Gyselle Soares transforma trajetória de superação em novo capítulo na política e na comunicação

Luca Moreira
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Gyselle Soares
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Após construir uma carreira marcada pela televisão, pelo entretenimento e pela atuação internacional, Gyselle Soares inicia uma nova fase ao ampliar sua atuação na comunicação e na esfera pública. Ex-finalista do Big Brother Brasil 8, artista e apresentadora, Gyselle agora aposta em projetos sociais, palestras motivacionais e na pré-candidatura a deputada federal pelo Piauí como forma de defender pautas ligadas à inclusão social, combate à violência contra a mulher e oportunidades para comunidades periféricas. Em entrevista, ela fala sobre os desafios dessa transição, as experiências pessoais que fortaleceram seu posicionamento e a vontade de usar sua trajetória como ferramenta de transformação social.

Você já viveu muitas reinvenções públicas — da arte, da televisão e da experiência internacional até a comunicação e agora a política. Em que momento sentiu que sua trajetória estava te levando naturalmente para esse novo lugar de fala e atuação?

Como eu vim da periferia e da comunidade, essa realidade sempre foi muito forte e latente em mim. E isso se intensificou ainda mais estando aqui no meu estado, o Piauí. Hoje, infelizmente, ocupamos o terceiro lugar em índices de depressão e suicídio, além de enfrentarmos a falta de autoestima e uma desigualdade social extrema: ou as pessoas são muito ricas, ou muito pobres, quase não há meio-termo. Pensando em fazer mais por quem mais precisa, há mais de três anos eu idealizei o projeto social ‘Recriando a Sua Realidade’. É um trabalho focado em inclusão, que acolhe famílias atípicas, pessoas com deficiência e jovens da periferia que só precisam de uma oportunidade e de capacitação para vencer na vida. Esse projeto abre portas para quem, muitas vezes, não tem para onde correr ou o que fazer. Com isso, a política entrou na minha vida de forma natural. Afinal, eu já faço política há mais de dez anos usando a minha imagem pública através das artes. A diferença é que, agora, com a política partidária, poderei atingir e ajudar ainda mais pessoas. Como pré-candidata a deputada federal pelo Piauí, quero expandir esse trabalho. O nosso estado ainda é muito machista: das dez vagas federais que temos, nenhuma é ocupada por uma mulher. Precisamos equilibrar esse cenário. A presença feminina no plenário traz equilíbrio, representatividade e, acima de tudo, o olhar atento para a acessibilidade e os projetos sociais.

Gyselle Soares
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Sua decisão de entrar para a política nasce também da sua própria origem e da percepção de falta de oportunidades para quem vem da periferia. Como essa menina piauiense que sonhava em ampliar horizontes conversa hoje com a mulher que quer representar seu estado?

Eu quero alcançar as pessoas para que elas saiam do lugar onde, muitas vezes, elad acham que está presa. Sei que muitas mulheres aqui não têm perspectiva de uma vida melhor. Mas, assim como eu tive que agarrar as oportunidades com unhas e dentes para sacudir a minha própria vida, eu quero sacudir a vida delas e dizer: sim, tudo é possível!

Como uma menina que veio da periferia, aqui, do Piauí, conseguiu construir uma carreira nacional e internacional e ter uma visibilidade tão grandiosa? Isso não começou do topo. Começou lavando pratos na Europa e trabalhando como empregada doméstica.

Meu caminho começou aos 14 anos, aqui no Piauí, ajudando minha mãe em serviços gerais. Eu estudava de manhã e, à tarde, trabalhava no Varejão, uma loja no centro de Teresina que existe até hoje. Eu limpava todo aquele chão e servia cafezinho para os clientes; era jovem aprendiz nos serviços gerais.Quero mostrar para essas mulheres que tudo é um processo. Hoje, com a internet, parece que tudo é fácil, mas as redes sociais também trazem muita ilusão e afetam a autoestima, porque as pessoas olham a vida perfeita dos outros e acham que o sucesso acontece do dia para a noite. Quero trazê-las para a realidade e mostrar que existem, sim, caminhos reais e projetos sérios, como o nosso projeto social ‘Recriando a Sua Realidade’, que capacita mulheres para o mercado de trabalho. Eu sei que não posso mudar o mundo inteirinho ou a vida de todo mundo, mas eu faço, com muito orgulho, a minha parte.

Gyselle Soares
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Você transformou dores muito pessoais, como a experiência de violência doméstica, em defesa pública de outras mulheres. Como foi encontrar força para converter uma vivência tão difícil em uma causa coletiva?

A primeira coisa que precisamos deixar clara é: quando uma mulher sofre violência doméstica, a culpa nunca é dela. A culpa é do agressor, de quem comete esse ato maldoso de posse. Isso é gravíssimo, e a transformação precisa começar na educação,nas escolas e dentro de casa, combatendo o machismo desde a base. Afinal, hoje o Brasil perde quatro mulheres por dia para o feminicídio.

Eu cresci vendo a força de mulheres que quebraram esse ciclo. Minha avó sustentou seis filhas vendendo pastel na porta de hospitais para conseguir sair da violência. Hoje, aos 85 anos, ela continua trabalhando no mercado, vendendo seu bolo frito, porque diz que o trabalho a mantém longe da depressão. Com a minha mãe aconteceu o mesmo. Em 1989, ela fugiu de casa com quatro filhos pequenos para escapar de um casamento marcado pela violência e pelo alcoolismo. Para que meu pai não nos encontrasse, ela precisou se mudar para um bairro distante e adotar um nome fictício: sua identidade real é Josélia, mas para o mundo ela se tornou Silvana. Anos depois, em 2008, após a minha participação no BBB, ela realizou o sonho de se formar em Direito, aos 55 anos. Ela estudou para defender a Lei Maria da Penha e trabalhou por 13 anos na Delegacia da Mulher.

Essas mulheres recriaram as suas realidades e me mostraram que era possível construir um novo futuro. E eu precisei dessa mesma força em 2019, quando sofri violência doméstica do meu então noivo, na Europa. Decidi que não aceitaria aquilo. No Natal daquele ano, abandonei tudo e fugi de volta para o Brasil. Paguei uma passagem caríssima, quatro vezes o valor normal, mas eu escolhi me salvar e buscar o acolhimento da minha família.Desde então, transformei a minha dor em propósito através dos meus projetos artísticos e, principalmente, do projeto social ‘Recriando a Sua Realidade’. Quero dizer a cada mulher que me ouve: você não está sozinha. Não tenha vergonha. Existe saída, existem órgãos de apoio como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira e redes de acolhimento como a nossa. Quando uma mulher com a minha visibilidade quebra o silêncio, é para dar voz e força para que outras também se salvem.

Gyselle Soares
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Ao longo dos anos, você construiu uma trajetória marcada por visibilidade, mas agora escolhe um caminho que exige escuta, preparo e responsabilidade pública. O que mais mudou em você ao sair do lugar de figura conhecida para o de alguém que quer atuar diretamente na vida das pessoas?

Eu vim da periferia, eu sou do povo. Sempre fui uma pessoa de pé no chão. Nem a carreira internacional, nem o mundo artístico mexeram com a minha cabeça. Sempre mantive a humildade e a certeza de que a vida é um dia de cada vez, que o mundo dá voltas. Essa veia social e essa generosidade sempre foram muito fortes em mim. Eu amo estar com o povo, amo conversar com as pessoas, porque a gente aprende de verdade quando sai da zona de conforto. Às vezes, a gente acha que tem um problemão, mas, quando para para ouvir o outro, percebe que o nosso problema não é nada. Sempre tive essa sensibilidade. Hoje, entendo que tudo o que vivi na arte foi uma preparação para me trazer até a política partidária. E sou muito grata por tudo. O povo me abraçou lá atrás, no Big Brother Brasil. Eu bati na trave, perdi o primeiro lugar por décimos, não foi nem um por cento de diferença, fiquei em segundo lugar. Foi uma visibilidade gigante para o Piauí. A partir dali, o meu estado passou a ser ainda mais reconhecido por ter uma representante piauiense com orgulho. Agora, o que eu quero é representar o meu povo na Câmara Federal. Quero ser uma voz engajada, uma mulher com uma história limpa, forte e de muita confiança. Essa postura de ouvir as pessoas é algo que eu já pratico há muito tempo; o meu desejo de escutar e ajudar nunca mudou.

Gyselle Soares
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Sua formação no RenovaBR parece ter sido um passo importante nessa preparação. O que esse processo te mostrou sobre política real, liderança e o peso de representar outras pessoas com seriedade?

Essa trajetória me ensinou algo muito importante para quem deseja ocupar um espaço de liderança, sejam mulheres ou qualquer pessoa que, assim como eu, venha da periferia: nós não precisamos ser filhos de prefeito, filhas de senadora ou casadas com o governador para fazer a diferença. Nós podemos quebrar essa barreira e mudar esse paradigma de que a política pertence apenas a famílias tradicionais.  Foi buscando essa preparação que eu entrei para o RenovaBR.

A escola me ajudou a entender a gestão pública a fundo, a saber como estruturar uma campanha ética, como liderar uma equipe e a dominar os grandes temas que impactam o nosso país hoje. É uma formação extremamente intensa e respeitada: são cerca de 50 mil inscritos por ano, e apenas 150 líderes são selecionados. Eu tive o orgulho de ser uma dessas 150 pessoas escolhidas no Brasil inteiro. Para entrar, passei por três etapas rigorosas de testes, onde precisei provar por que queria estar ali, quais eram os meus projetos para a sociedade e o que eu pretendia fazer pelo meu estado. Defendi com muita força o meu trabalho como ativista e os meus projetos de inclusão social. O RenovaBR foi um divisor de águas e um marco fundamental para consolidar a minha pré-candidatura a deputada federal pelo Piauí.

Gyselle Soares
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O projeto Recriando sua Realidade carrega uma mensagem muito forte de transformação e superação. O que você percebe, ao percorrer o Piauí, sobre os sonhos, as dores e as urgências das pessoas que encontra pelo caminho?

O que eu mais sinto quando visito as comunidades e viajo pelo meu estado é a falta de esperança. Dá uma dor no coração chegar com entusiasmo, com projetos concretos, e perceber que as pessoas estão tristes, sem acreditar mais em ninguém. E elas têm razão: estão faltando políticas públicas de verdade e leis muito mais rígidas para crimes graves. O Brasil ainda é muito frouxo na punição. As nossas leis contra a violência doméstica, por exemplo, ainda são muito brandas. Isso é gravíssimo! Eu mesma, que passei por isso e sofri perseguição de alguém que estava em outro país, sei o quanto a burocracia desprotege a vítima. Imagina a realidade das mulheres que sofrem isso aqui dentro, no dia a dia? Nós precisamos criar mecanismos mais severos de proteção e, ao mesmo tempo, agir na raiz do problema, levando o combate ao machismo para dentro das escolas, como parte da educação dos jovens. Tem tanta coisa que podemos mudar através das salas de aula!

É por isso que novos líderes, como eu e outros que estão surgindo, são tão necessários. Nós precisamos resgatar o entusiasmo da população e provar que existem, sim, pessoas de bem dispostas a fazer política séria. Não dá para colocar todo mundo no mesmo saco. Trazer essa esperança de volta e trabalhar pelo povo é a grande missão da minha vida.

Depois de 17 anos na Europa, retornando ao Brasil em definitivo e se reconectando com a família e com o seu estado, que Brasil e que Piauí você reencontrou ao voltar?

Eu tenho muito amor e gratidão pela minha família por ter me apoiado quando decidi ir para o exterior tentar a minha carreira internacional. Na época em que saí do reality show, sofri muita xenofobia e preconceito com o meu trabalho artístico aqui no Brasil. Em vez de desistir, guardei as economias que fiz no programa e fui estudar na escola de atores mais respeitada da França.

A partir dali, minha carreira decolou. Construí uma trajetória de 17 anos na Europa, especificamente na França, participando de filmes exibidos no Festival de Cannes, produções da Netflix, séries de TV e atuando como apresentadora de programas importantes. Consegui construir uma história forte lá fora e me tornar uma inspiração para o meu estado e para o Brasil, sendo uma das poucas brasileiras com uma carreira artística consolidada em solo francês.

Depois de viver tudo isso, poder voltar, matar a saudade e compartilhar as minhas vitórias de perto com a minha família é a melhor coisa do mundo. Eu sempre planejei que não passaria dos meus 40 anos morando definitivamente na Europa. Tanto que, durante os cinco anos em que estive casada lá, decidi não ter filhos para não criar raízes definitivas no exterior. A Europa foi o lugar onde conquistei respeito e espaço para o meu talento, mas o meu coração sempre esteve no meu país, para onde eu voltava duas vezes por ano para reencontrar quem eu amo.

Sua história reúne palco, televisão, rádio, livro, ativismo e agora vida pública. Quando olha para esse percurso tão múltiplo, o que sente que nunca mudou em você, apesar de todas as transformações?

O o brilho no olhar, o positivismo, o entusiasmo para as mudanças, generosidade pro próximo,. Isso nunca mudou. Ao contrário, só fortaleceu mais e mais.

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