“Vencer a qualquer custo”: Jackie Dallas explora ambição, poder e imagem em The Hunting Wives

Luca Moreira
13 Min Read
Jackie Dallas (Andy Strong)
Jackie Dallas (Andy Strong)

Na segunda temporada de The Hunting Wives, Jackie Dallas retorna como Jia-Yi, agora ainda mais próxima do centro do jogo político que movimenta a série. Depois de passar a primeira temporada se posicionando para conquistar poder, a estrategista assume um papel fundamental na campanha de Jed Banks para governador — e começa a descobrir o que acontece quando ambição, imagem pública e interesses pessoais deixam de caminhar exatamente conforme o planejado. Para Dallas, uma das perguntas mais interessantes dessa nova fase é justamente: “Em que momento o desejo de vencer a qualquer custo supera a intenção de fazer aquilo que é certo?”

Em entrevista, a atriz fala sobre descobrir novos lados de Jia-Yi, construir a diferença entre a pessoa privada e a imagem cuidadosamente projetada para o público e usar sua antiga formação em medicina para observar pequenos sinais do comportamento humano em cena. Dallas também relembra a decisão de abandonar uma carreira médica estável para seguir a atuação, explica por que considera o conflito interno essencial para personagens interessantes e defende que as mulheres aprendam a reconhecer o próprio corpo e a se posicionar dentro do sistema de saúde.

Na segunda temporada de The Hunting Wives, Jia-Yi parece assumir um papel ainda mais importante à medida que a história avança para uma campanha para governador e para questões envolvendo percepção pública. O que mudou na maneira como você enxerga a personagem agora que ela está muito mais próxima do centro da estratégia política que movimenta a trama?

Na primeira temporada, vemos Jia-Yi se posicionando para conquistar poder. Ela é inteligente, confiante, um pouco ácida, mas muito ambiciosa. Na segunda temporada, vamos descobrir se a estratégia dela dá resultado. Ela conquistou Jed Banks, mas será que tem o que é preciso para levá-lo ao cargo? Tem sido muito divertido explorar a natureza da relação entre os dois e observar como Jia-Yi se comporta quando as coisas acontecem de acordo com o plano dela — e quando não acontecem.

Uma estrategista política precisa compreender não apenas aquilo em que as pessoas acreditam, mas também como desejam ser percebidas. O que mais interessou você em interpretar alguém que trabalha justamente nessa interseção entre identidade privada, ambição e imagem pública?

A pergunta que considero mais interessante sobre políticos é: Em que momento o desejo de vencer a qualquer custo supera a intenção de fazer aquilo que é certo?

E em que ponto o ser humano, com uma vida pessoal, uma história e suas próprias falhas, acaba tão encoberto por uma imagem cuidadosamente construída que passa a mudar como pessoa? Na segunda temporada, vamos ver Jia-Yi administrando a imagem pública de Jed, e ajuda bastante o fato de as ambições dos dois estarem alinhadas. Mas nós, como público, tivemos o privilégio de conhecer a verdadeira personalidade de Jed em sua vida privada, e tem sido divertido tentar descobrir quem Jia-Yi pode ser fora do escritório, quando Jed não está por perto.

Jackie Dallas (Brian Delfin)
Jackie Dallas (Brian Delfin)

The Hunting Wives já estabeleceu um universo moldado por segredos, desejo, poder e relações complicadas. Ao retornar para uma segunda temporada, você sentiu que já conhecia Jia-Yi ou descobriu lados dela que só começaram a aparecer quando recebeu os novos roteiros?

Como atriz, senti que sabia qual era o objetivo de Jia-Yi na campanha de Jed e até onde ela estaria disposta a ir para torná-lo realidade. Mas, como você mencionou, o universo dessa série possui muitos segredos, e as coisas podem ficar complicadas. Os roteiristas da série são tão inteligentes que me levaram a descobrir novos lados dela conforme Jia-Yi se vê diante de situações que nem ela — nem eu — esperávamos.

Antes da atuação, você passou anos estudando medicina e concluiu residência em cirurgia geral e patologia. Existe alguma coisa daquela formação — observar pessoas, lidar com pressão, prestar atenção aos pequenos detalhes — que ainda influencia a maneira como você constrói uma personagem hoje?

Com certeza. Como médicos, somos ensinados a interpretar sinais e sintomas para tratar uma condição, mas nunca devemos esquecer que estamos tratando um ser humano. Quando você trabalha como médica, encontra pacientes em dias bons, dias ruins e, para alguns, nos momentos mais devastadores de suas vidas.

Algumas pessoas querem contar toda a história da própria vida, enquanto outras estão simplesmente desesperadas para serem ouvidas. E existem ainda aquelas que mantêm uma postura estoica e fingem que está tudo bem. Você percebe que cada pessoa reage de uma maneira diferente — e nem sempre da forma que esperamos.

Por isso, precisa aprender a ler nas entrelinhas se realmente quiser compreender como aquela pessoa está se sentindo ou processando determinada informação. Quando construo uma personagem, penso em que tipo de pessoa ela seria e em como reagiria diante de situações boas e ruins.

A partir daí, tento incorporar nuances do comportamento humano, como os hábitos nervosos que uma pessoa pode ter, a postura corporal de alguém que fica na defensiva ou a maneira como a voz pode mudar dependendo do humor. Para mim, isso ajuda a comunicar os sentimentos ou as intenções da personagem para além das palavras escritas no roteiro e também ajuda a mantê-la conectada à vida real.

Jackie Dallas
Jackie Dallas

Deixar a medicina depois de investir tantos anos nesse caminho foi uma mudança enorme. Olhando para trás agora, você sente que estava abandonando uma versão de si mesma ou finalmente permitindo que outra versão, que sempre esteve ali, ocupasse espaço?

A segunda opção. Não acho que alguma vez enxergue uma mudança de vida como um abandono de nós mesmos, porque crescemos e aprendemos muito em cada fase da nossa vida. Eu gostaria de ter gostado mais da medicina.

Investi muito tempo, esforço, lágrimas e dinheiro na minha formação médica e, certamente, teria sido bom permanecer em uma carreira segura e financeiramente estável. Mas, quando você é uma pessoa criativa, existe uma energia irreprimível para criar que é difícil explicar para alguém que não sente isso.

Em todas as fases da minha vida, eu me sentia inspirada a ser artista, contadora de histórias ou performer. E, quando trabalhava 80 horas por semana no hospital, tinha pouquíssimo tempo para fazer qualquer outra coisa, e aquela chama dentro de mim simplesmente sofria.

Quando finalmente tomei a decisão de ir embora, pareceu certo. Por mais louca que eu provavelmente tenha parecido para todas as pessoas ao meu redor, fiquei em paz com a decisão porque sabia que estava indo atrás de algo que realmente me fazia feliz.

Você também é muito engajada na defesa da saúde da mulher e na importância de conhecer o próprio corpo e se posicionar dentro do sistema de saúde. Tendo vivenciado a medicina por dentro como médica em formação e agora de fora da profissão, o que gostaria que mais mulheres compreendessem sobre defender a própria saúde?

Depois que me formei em medicina, tive o privilégio de dedicar um ano à pesquisa clínica. Grande parte do trabalho era baseada em desfechos, como analisar quantas pessoas ou procedimentos tiveram bons resultados em comparação com aqueles que apresentaram complicações. E uma das coisas que mais me abriram os olhos foi perceber o tamanho das disparidades existentes na assistência médica.

Desde então, diversos estudos demonstraram que um homem e uma mulher podem chegar ao mesmo hospital com a mesma condição e o homem receber um tratamento melhor, mais rápido e mais agressivo. Você poderia atribuir isso ao sexismo — e acredito que exista alguma verdade nisso também —, mas, na minha opinião, a maior razão é que a saúde da mulher nunca foi priorizada adequadamente na nossa formação médica. Pouquíssimo conteúdo dos currículos de ensino é dedicado à menopausa, à saúde sexual feminina, à saúde mental ou aos efeitos duradouros da gravidez sobre o corpo.

Além disso, quando consideramos que grande parte da fisiopatologia ensinada sobre o corpo humano foi derivada do estudo de corpos masculinos, não surpreende que muitos clínicos gerais estejam pouco preparados para discutir e diagnosticar adequadamente questões específicas da saúde da mulher.

Então, meu conselho para as mulheres é: conheçam o próprio corpo, saibam o que é normal para vocês e se manifestem quando algo não estiver normal. E, se alguém simplesmente disser que seus sintomas e desconfortos são apenas uma consequência natural do envelhecimento ou de ter tido filhos, saibam que ainda existem tratamentos capazes de ajudar a controlar ou corrigir essas questões.

Se seu médico desconsiderar suas preocupações, procure uma segunda opinião, de preferência com um especialista em saúde da mulher que leve suas questões a sério. É frustrante pensar em quantas vezes até eu mesma fui ao médico, tive minhas preocupações desconsideradas e precisei exigir determinados exames de rastreamento e encaminhamentos, apenas para depois confirmar que realmente havia alguma coisa errada. Precisamos ser as maiores defensoras da nossa própria saúde.

Jackie Dallas
Jackie Dallas

De Stranger Things a The Hunting Wives, sua carreira já levou você a personagens e universos muito diferentes. Hoje, o que um papel precisa ter para despertar aquela mesma curiosidade sobre a experiência humana que, no fim das contas, levou você da medicina para a atuação?

À medida que minha carreira avançou, tive a sorte de receber oportunidades para papéis maiores em produções maiores. E os papéis que considero mais interessantes são aqueles de personagens que tentam esconder as próprias dificuldades dentro do mundo em que vivem. Todo mundo está enfrentando alguma coisa, e personagens bem escritos também deveriam estar.

O conflito é aquilo que desperta nosso interesse por uma história, e o conflito interno é aquilo que desperta nosso interesse por uma pessoa. Adoro ter a oportunidade de interpretar uma personagem que está tentando lidar com problemas pessoais enquanto o mundo continua lançando novos desafios contra ela, porque é quase como se eu pudesse aprender a navegar por essas dificuldades junto com a personagem. Isso me dá a oportunidade de realmente mergulhar nas decisões e consequências da vida de outra pessoa, o que acho muito interessante, e aprender mais sobre ela — e sobre mim mesma — ao mesmo tempo.

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