Humberto Pimentel questiona moralidade e justiça em “Morte na Fronteira”

Luca Moreira
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Humberto Pimentel
Humberto Pimentel

Em “Morte na Fronteira”, o autor Humberto Pimentel constrói um romance policial que desafia certezas ao explorar os limites entre certo e errado. A partir da trajetória de um perito criminal aposentado que se torna advogado e assume a defesa de um delegado acusado de crime, a narrativa mergulha em um universo de ambiguidades, onde ética, verdade e justiça se revelam instáveis. Em entrevista, Pimentel fala sobre a construção de uma trama que combina investigação, existencialismo e crítica ao sistema, convidando o leitor a questionar suas próprias convicções.

Morte na fronteira parte de uma ideia muito inquietante: a de que, no limite entre o certo e o errado, quase toda verdade pode ser contestada. O que te moveu a escrever uma história ancorada justamente nessas zonas cinzentas?

Vivemos imersos em narrativas. A ideia de que o ser o humano possui dentro de si impulsos antagônicos foi a semente dessa visão. Os conflitos internos e as circunstâncias da vida de cada pessoa pode levar a decisões que somente se justificam de um certo ponto de vista. Em situações extremas, pode haver uma área de penumbra moral, em que nem todos agiriam do mesmo modo. Cada um tem a sua verdade, mas deve ser responsável por seus atos, ainda que acredite agir de forma correta. Há verdades que são provisórias.

Armando é um personagem marcado por perdas, experiência e uma visão mais sombria da existência, enquanto Noemi parece representar esperança e fé nas pessoas. Como foi construir essa dupla tão contrastante e, ao mesmo tempo, tão complementar?

Esse é um dos pilares da trama, oculto no subtexto: visões contrastantes e complementares da existência que, ao longo da história, evoluem e tendem à convergência. Armando e Noemi interagem entre si e com os fatos da vida. Com isso, cada um dá um passo rumo ao centro, em direção a um meio-termo razoável, mas talvez isso não seja totalmente possível. Essa ideia sempre esteve presente, desde a construção dos primeiros traços de cada personagem, mas a narrativa impôs uma evolução inesperada e desafiadora. Armando é um cadeirante e sua limitação física o torna mais dependente da energia e da esperança de Noemi.

O fato de Armando ser um ex-perito criminal que hoje atua como advogado criminalista já o coloca em contato com diferentes lados da verdade. O que mais te interessava explorar nessa mudança de lugar dentro do sistema de justiça?

Armando não é somente um ex-perito criminal, ele era um dos melhores, quando em atividade. Foi professor e especialista na invalidação de laudos defeituosos. Ele usa seus conhecimentos técnicos para lançar um olhar científico sobre temas como balística e vestígios. Como advogado criminalista ele traz essa bagagem, que não é comum entre os profissionais do Direito. Tudo isso amplia bastante o horizonte de possibilidades e traz mais espaço para a exploração da ambiguidade moral. Os profundos conhecimentos em perícia criminal fazem com que Armando seja um advogado que possui uma visão multidimensional sobre a cena do crime e sobre os suspeitos.

O delegado Tonho chega à trama como alguém que pede ajuda, mas também carrega obsessões, vaidade e fragilidades. Em um romance como o seu, o que torna um personagem realmente suspeito: o que ele faz, o que ele esconde ou a forma como é visto pelos outros?

Um pouco de cada uma dessas pistas. Em Morte na fronteira, por termos um narrador onisciente, é possível explorar diversos pontos de vista. O leitor poderá analisar todos esses aspectos e tirar suas próprias conclusões. Tonho é um personagem complexo, um excelente suspeito, como se pode supor. Mas, como sempre, a verdade nunca é assim tão obvia. Talvez o mais importante seja o que está escondido, em um primeiro momento, ou que se insinua, mas que pode ou não se concretizar. Até onde um delegado iria para esconder suas fraquezas?

Seu livro rompe com a lógica mais tradicional de heróis e vilões bem definidos. Você acredita que essa ambiguidade moral é justamente o que aproxima a ficção da vida real?

Acredito que sim. A tradição do romance policial foi iniciada com protagonistas que carregavam uma esperada conduta ética. O que importava para o leitor era o trinômio crime (mistério), investigação (lógica) e elucidação (surpresa). A capacidade dedutiva do protagonista era o ponto principal da trama, que via de regra não se preocupava muito com a densidade psicológica dos personagens. Ocorre que na vida real as coisas não são assim, e o leitor sabe disso. Desse modo, a obra situa-se no subgênero neo noir, em que não se espera um herói perfeito, mas o homem real, que de certo modo sobrevive na fronteira do sistema.

A obra também traz reflexões existencialistas sobre destino, fatalismo e livre-arbítrio. Em que momento você percebeu que essa investigação criminal também precisava ser, de certa forma, uma investigação sobre a condição humana?

Essa ideia estava presente desde o início, mas com o aprofundamento dos personagens foi inevitável fazer incursões sobre a condição humana. As circunstâncias pessoais do protagonista dão muito espaço para isso. Armando é um homem que já viveu bastante, apesar de ainda não ser idoso. Sofreu revezes e teve algum sucesso, então tudo isso moldou a sua personalidade. Noemi, sua assistente, é uma jovem adulta, ainda desprovida de cicatrizes emocionais. O contraponto entre as duas perspectivas é o diferencial do livro, mas não ofusca a busca pelos culpados.

Seu conhecimento jurídico certamente atravessa a construção da narrativa e do realismo investigativo. Como equilibrar a precisão técnica do Direito com a tensão literária e emocional do romance policial?

O livro é voltado, primordialmente, para o público que não possui formação técnica na área jurídica. Dessa forma, os aspectos legais são apresentados de modo a apresentar a um leigo algumas hipóteses de bastidores reais de um advogado criminalista. O equilíbrio foi um desafio, pois é muito forte a tentação de produzir um texto que somente seria apreciado pelos iniciados na prática jurídica criminal. A trama é movida por mistérios evidentes e ocultos, suspense, reflexões filosóficas e religiosas. O leitor poderá imaginar, para além do livro, os bastidores reais de como um crime pode ser montado e desmontado por quem entende de perícia.

Ao convidar o leitor para um mundo em que as certezas se desfazem a cada passo, o que você espera provocar no fim da leitura: dúvida, desconforto, reflexão ou uma nova forma de olhar para a ideia de justiça?

A proposta do livro leva o leitor à reflexão e, em certa medida, ao desconforto. Há um mergulho na alma do protagonista, que foi levado pela vida a ter uma visão sombria da existência. Talvez a investigação acerca do funcionamento dos meandros mentais de Armando seja tão reveladora quando à busca dos culpados pelo crime. Dentre tantas metáforas, digamos que há um paralelo entre a percepção da justiça que pode ser feita na sociedade e a ideia de justiça que um personagem complexo pode carregar em si. Quero que o leitor feche o livro e se pergunte sobre a validade da vingança, se não houver justiça.

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