito forte. Quando olha para esse percurso, o que sente que une todas essas frentes da Ana Carolina criadora?

Acho que o que une todas essas frentes da minha criação artística é, principalmente, o desejo de realizar um trabalho coerente com as questões que realmente me mobilizam internamente e que eu sinto que precisam ser debatidas.

Eu procuro estar onde o meu coração entende que existe alguma urgência, alguma verdade importante a ser investigada. E essa verdade não é fixa — ela muda, se transforma, acompanha os movimentos da vida e do meu próprio olhar sobre o mundo. Acho importante permitir essa transformação constante.

Então, em cada escolha que faço, seja no cinema, no teatro, na comédia, na dramaturgia ou nas redes sociais, tento estar profundamente conectada com aquilo que de fato me atravessa naquele momento. Porque acredito que, quando a gente cria a partir de uma experiência verdadeira, aquilo também pode atravessar outras pessoas de maneira muito potente.

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